Entre o diploma e o primeiro cliente: jovens advogados encaram choque de realidade no início da carreira
25 agosto 2026 às 07h30

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A aprovação no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) encerra uma etapa, mas está longe de significar que o caminho profissional está definido. Depois de anos estudando leis, doutrinas e processos, recém-formados descobrem que construir uma carreira na advocacia envolve desafios que nem sempre aparecem dentro da universidade: encontrar clientes, aprender a cobrar pelo próprio trabalho, criar uma rede de contatos, administrar prazos e sobreviver financeiramente enquanto o nome ainda é desconhecido no mercado.
É nesse intervalo entre receber a carteira profissional e conseguir se estabelecer que muitos jovens advogados enfrentam uma espécie de choque de realidade.
Aos 28 anos, o presidente da Comissão da Advocacia Jovem da OAB Goiás, Homero Silva Neto, acompanha de perto esse cenário. Para ele, parte da dificuldade começa na diferença entre aquilo que é ensinado durante a graduação e o que será exigido do profissional depois dela.
“A faculdade de Direito ensina o direito material e processual, mas longe de preparar para as dificuldades reais do mercado”, afirma.
O problema ganha outra dimensão diante do tamanho da concorrência. Homero lembra que o Brasil possui praticamente 1,5 milhão de advogados. Nesse universo, começar fazendo exatamente o mesmo que milhares de outros profissionais pode dificultar ainda mais a entrada no mercado.
“Temos praticamente 1,5 milhão de advogados no Brasil. Muitos fazem o mais do mesmo, não buscam diferenciação, capacitação, não expandem sua rede de contatos e não investem em habilidades laterais”, avalia.
Para ele, três fatores precisam caminhar juntos desde os primeiros anos: conhecimento técnico, relacionamento profissional e desenvolvimento de habilidades como comunicação, oratória e inteligência emocional.
O primeiro desafio pode aparecer antes mesmo da OAB
Para alguns estudantes, a dificuldade de chegar ao mercado começa ainda durante a faculdade.
A estudante de Direito Laryssa Damasceno, de 23 anos, diretora de Comunicação da Liga Acadêmica de Direito (LAD) e servidora do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás há cinco anos, aponta a incompatibilidade de horários como um dos obstáculos para quem tenta adquirir experiência.
Muitos estágios funcionam justamente nos períodos em que parte dos universitários está estudando ou trabalhando em outra atividade para conseguir pagar a graduação.
“Se você precisa de um estágio obrigatório, mas trabalha em um emprego CLT para pagar a faculdade, é impossível conciliar”, relata.
Na avaliação dela, chegar ao fim do curso sem contato suficiente com a rotina jurídica pode deixar o recém-formado despreparado para situações básicas da profissão.
“A faculdade não te forma para ser um profissional. Você sai muito cru, um livro em branco”, afirma.
Por isso, Laryssa considera importantes experiências que ultrapassem a grade curricular, como ligas acadêmicas, centros acadêmicos e outras atividades capazes de aproximar estudantes de profissionais e ampliar a rede de contatos.
Ter a carteira não significa saber advogar sozinho
A advogada Tátila Fernanda, de 27 anos, formada há três anos e atualmente advogada plena em uma empresa de transporte público, sentiu essa diferença quando começou a trabalhar.
Na prática, percebeu que dominar o conteúdo jurídico era apenas uma parte das responsabilidades.
“Quando a gente começa a atuar, precisa aprender na prática a lidar com clientes, prazos, audiências, honorários, estratégias e, principalmente, com a responsabilidade que existe por trás de cada caso”, conta.
Para ela, o início também desmonta uma imagem ainda associada à profissão. O título de advogado pode transmitir a ideia de estabilidade e boa remuneração, enquanto a realidade de quem está começando pode envolver justamente o contrário.
“Existe um certo status associado à profissão, mas, principalmente no início, a realidade pode ser bem diferente. Precisamos correr atrás de clientes, lidar com inseguranças e construir nosso espaço praticamente do zero”, afirma.
E de onde vêm os primeiros clientes?
Essa pergunta está entre as mais difíceis para quem decide advogar por conta própria.
Ana Lívia Gonçalves, de 25 anos, especialista em Direito do Consumidor e formada há um ano e cinco meses, considera a construção de networking e a captação de clientes algumas das maiores lacunas entre a universidade e o mercado.
“A faculdade não ensina isso. O advogado jovem, antes de querer ser advogado, tem que saber ter jogo de cintura com pessoas”, diz.
Na visão dela, saber ouvir pode ser tão importante quanto dominar a legislação.
“A advocacia vai muito além de ter uma carteira da OAB. Você tem que ser uma pessoa boa para conversar e para ouvir. Se você não escuta o seu cliente, não tem como resolver o problema dele”, afirma.
Por ter começado a trabalhar em escritórios ainda durante a formação, Ana Lívia considera que o contato antecipado com a rotina profissional foi importante para chegar à advocacia com mais segurança. Por isso, recomenda que estudantes busquem experiência desde os primeiros períodos, quando houver possibilidade.
Quando o salário não acompanha a expectativa
Quem opta por trabalhar para um escritório pode encontrar outro obstáculo: a remuneração.
Homero relata situações em que profissionais recém-formados recebem propostas próximas de um salário mínimo, mesmo depois dos cinco anos de graduação e da aprovação no exame da Ordem.
Segundo ele, Goiás possui um piso ético de R$ 2,5 mil para a advocacia. O valor funciona como uma referência, mas não elimina propostas inferiores encontradas no mercado.
Para Homero, a grande quantidade de profissionais disponíveis ajuda a explicar a pressão sobre os salários.
“Em razão de termos 1 milhão e meio de advogados no Brasil e muitas pessoas com necessidade de trabalhar, alguns escritórios acabam aproveitando essa circunstância e pagam salários muito abaixo e inimagináveis para um advogado que se capacitou por cinco anos, tirou sua carteira de ordem e começou a advogar”, afirma.
Tátila também identifica a instabilidade financeira como uma das barreiras mais pesadas do começo da trajetória. Sem renda fixa ou clientes suficientes, despesas pessoais e profissionais continuam chegando.
Esse cenário, segundo ela, ajuda a explicar por que parte dos recém-formados prefere buscar vagas em escritórios consolidados ou direcionar os estudos para concursos públicos.
Abrir o próprio escritório significa acumular funções
A independência profissional pode ser uma alternativa, mas vem acompanhada de outras responsabilidades.
Sem recursos para montar uma estrutura completa, o jovem que abre um escritório pode descobrir rapidamente que precisará exercer muito mais funções do que simplesmente advogar.
“Porque o jovem advogado precisa ser ao mesmo tempo quem faz prospecção, quem executa a petição, o recepcionista, o financeiro, o gestor de prazos, quem faz o protocolo, tudo isso em uma pessoa só”, explica Homero.
Nesse modelo, a jornada dificilmente termina após oito horas. Além dos processos, há atendimento aos clientes, administração, cobrança, organização financeira e busca por novos contratos.
Para profissionais contratados pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), Homero ressalta que cabe ao empregador respeitar as normas trabalhistas.
Redes sociais viram vitrine profissional
Em um mercado concorrido, o celular também passou a fazer parte da construção da carreira.
Tátila considera as redes sociais uma ferramenta para apresentar conhecimento e construir autoridade profissional. Para jovens ainda sem uma grande carteira de clientes ou indicações consolidadas, o ambiente digital permite alcançar pessoas fora do círculo tradicional de contatos.
“Elas permitem compartilhar conhecimento, mostrar nosso trabalho, construir autoridade e alcançar pessoas que talvez nunca chegassem até nós pelos meios tradicionais”, afirma.
O desafio é conciliar a necessidade de visibilidade com as regras éticas aplicáveis à publicidade na advocacia.
Para Homero, desenvolver independência é essencial justamente para que o profissional não permaneça condicionado aos clientes captados por terceiros. A construção de uma carteira própria pode abrir caminho tanto para um escritório independente quanto para o crescimento dentro de uma banca consolidada.
Inteligência artificial muda a porta de entrada da profissão
Além das redes sociais, outra transformação já começa a afetar a rotina dos novos advogados: a inteligência artificial.
Homero considera que aprender a utilizar a tecnologia deixou de ser apenas um diferencial.
“A jovem advocacia precisa tomar consciência de que inteligência artificial é uma ferramenta indispensável. O escritório que não investir em inteligência artificial corre sérios riscos de ficar fora do mercado em dois anos”, avalia.
Na visão dele, ferramentas de IA podem reduzir o tempo necessário para determinadas tarefas e aumentar a produtividade, algo especialmente relevante para profissionais iniciantes submetidos a grandes volumes de produção.
O avanço tecnológico acrescenta, portanto, mais uma exigência à lista de competências esperadas de quem entra na profissão.
Errar também faz parte da formação
Três anos depois de começar a advogar, Tátila diz que mudaria algumas escolhas caso pudesse retornar ao início da trajetória.
“Eu teria me arriscado mais e me permitido errar mais. Também teria investido mais cedo em cursos de oratória, posicionamento, comunicação e imagem profissional, porque hoje percebo o quanto essas habilidades fazem diferença na advocacia”, conta.
A experiência fez com que ela percebesse que esperar estar completamente preparada também pode impedir o desenvolvimento profissional.
“Eu me preocupava muito em estar pronta, em não cometer erros, quando, na verdade, a gente aprende justamente se permitindo tentar, errar e evoluir”, afirma.
A percepção ajuda a resumir uma realidade compartilhada pelos jovens ouvidos pela reportagem. A carteira da OAB autoriza o exercício da profissão, mas não entrega junto clientes, estabilidade financeira, experiência ou reconhecimento.
Esses elementos são construídos posteriormente e, em muitos casos, sob pressão.
Para Homero, entender que o retorno pode não ser imediato é fundamental para atravessar os primeiros anos.
“O advogado jovem tem que plantar pensando numa colheita futura, mas certo que essa colheita virá, fazendo o que tem que ser feito dentro dos limites éticos e dentro da técnica”, conclui.
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