Estudo genético mostra que infecção da sífilis está de volta

Boletim epidemiológico do Ministério da Saúde revela que um total de 64.301 casos de sífilis adquirida foi registrado no primeiro semestre de 2021. Pesquisadores descobriram duas linhagens da infecção e as duas estão circulando atualmente em 12 países

Durante décadas, a infecção sexualmente transmissível (IST) silenciosa e sistêmica da Sífilis diminui nos anos 1980 e 1990. Isto ocorreu em decorrência, em parte, das práticas sexuais mais seguras na esteira da epidemia de HIV/Aids. Porém, recentemente, no Brasil, o número de casos desta IST parece aumentar. Segundo dados atualizados pelo Ministério da Saúde (MS), cerca de 64.300 casos foram registrados no Brasil somente no primeiro semestre de 2021. O número é 16 vezes maior do que em todo o ano de 2010, quando 3.936 pessoas foram diagnosticadas com a doença.

Em um levantamento realizado pela CNN Brasil, mostrou que o Centro-Oeste aparece com 7% dos casos totais de todo país, sendo a última do ranking. Desta forma, o Centro-Oeste segue o Sudeste que representa cerca de 45% dos casos, em seguida, aparecem o Sul (22%), Nordeste (16,5%), Norte com 8%. 

Mesmo com uma baixa expressiva, em comparação com as outras regiões do país, os casos de sífilis seguem sim uma ascensão no estado. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), no período entre 2010 e 2029 foram detectados 25.616 casos de sífilis adquirida, 12.707 casos em gestantes e 2.385 casos de sífilis congênita no estado. Os casos concentram-se na população masculina (65%) e na faixa etária de 20 a 29 anos.

Segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, é possível observar que no ano de 2020, comparado ao ano de 2019, houve redução de todas as taxas: 26,6% na taxa de detecção de sífilis adquirida, 9,4% na taxa de incidência de sífilis congênita e 0,9% na taxa de detecção em gestantes. A redução no número de casos pode decorrer de uma subnotificação dos casos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) devido à mobilização local dos profissionais de saúde ocasionada pela pandemia.

A sífilis tem cura e o tratamento é simples, por meio de uma a três doses de penicilina, dependendo da fase da doença, disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS). Quando não é tratada, a bactéria permanece no organismo e a doença evolui para os estágios de sífilis secundária, quando podem ocorrer manchas, pápulas e outras lesões no corpo, incluindo palmas das mãos e plantas dos pés, além de febre, mal-estar, dor de cabeça e línguas. Além disso, pode acarretar também na sífilis latente, fase assintomática, quando não aparece mais nenhum sinal ou sintoma. Após o período de latência, que dura de dois a 40 anos, a doença evolui para a sífilis terciária, uma condição grave que leva à disfunção de vários órgãos e pode provocar a morte do paciente. Costuma apresentar lesões ulceradas na pele, além de complicações ósseas, cardiovasculares e neurológicas.

Pesquisa

Em um mapeamento sobre o ressurgimento da doença em todo o mundo, pesquisadores da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM, na sigla em inglês), Instituto Wellcome Sanger, Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido, foi considerado o maior e mais abrangente estudo dos genomas da sífilis até hoje e fornece dados sobre como as cepas estão se movendo ao redor do mundo. 

A pesquisa intitulada “Global phylogeny of Treponema pallidum lineages reveals recent expansion and spread of contemporary syphilis revelou que a equipe descobriu que todas as amostras vieram de apenas duas linhagens profundamente ramificadas, Nichols e SS14. Ambas as linhagens estão circulando atualmente em 12 dos 23 países amostrados, e amostras quase idênticas estiveram presentes em 14 desses países. Também foram encontradas algumas sub-linhagens mais raras, como cepas únicas ou privadas de um único país. Embora isso possa ser esperado em locais com pouca amostragem e geograficamente distantes, como Cuba, Haiti, México e Zimbábue, a pesquisa mostrou que a maioria das sub-linhagens privadas e cepas únicas eram, na verdade, do Canadá, Reino Unido ou EUA, sugerindo que uma amostragem mais profunda em outros lugares também pode encontrar uma nova diversidade.

O Dr. Mathew Beale, do Instituto Wellcome Sanger, primeiro autor do estudo, explica que foram encontradas evidências de transmissão generalizada de cepas entre países e que a maioria das cepas de todo o mundo são extremamente semelhantes. “Isso porque compartilham uma fonte comum que data de apenas algumas décadas (final dos anos 1990 / início dos anos 2000). Embora também tenhamos sequenciado algumas cepas mais antigas, elas não estão intimamente relacionadas à sífilis atual e parece que novas cepas (linhagens) de sífilis substituíram as mais antigas”, ressalta. 

Ainda segundo o pesquisador, as linhagens de sífilis dominantes que infectavam pacientes antes de 1983 não são as mesmas que infectam hoje. “Nossa análise mostra um gargalo populacional ocorrido no final da década de 1990 que indica um grande declínio no tamanho da população de T. pallidum, provavelmente como resultado da crise de HIV / Aids”, destaca. Para ele, isso acende um alerta do ponto de vista da saúde pública. “O preocupante é que a presença de amostras quase idênticas em vários países sugere que a doença está sendo transmitida internacionalmente de forma regular. A sífilis está de volta e é global”, atenta o Dr. Beale.

Para realizar o levantamento, os pesquisadores utilizaram 726 amostras de sífilis de 23 países, as quais incluíram áreas bem amostradas, como Estados Unidos e Europa Ocidental, além de regiões mal amostradas, como Ásia Central, Austrália e África. O estudo é um recurso valioso para a compreensão da diversidade genética do T. pallidum que pode ter implicações para o desenvolvimento de vacinas e resistência aos medicamentos. Além disso, o estudo também mostra a associação com o aumento da sífilis congênita, que decorre do aumento do número geral de casos. 

Atualmente, uma limitação da pesquisa é o número muito limitado de amostras de certas partes do mundo, incluindo a América Latina. Não há genomas disponíveis atualmente no Brasil e por isso a equipe está em busca de laboratórios no Brasil ou países vizinhos que tenham interesse em colaborar com a genômica da sífilis.

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