O humorista Tiago Santineli esteve em Goiânia neste fim de semana para mais uma apresentação de sua turnê “Anticristo”, espetáculo que mistura humor ácido, crítica política e ataques ao fundamentalismo religioso. Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, o comediante comentou a relação conturbada com setores conservadores em Goiás, relembrou episódios recentes envolvendo a polícia e voltou a provocar figuras da direita local.

Santineli tem se consolidado como um dos nomes mais controversos do stand-up nacional. Filho de pastor evangélico e criado dentro da igreja, ele transformou a própria vivência religiosa em matéria-prima para shows e vídeos que satirizam lideranças evangélicas, bolsonaristas e pautas conservadoras.

Questionado sobre o que pensa ao ouvir falar de Goiás, Santineli respondeu em tom irônico: “Medo de cancelar o meu show de novo.”

O humorista relembrou que o estado esteve entre os locais onde houve mobilização para barrar apresentações suas. Segundo ele, a turnê “Anticristo” já enfrentou tentativas de proibição em diversas cidades brasileiras, com cancelamentos e pressões políticas e religiosas. De acordo com sua equipe, apresentações chegaram a ser barradas em 19 cidades.

Apesar disso, afirmou que a passagem atual por Goiânia ocorreu sem maiores problemas. “Até agora, bem de boa.”

Condução à delegacia em Belo Horizonte

Santineli também comentou o episódio recente ocorrido em Belo Horizonte, quando foi levado à delegacia após confusão com manifestantes cristãos que protestavam em frente ao local de um show.

O caso aconteceu após uma apresentação conjunta com o humorista Luiz França. O protesto gerou tumulto e, além de Santineli, outras pessoas foram conduzidas para prestar esclarecimentos. O episódio teve grande repercussão nacional e reacendeu debates sobre liberdade artística, intolerância religiosa e limites do humor.

Na entrevista, o comediante tratou o caso com sarcasmo: “No último show eu não precisei trabalhar, porque eu fui preso. Só o Luiz trabalhou.”

Luiz, um dos comediantes apoiados por Tiago Santinelli, costuma fazer a abertura dos shows do humorista.

Críticas à polícia e lembrança de abordagem em Goiás

Ao falar sobre Goiás, Santineli também relembrou uma abordagem policial sofrida quando ainda era religioso e participava de atividades da igreja.

Segundo ele, foi parado junto com outros jovens a caminho de um acampamento evangélico, submetido a revista e obrigado a deitar no chão durante a ação policial. “Era crente, não fazia nada, nem usava droga, nem bebia.”

Ataques a Gustavo Gayer

Durante a conversa, Santineli elevou o tom ao comentar o deputado federal Gustavo Gayer, nome da direita goiana e aliado do bolsonarismo.

O humorista afirmou que o parlamentar representa o radicalismo conservador local e ironizou a possibilidade de crescimento político do deputado. Gayer, deputado federal mais votado por Goiás, é um dos parlamentares que lideram a disputa pelo Senado.

Sobre as escolhas eleitorais dos goianos, o humorista afirmou:

Vocês de Goiás estão malucos

Redpill, extrema direita e neonazismo

Ao ser questionado sobre grupos “redpill”, misoginia online e células neonazistas identificadas em Goiás, Santineli defendeu enfrentamento duro a discursos extremistas.

Para ele, o crescimento desses movimentos está ligado à radicalização política e à normalização do discurso de ódio nas redes sociais.

Também voltou a criticar a intolerância religiosa e disse que grupos religiosos conservadores frequentemente atacam religiões de matriz africana — tema recorrente em seu espetáculo.

“Tem debate que nem deveria existir mais”

Santineli ainda afirmou que parte do debate público brasileiro está atrasado. Citou como exemplo discussões sobre escala de trabalho exaustiva e direitos de pessoas trans.

Segundo ele, o país deveria concentrar energia em problemas estruturais, e não em “guerras culturais” estimuladas por setores políticos.

Turnê “Anticristo”

A turnê “Anticristo” tem rodado o país com casas cheias e forte polarização. Em várias cidades, o espetáculo enfrenta protestos, ações judiciais e tentativas de veto. Ao mesmo tempo, o show ampliou a popularidade de Santineli entre públicos progressistas e jovens conectados ao debate político.

Com linguagem provocadora e sem buscar conciliação, Tiago Santineli se tornou um símbolo da nova geração de humoristas que misturam palco, militância digital e confronto ideológico. Em Goiânia, mais uma vez, ele saiu do palco para o centro do debate político local.