“Criança não é adulto pequeno”: pediatra alerta para riscos das canetas emagrecedoras entre jovens
24 agosto 2026 às 18h58

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O uso de medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras” por crianças e adolescentes sem indicação e acompanhamento médico acendeu um alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Embora esses medicamentos possam ser utilizados no tratamento de condições específicas, como obesidade e diabetes tipo 2, o uso indiscriminado pode provocar efeitos adversos e comprometer o crescimento e o desenvolvimento.
Em entrevista ao Jornal Opção, a pediatra Caroline Teles Ferreira, membro da SBP, explicou que os medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1 atuam em mecanismos metabólicos e hormonais importantes e, por isso, exigem critérios ainda mais rigorosos durante a infância e a adolescência.
“Esses medicamentos não devem ser vistos simplesmente como canetas para emagrecer. Nós estamos falando de medicamentos que atuam em mecanismos metabólicos e hormonais importantes e podem ter uma indicação no tratamento de doenças crônicas específicas, como obesidade e diabetes tipo 2. Na pediatria, essa indicação precisa ser ainda mais criteriosa, porque estamos tratando um organismo que está em crescimento e desenvolvimento. A criança e o adolescente não são adultos pequenos”, explica Caroline.
Em nota, a SBP afirma que o uso inadequado desses medicamentos pode aumentar a frequência e a gravidade de eventos adversos. Entre os possíveis riscos estão déficit de crescimento e desenvolvimento, desidratação, distúrbios eletrolíticos, perda de massa muscular, pancreatite aguda e problemas na vesícula biliar.
A entidade também contraindica o uso de produtos sem procedência ou registro sanitário, incluindo preparações clandestinas, manipuladas ou importadas sem registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Indicação deve ser criteriosa
Caroline destaca que os medicamentos podem ser utilizados em determinadas situações, desde que haja indicação médica e sejam respeitadas as faixas etárias e as condições clínicas aprovadas para cada princípio ativo.
“Essas medicações podem ser ferramentas importantes quando forem corretamente indicadas dentro das faixas etárias e das condições clínicas aprovadas para cada princípio ativo, mas não devem ser utilizadas para perder alguns quilos simplesmente, melhorar a aparência antes de uma festa, uma viagem, uma competição ou para atingir um padrão corporal que está muitas vezes imposto pelas redes sociais”, afirma.
Segundo a pediatra, antes de prescrever qualquer medicamento, é necessário avaliar diferentes aspectos da saúde da criança ou do adolescente, como trajetória de crescimento, índice de massa corporal (IMC) em relação à idade, estágio puberal, composição corporal, alimentação, atividade física, sono, saúde emocional, presença de comorbidades e histórico familiar.
“Nós também precisamos entender o contexto em que surgiu o desejo de emagrecer”, acrescenta.
A especialista ressalta ainda que a medicação não substitui hábitos saudáveis nem o acompanhamento de outros profissionais.
“A medicação não substitui a alimentação adequada, nem a atividade física, nem o sono e nem o acompanhamento multiprofissional, que é fundamental quando a gente pensa em uma dessas medicações. Ela deve fazer parte de um plano terapêutico mais amplo”, explica.
Náuseas, vômitos e outros efeitos
De acordo com Caroline, os efeitos adversos mais frequentes são gastrointestinais. Entre eles estão náuseas, vômitos, dor ou desconforto abdominal, refluxo, diarreia e constipação.
“Dependendo da intensidade desses sintomas, eles podem reduzir excessivamente a ingestão alimentar e levar a uma desidratação importante”, alerta.
A pediatra também cita complicações menos frequentes, mas potencialmente graves, como pancreatite, cálculos biliares, inflamação da vesícula biliar e hipoglicemia, especialmente quando há associação com outros medicamentos utilizados no tratamento do diabetes.
Perda de massa muscular preocupa
Outro ponto de atenção na pediatria é que a redução de peso não representa necessariamente perda exclusiva de gordura. Segundo Caroline, adolescentes podem perder uma quantidade significativa de massa magra, principalmente quando passam a consumir menos alimentos durante o tratamento.
“Se o adolescente passa a comer muito pouco, também podemos ter uma ingestão insuficiente de proteínas, vitaminas, minerais e energia, justamente durante uma fase de intensa demanda nutricional”, afirma.
Ela explica que os medicamentos da classe possuem indicações e faixas etárias distintas. Algumas substâncias já são indicadas para o tratamento da obesidade em adolescentes dentro de critérios específicos, enquanto outras têm indicações diferentes, como o tratamento do diabetes tipo 2.
Por isso, a decisão sobre o tratamento não deve considerar apenas o peso.
“A indicação desse medicamento deve ser sempre pensada avaliando não somente o peso da criança. Precisamos avaliar todas as comorbidades, a presença de obesidade, se tem hipertensão, alterações metabólicas, diabetes, colesterol alto ou alguma doença hepática associada”, diz Caroline.
Também devem ser considerados tratamentos anteriores, estágio de crescimento e desenvolvimento, saúde emocional e a capacidade da família de manter acompanhamento regular com o médico e uma equipe multiprofissional.
“O sobrepeso isolado ou uma simples insatisfação com a estética não são sinônimos de indicação desse tratamento”, reforça.
Crescimento precisa ser monitorado
A pediatra alerta que o uso inadequado desses medicamentos pode comprometer o crescimento e o desenvolvimento, principalmente quando provoca restrição alimentar excessiva ou perda de peso muito rápida.
“Crianças e adolescentes precisam de energia. Eles precisam de proteínas, gorduras essenciais, vitaminas e minerais não apenas para manter o organismo funcionando, mas para crescer, formar massa óssea e muscular, atravessar adequadamente a puberdade e sustentar o desenvolvimento cerebral”, explica.
Durante o tratamento, o acompanhamento deve ir além da balança. Segundo Caroline, é necessário observar altura, velocidade de crescimento, IMC para a idade, composição corporal, estágio puberal, ingestão alimentar e massa muscular, além de sintomas gastrointestinais e parâmetros laboratoriais, quando indicados.
“O objetivo do tratamento da obesidade pediátrica é melhorar a saúde da criança e do adolescente e não produzir um emagrecimento rápido a qualquer custo, porque a criança em fase de crescimento pode ter muito mais perdas do que ganhos com isso”, afirma.
Pais devem ficar atentos aos sinais
Caroline orienta os pais a observarem possíveis sinais de efeitos adversos. Náuseas leves podem surgir principalmente no início do tratamento ou durante o aumento das doses. Já vômitos persistentes, dificuldade para se alimentar ou ingerir líquidos, sinais de desidratação, fraqueza intensa, tontura e desmaio exigem contato com o médico.
“Dor abdominal forte e persistente, especialmente quando acompanhada de vômitos, também precisa de uma avaliação, porque pode estar relacionada a complicações como pancreatite e até mesmo doença da vesícula”, alerta.
Tremores, suor excessivo, confusão, sonolência intensa ou perda de consciência podem indicar hipoglicemia, principalmente em pacientes que utilizam outros medicamentos para diabetes.
A especialista recomenda ainda atenção a sinais menos evidentes, como perda de peso acelerada, redução aparente de massa muscular, recusa alimentar, medo de comer, preocupação excessiva com calorias e peso, compulsão por se pesar, isolamento social ou mudanças significativas na relação com o próprio corpo.
“A saúde emocional precisa ser acompanhada com a mesma atenção que o peso”, ressalta.
Redes sociais aumentam pressão estética
Para Caroline, a pressão estética e as redes sociais têm papel importante na banalização do uso dessas medicações entre adolescentes.
“Sem sombra de dúvida, esse é um fator extremamente importante que tem contribuído para o aumento do uso dessas medicações. O adolescente está justamente em uma fase de construção da identidade e da imagem corporal e, por isso, é particularmente vulnerável à comparação social”, diz.
Segundo ela, os jovens são expostos diariamente a corpos idealizados, filtros, procedimentos estéticos, dietas e relatos de perda rápida de peso. O problema, destaca, é que esses conteúdos geralmente não apresentam informações sobre indicação médica, contraindicações, efeitos adversos e acompanhamento necessário.
“Isso pode transformar o medicamento destinado a um tratamento de doenças em um produto de consumo estético”, afirma.
A pediatra defende que o debate também envolva autoestima, diversidade corporal, alimentação saudável e saúde mental. Para ela, o objetivo não é condenar o uso dos medicamentos, mas evitar que sejam tratados como uma solução estética ou um atalho para a perda de peso.
“Nós não devemos demonizar esses medicamentos, porque eles podem ser excelentes ferramentas quando existe indicação médica, e o que nós precisamos combater é a banalização”, frisa.
“Medicamento para obesidade não é recurso estético, não é atalho para emagrecimento e não deve ser utilizado sem avaliação e acompanhamento médico, especialmente durante a infância e adolescência”, conclui.
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