Elza Soares chega a Goiânia para cantar – e lutar – até o fim

Cantora faz show no Centro Cultural Oscar Niemeyer nesta sexta-feira e falou ao Jornal Opção sobre as inspirações e a recepção de seu mais recente trabalho

Foto: Reprodução Facebook

Elza sobre recepção calorosa ao disco: “Não tem explicação, seria muita ousadia de minha parte” | Foto: Reprodução Facebook

Dá um frio na espinha quando a voz única de Elza Soares surge do outro lado da linha. Com um “alô” rouco, característico, ela pede que espere enquanto se ajeita, para só depois começar a falar, com notável felicidade, da satisfação em ver a recepção de A Mulher do Fim do Mundo, de 2015, primeiro disco de inéditas de sua carreira, e de dar sua contribuição às lutas que o nortearam.

“Quando você tem bons resultados no que você faz, é muito fácil você conseguir fazer um trabalho como esse que eu fiz agora, com músicas inéditas, com músicos cada vez mais gabaritados”, disse ela. “Foi feito um trabalho lindo, maravilhoso e premiado então acho que não tem explicação para a felicidade de ser reconhecida assim, seria muita ousadia de minha parte”.

Elogiado, o novo álbum é tão apocalíptico quanto o nome que recebeu ao ser batizado. Nele, há violência, há favela, sujeira, racismo, preconceito contra a mulher, sexo e força. Mas Elza não se intimida e seu fim do mundo não vem sem briga. Seus personagens são desafiadores, são fortes, são firmes, assim como ela.

Ao Jornal Opção, a cantora falou principalmente sobre suas inspirações para o trabalho. Além das próprias dores – Elza perdeu um filho no ano passado -, ela quis cantar “a mulher, a negritude, o mundo gay, que é tão fragilizado”. Enaltecidas e defendidas no disco, as minorias são empoderadas tanto pelas letras quanto pela própria cantora.

A luta de Elza não é só de palavras, é de uma postura pessoal e musical firme e decidida. “O Brasil ainda é um país preconceituoso, então a mulher lutou, lutou, lutou e ainda luta, luta, luta pela igualdade. Ela não quer tomar o lugar do homem, ela quer o lugar dela, mas você vê que é difícil. A mulher tem que ter o seu lugar de destaque e toda a vida eu lutei por isso”, defende ela.

Questionada sobre sua visão do panorama atual da mulher, Elza disse que os confrontos ainda são os mesmos. “Eu acho que o desafio continua, ainda tem muita luta pela frente. São sempre as mesmas coisas, não muda nada. A mulher que não presta, que é tudo que não vale nada”, lamenta, mas nunca cabisbaixa: “Não podemos ser tolidas”.

Para falar de violência doméstica, por exemplo, Elza preferiu contra-atacar. Sua mulher responde ao abuso com firmeza: “Eu solto o cachorro, a, apontando pra você, eu grito: péguix guix guix guix. Eu quero ver você pular, você correr, na frente dos vizinhos. Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”.

Depois, quando canta Benedita, travesti, é de novo de pé, de uma mulher que “leva o cartucho na teta, abre a navalha na boca, morre ela, ela mata, ela é craque, craque craque”. A coroação da luta feminina, aponta ela, é “Pra Fuder”, música de que fala com especial orgulho. Nela, Elza canta sua própria sexualidade, pede, fala abertamente do tema, sem pudor, sem vergonha, sem se privar de viver o sexo até o último instante.

A Mulher do Fim do Mundo é um grito. De uma mulher que não fala do que não conhece: Que enfrentou o machismo, o racismo, o ódio, a dor, as perdas e a vida de cabeça erguida. Que, como canta no disco, quebrou a cara e se livrou do resto dessa vida na avenida dura até o fim. E nesta noite de sexta-feira (23/9), que ninguém ouse desapontá-la e obedeça ao seu pedido. Elza, seja bem-vinda e cante, cante sim até o fim.

Serviço

Show: Elza Soares, “A Mulher do Fim do Mundo”
Abertura: Coletivo Bigorna Funk
Discotecagem: DJ Daniel de Mello
Data: Sexta-feira, dia 23 de setembro, a partir das 20 horas
Local: Palácio da Música – Centro Cultural Oscar Niemeyer
Ingressos: R$ 60,00 (frontstage), R$ 40,00 (back) e R$ 120 (camarote superior, open bar). Valores de meia entrada válidos conforme Lei da Meia Entrada e mediante a doação de 2kg de alimento não perecível.
Pontos de venda: Tribo Restaurante (Rua 36, S. Marista), Shuffle Mix (Av. Araguaia), Seven Rock Shop (shopping Buena Vista), Detroit Steakhouse (Av. 136, St. Marista) e Poema Gourmet (Rua 28, St. Marista).
Informações: (62) 3224-3737

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