Uma empresa sediada em Goiânia está no centro da estrutura comercial responsável por levar a metodologia educacional de Augusto Cury a escolas públicas de diferentes regiões do país. Segundo levantamento publicado pela revista Fórum, a Inteligência Educacional, com sede na capital goiana, aparece como responsável pela comercialização e distribuição de materiais da Escola da Inteligência em 25 contratos e outros instrumentos firmados em dez estados brasileiros. As operações movimentaram mais de R$ 30 milhões.

A metodologia é baseada na chamada Teoria da Inteligência Multifocal, desenvolvida por Cury. O escritor, atualmente candidato à Presidência da República pelo Avante, não aparece como signatário direto das contratações públicas identificadas no levantamento. A empresa goianiense é quem figura nos documentos como fornecedora de livros, kits e outros materiais pedagógicos adquiridos pelo poder público.

Jornal Opção entrou em contato com todos os canais disponíveis relacionados à Inteligência Educacional, porém, até o fechamento desta matéria, não obteve retorno. O espaço permanece aberto para futuras manifestações.

A estrutura comercial identificada pelo levantamento envolve ainda uma empresa ligada à família de Cury. Nos documentos analisados, o escritor aparece como autor das obras, enquanto a Escola de Inteligência Cursos Educacionais, sediada em Ribeirão Preto (SP), é apontada como editora. Já a Inteligência Educacional, de Goiânia, figura como distribuidora e comercializadora exclusiva dos materiais destinados ao poder público.

Empresa goianiense aparece em contratos com municípios

Um dos documentos analisados pela Fórum é um processo administrativo aberto pela Prefeitura de Caçador, em Santa Catarina, em 2019. Na ocasião, a Inteligência Educacional apresentou uma proposta para a implantação da Escola da Inteligência na rede municipal de ensino.

A documentação informava que os materiais eram baseados na Teoria da Inteligência Multifocal e apontava a empresa como fornecedora exclusiva dos produtos. A proposta também fazia referência aos direitos autorais das obras de Augusto Cury.

Um certificado do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), anexado ao processo, reforçava a divisão de funções entre as empresas. A Escola de Inteligência Cursos Educacionais aparecia como responsável pela edição, enquanto a Inteligência Educacional era identificada como distribuidora e comercializadora exclusiva dos materiais.

O modelo de contratação por inexigibilidade de licitação, fundamentado na alegação de exclusividade comercial, também foi adotado em outras localidades identificadas pelo levantamento.

Mais de R$ 21 milhões em um único município

O maior volume de recursos identificado está em Itajaí, em Santa Catarina. Entre 2017 e 2021, a prefeitura firmou cinco contratos relacionados à metodologia, que, juntos, somaram R$ 21,83 milhões.

Os valores aumentaram ao longo dos anos: R$ 1,19 milhão em 2017; R$ 2,68 milhões em 2018; R$ 4,31 milhões em 2019; R$ 5,98 milhões em 2020; e R$ 7,64 milhões em 2021.

As contratações chegaram a ser analisadas pelo Ministério Público de Santa Catarina. Segundo a Fórum, o procedimento foi arquivado em 2023, após o órgão considerar regular a utilização da inexigibilidade de licitação e afastar a hipótese de superfaturamento.

Metodologia chegou a dez estados

O levantamento encontrou registros de contratações relacionadas à Escola da Inteligência em Santa Catarina, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná, Bahia, Pará, Piauí, Rio Grande do Sul, Goiás e Tocantins.

Em Cuiabá (MT), um contrato de 2017 citava expressamente a aquisição de kits da Escola da Inteligência, descritos como de autoria de Augusto Cury e comercializados exclusivamente pela Inteligência Educacional. O primeiro acordo foi de R$ 1,04 milhão. Dois anos depois, a prefeitura adquiriu outros 15.507 kits por R$ 3,48 milhões, elevando o total das duas contratações para R$ 4,53 milhões.

Em Lagoa Santa (MG), três contratos somaram R$ 2,94 milhões. A Secretaria Estadual de Educação do Tocantins firmou uma contratação de R$ 1,55 milhão, enquanto, em Paranaguá (PR), foi identificado um processo no valor de R$ 998,7 mil.

Também foram encontrados registros em Ilhéus (BA), Teresina (PI), Porto Alegre (RS), Valparaíso de Goiás (GO), Porto União (SC) e Pomerode (SC), além da Fundação de Atendimento Socioeducativo do Pará.

Negócio da família de Cury foi vendido por R$ 288 milhões

Enquanto a Inteligência Educacional atuava na comercialização dos materiais para o setor público, a empresa responsável pela edição das obras passou por uma operação milionária no mercado privado.

A Escola de Inteligência Cursos Educacionais pertencia à esposa de Cury, Suleima, às filhas Camila, Carolina e Cláudia e ao genro Bruno Oliveira. O escritor não integrava o quadro societário da empresa.

Em 2020, o grupo Arco Educação adquiriu 60% da companhia por R$ 288 milhões. Em comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC), a empresa informou que a aquisição abrangia apenas o negócio privado da Escola da Inteligência.

Dessa forma, segundo os documentos citados no levantamento, a operação voltada ao mercado privado passou para o grupo educacional, enquanto a Inteligência Educacional continuou aparecendo nas contratações com o poder público como responsável pela comercialização dos materiais.

Divergência sobre direitos autorais

O levantamento também identificou informações divergentes sobre os direitos autorais relacionados à metodologia.

Em 2017, durante a implantação do programa em Itajaí, a prefeitura informou que Augusto Cury havia renunciado aos direitos autorais e patrimoniais em favor do programa. Dois anos depois, porém, uma proposta apresentada pela Inteligência Educacional em Caçador fazia referência expressa a direitos autorais pertencentes ao escritor.

Segundo a Fórum, o documento que comprovaria a suposta renúncia mencionada pela Prefeitura de Itajaí não foi localizado durante a apuração.

A revista informou ainda que procurou Augusto Cury e a Inteligência Educacional para obter esclarecimentos sobre a relação econômica envolvendo a metodologia e os contratos públicos, a exclusividade na comercialização dos materiais e a questão dos direitos autorais. Até a publicação da reportagem, não houve resposta.

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