Goiás confirmou 36 casos de doença de Creutzfeldt-Jakob em 21 anos, mas nenhum ligado à “vaca louca”
24 agosto 2026 às 19h11

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A repercussão nacional em torno do diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) no especialista em aviação e criador do canal Aviões e Músicas, Lito Sousa, voltou a chamar atenção para uma condição neurológica rara e de rápida progressão. Em Goiás, dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) mostram que 36 casos da doença foram confirmados entre 2005 e 2026, sendo quatro somente neste ano.
Apesar dos registros, a pasta faz uma ressalva importante: nenhum dos casos confirmados no estado corresponde à variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (vDCJ), associada à encefalopatia espongiforme bovina (EEB), popularmente conhecida como “doença da vaca louca”.
“A Secretaria de Estado da Saúde informa que em Goiás não há caso confirmado para a Doença de Creutzfeldt-Jakob (vDCJ), associada à encefalopatia espongiforme bovina, conhecida como ‘doença da vaca louca”, informou a SES-GO.
Segundo a secretaria, o Brasil e Goiás nunca registraram casos da nova variante.
Goiás teve 96 casos suspeitos desde 2005
Entre 2005 e 2026, Goiás contabilizou 96 notificações de casos suspeitos de DCJ. Desse total, 36 tiveram confirmação, o equivalente a 37,5% das notificações registradas no período.
Goiânia concentra a maior parcela dos casos confirmados, com 16 registros, o equivalente a 44,4% do total. Anápolis aparece na sequência, com três. Os outros 17 casos estão distribuídos entre diferentes municípios goianos.
Dos 36 casos confirmados em pouco mais de duas décadas, quatro foram registrados em 2026.
A SES-GO esclarece que a identificação da forma da doença integra a investigação epidemiológica. As informações são registradas nos prontuários e acompanhadas pela secretaria, inclusive para avaliar se determinado caso poderia se enquadrar como vDCJ.
DCJ possui quatro formas conhecidas
De acordo com a SES-GO, são conhecidas quatro formas da doença de Creutzfeldt-Jakob: esporádica, hereditária, iatrogênica e a nova variante, chamada de vDCJ.
É justamente a última que possui relação com a chamada “doença da vaca louca”. A vDCJ está associada ao consumo de carne ou subprodutos de bovinos contaminados pela encefalopatia espongiforme bovina.
Por isso, embora os nomes sejam semelhantes, a existência de um diagnóstico de DCJ não significa que a pessoa tenha adquirido a doença por meio do consumo de carne bovina.
A literatura científica também descreve a DCJ como uma doença rara relacionada a alterações de proteínas priônicas. Essas proteínas anormais podem induzir outras proteínas a assumirem uma conformação alterada, desencadeando um processo progressivo de degeneração cerebral.
O estudo publicado por Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues e Mariele Tatiane Mosquer também diferencia a variante relacionada à encefalopatia espongiforme bovina das formas esporádicas e genéticas da DCJ.
Doença pode evoluir rapidamente
A DCJ compromete o cérebro e o sistema nervoso e pode provocar alterações comportamentais, perda de memória e raciocínio, dificuldades de coordenação, espasmos musculares, comprometimento da fala e perda progressiva das habilidades motoras.
Uma das dificuldades está justamente no diagnóstico. Os sintomas podem se confundir com outras doenças neurológicas, exigindo avaliação clínica, análise do histórico médico, exames de imagem cerebral e testes do líquido cefalorraquidiano.
Entre os exames utilizados na investigação estão a ressonância magnética, a pesquisa da proteína 14-3-3 e o RT-QuIC.
Pesquisador brasileiro já estudou caso da doença
A doença já era objeto de estudo do pesquisador e bioinformata Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, diretor científico do Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH), antes mesmo da repercussão envolvendo Lito Sousa.
Em trabalho publicado em coautoria com a médica Mariele Tatiane Mosquer, Fabiano analisou o caso de um homem de 46 anos que apresentou rápida deterioração neurológica. O estudo foi elaborado com o objetivo de abordar características, sintomas e diagnóstico da DCJ e apresentar resultados reais de exames utilizados durante a investigação de um paciente.
O paciente inicialmente apresentou dores nas pernas e, meses depois, evoluiu com vertigem, zumbido, cefaleia, dificuldade na fala, redução da força muscular e ataxia cerebelar. Com a rápida progressão, uma nova ressonância apresentou alterações compatíveis com encefalopatia espongiforme.
A investigação também encontrou proteína 14-3-3 superior a 80 mil AU/mL e resultado positivo no RT-QuIC.
Caso Lito aumenta atenção sobre doença rara
A divulgação do diagnóstico de Lito Sousa levou a doença para um público que, até então, pouco conhecia as enfermidades priônicas. Para Fabiano, a repercussão também pode ajudar a ampliar a discussão científica sobre uma condição que, justamente por ser rara, apresenta dificuldades para formação de grandes grupos de pacientes para pesquisa.
“Para mim, é uma das doenças mais sérias da atualidade. Não pelo número absoluto de casos, porque é rara, mas pela velocidade de progressão, pela gravidade e pelo quanto ainda não sabemos. Cada caso me chama a atenção”, afirma.
O pesquisador relata que, após a publicação de seus trabalhos, passou a receber contatos de familiares, pessoas com suspeitas e profissionais interessados em compartilhar informações relacionadas às doenças priônicas. Segundo ele, o CPAH e o Genetic Intelligence Project (GIP) passaram a reunir dados para possíveis investigações científicas e bioinformáticas.
Fabiano ressalta, contudo, que esses contatos não significam diagnósticos confirmados e não podem ser utilizados como estimativa da incidência da doença.
Casos de Goiás não podem ser associados à “vaca louca”
Os números divulgados pela SES-GO reforçam uma distinção considerada fundamental por especialistas. Goiás possui histórico de casos confirmados de doença de Creutzfeldt-Jakob, mas nenhum deles foi classificado como a nova variante associada à encefalopatia espongiforme bovina.
A própria secretaria acompanha a classificação durante a investigação dos casos e avalia especificamente se existem características compatíveis com vDCJ.
Portanto, os 36 diagnósticos registrados no estado desde 2005 não representam casos de “doença da vaca louca”. Segundo a SES-GO, até 2026, nem Goiás nem o Brasil registraram confirmação da nova variante.
A distinção também é importante diante da repercussão do caso de Lito Sousa. Com base apenas nas informações tornadas públicas, não é possível estabelecer a origem ou associar o diagnóstico individual à exposição a carne bovina contaminada.
Para Fabiano, a visibilidade alcançada pelo caso pode ser aproveitada para ampliar o conhecimento sobre a doença, desde que não leve a conclusões sem respaldo científico.
“O caso de Lito tornou essa doença visível. Agora precisamos aproveitar essa atenção para produzir conhecimento, sem sensacionalismo e sem ultrapassar aquilo que as evidências realmente permitem afirmar.”
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