Economia pressionada: empresas renegociam R$ 670 bilhões em débitos
20 maio 2026 às 17h54

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As empresas brasileiras renegociam atualmente cerca de R$ 670 bilhões em dívidas com credores, segundo levantamento da consultoria Virtus BR, encomendado pelo Valor. O valor representa aproximadamente 10% de todo o estoque de crédito corporativo do país e mostra os impactos do longo período de juros elevados sobre a atividade econômica nacional.
O montante é mais que o dobro do registrado no início de 2024, quando as renegociações giravam em torno de R$ 260 bilhões. Entre as empresas em processo de reestruturação estão grandes grupos como Raízen, Braskem, GPA, Ambipar, Agrogalaxy e Oncoclínicas. O avanço dos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial também atinge empresas de capital fechado, especialmente nos setores de varejo, construção civil, indústria e agronegócio.
Para o economista Márcio Dourado, o cenário atual é consequência direta da manutenção da taxa básica de juros em patamar elevado por um período maior do que o esperado pelo mercado. “A gente está vivendo um período bastante complicado, de juros muito altos durante muito tempo. Isso faz com que as dívidas das empresas se multipliquem muito rápido e virem verdadeiras bolas de neve”, afirmou ao Jornal Opção.
Segundo ele, o impacto vai além apenas do valor das dívidas. “Quando a empresa perde capacidade de gerar caixa suficiente para pagar os juros, ela começa a se afundar em um processo de inadimplência que ganha caráter exponencial”, explica.
De acordo com Dourado, embora o mercado já esperasse juros elevados, a permanência prolongada da Selic em níveis altos acabou deteriorando gradualmente a saúde financeira das empresas. “Não foi exatamente uma surpresa, mas esse prolongamento vai cozinhando o mercado aos poucos. A empresa perde fôlego porque não consegue acessar capital mais barato”, afirma.
O economista diz que o custo elevado do crédito se soma a outros fatores que já pressionam o setor produtivo, como carga tributária elevada, aumento da concorrência e dificuldade de fluxo de caixa.
Segundo pesquisa da RK Partners citada no levantamento da Virtus BR, cerca de 24% das empresas brasileiras já não conseguem gerar caixa suficiente para pagar sequer os juros das próprias dívidas. Além disso, 45% das companhias apresentam alavancagem considerada elevada, acima de três vezes o Ebitda.
Para Dourado, o cenário pode trazer reflexos mais amplos para a economia caso os juros permaneçam altos por muito tempo. “Empresas muito endividadas investem menos. E, investindo menos, a economia cresce menos e gera menos emprego e renda no médio e longo prazo”, avalia.
Varejo e indústria pesada sentem mais os efeitos
Entre os segmentos mais pressionados pelo crédito caro estão setores com margens de lucro menores e alta concorrência, especialmente o varejo. “Esses setores sofrem dos dois lados. Sofrem para tomar crédito e também para vender, porque o consumidor final também está pagando juros altos”, explica o economista.
Ao mesmo tempo, setores que dependem de investimentos intensivos em capital, como indústria pesada e produção em larga escala, também enfrentam maior dificuldade para manter operações e expansão. “São setores que precisam constantemente captar recursos para investir. Quando o custo desse capital sobe muito, a operação fica mais difícil”, afirma.
O impacto tende a ser ainda mais severo sobre pequenas e médias empresas, que possuem menos alternativas de financiamento e dependem principalmente do sistema bancário tradicional.
“As grandes empresas conseguem acessar o mercado financeiro de formas mais sofisticadas, emitindo títulos de dívida ou captando recursos diretamente com investidores. As pequenas e médias normalmente só conseguem recorrer aos bancos”, explica Dourado.
Segundo ele, isso faz com que essas empresas paguem juros ainda mais altos e tenham menos capacidade de renegociação. “Elas sofrem mais porque possuem menos acesso a crédito estruturado e menos margem financeira para suportar longos períodos de juros elevados”, afirma.
Apesar da percepção de restrição no mercado, Dourado avalia que o sistema financeiro brasileiro continua sólido e com capacidade de emprestar. O problema, segundo ele, está no custo do dinheiro. “O banco nunca foi amigo de ninguém. Sempre houve critérios rigorosos para concessão de crédito”, afirma.
Ele explica que os juros bancários acompanham a remuneração paga pelo governo na taxa básica. “Hoje os bancos têm recursos para emprestar. O que falta é uma política de juros mais competitiva”, diz.
Especialistas do setor financeiro também apontam que os bancos têm exigido mais garantias das empresas para alongar prazos de dívidas, especialmente após o aumento de grandes recuperações judiciais nos últimos meses.
A expectativa do mercado financeiro no início do ano era de uma desaceleração mais rápida da inflação e consequente redução da Selic para patamares próximos de 12% ao final de 2026. No entanto, os conflitos internacionais recentes, especialmente no Oriente Médio, passaram a pressionar preços globais e reduzir a perspectiva de cortes mais agressivos nos juros.
“Os conflitos internacionais elevaram a inflação, e a taxa de juros é o remédio para controlar isso. Então a tendência é que os juros caiam menos do que se imaginava no começo do ano”, afirma Dourado.
Segundo ele, enquanto houver pressão inflacionária global, o Banco Central deve manter cautela na redução dos juros, prolongando um cenário de crédito caro e maior dificuldade financeira para empresas brasileiras.
O resultado já aparece no aumento recorde de renegociações, reestruturações e recuperações judiciais em diferentes setores da economia. Especialistas avaliam que o cenário deve continuar pressionado nos próximos meses, especialmente para empresas mais alavancadas e dependentes de capital de giro.
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