“Ele é meu companheiro de todos os dias”: marido busca R$ 570 mil para tratamento de psicanalista com câncer
28 agosto 2026 às 15h22

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Um homem tímido. Costuma falar pouco quando está entre muitas pessoas, mas se transforma quando está entre amigos. O homem que ri alto, cuida dos quatro gatos da casa, prepara o almoço do companheiro e, todas as noites, segura sua mão antes de dormir. É assim que Mário Batista da Silva Neto descreve seu marido Joel Ramos de Oliveira, que luta contra um câncer resistente à quimioterapia.
“O Joel é tímido e parece mais fechado, e talvez por isso, quando estamos entre muitas pessoas, alguém sempre acaba dizendo: ‘Deixa o Joel falar agora’, para pegar no pé dele. Mas não dá liberdade não que a coisa muda. Precisa ver ele falando as bobagens com as amigas. Ele ri de um jeito tão bom, aquela gaitada boa. De bater a mão na mesa, inclina o corpo para frente, fecha os olhos, coloca a mão na barriga”, descreve ao Jornal Opção.
É esse homem que hoje enfrenta uma nova etapa de uma luta iniciada em 2022, quando Joel, psicanalista de Anápolis, recebeu o diagnóstico de câncer de testículo. Após a cirurgia para retirada do órgão e o acompanhamento médico, os anos seguintes foram marcados por exames periódicos e a expectativa de que a doença permanecesse controlada.
“Essa palavra câncer assusta bastante. A gente ficou muito assustado quando veio esse diagnóstico, mas achou que, em 2022, ele ia fazer a cirurgia, teria que fazer acompanhamento e que, enfim, ia ficar tudo bem”, conta Mário. Por cerca de três anos, a expectativa se manteve.
Mas, segundo Mário, cada exame carregava uma apreensão própria. “A cada exame que se faz, o próximo dos exames periódicos, sempre existe um medo, um receio. Será que é que vai aparecer dessa vez?”, relata. No fim de 2025, porém, exames apontaram o retorno da doença.
Já em 2026, a massa localizada nos linfonodos retroperitoniais aumentou e os marcadores tumorais também apresentaram crescimento. Diante da progressão, Joel passou por três ciclos de quimioterapia pelo protocolo BEP, combinação de medicamentos utilizada no tratamento de determinados tipos de câncer de testículo.
Durante o processo, familiares e amigos acompanharam o tratamento na expectativa de que a quimioterapia levasse à remissão da doença. Mário chegou a levar um buquê de flores para Joel no último dia do ciclo. Para o casal, aquele momento representaria o encerramento de uma fase difícil. “Na nossa cabeça, a gente estava comemorando o fim do tratamento, a sua cura. Foi um momento feliz, apesar de todas as dificuldades”, afirma.
Os exames seguintes, entretanto, trouxeram uma nova preocupação: a massa permanecia presente e havia aumentado de tamanho. A avaliação médica apontou resistência à quimioterapia. “Quando a gente repetiu os exames no final dos últimos ciclos da BEP, viu que a doença ainda estava lá e, não só isso, que ela era resistente à quimioterapia e tinha aumentado de tamanho”, diz.

Crises de choro e busca por alternativas
O resultado teve forte impacto emocional sobre o casal. Mário relata episódios de crises de pânico e choro, mas afirma que os dois continuaram buscando alternativas para o tratamento. “Foi um momento extremamente angustiante. A gente teve momentos de crise de pânico, muitas crises de choro, mas sempre se recuperava e acreditava em buscar soluções para o problema”, conta.
Segundo ele, uma das questões mais difíceis para Joel foi lidar com a sensação de injustiça diante da própria rotina de cuidados com a saúde. “Eu ouvi algumas vezes o Joel dizendo que achava injusto isso, porque o Joel tem uma vida fitness. Ele pesa o alimento dele na balança todos os dias, segue com rigor a dieta, toma água. Ele é uma pessoa saudável, é alguém que de verdade ama viver”, afirma.
Após consultas com diferentes médicos e a busca por outras opiniões, o casal foi encaminhado para atendimento no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. “O que a gente descobriu foi uma doença resistente à quimioterapia em progressão. E essa doença precisa ser tratada com urgência. E o tratamento para essa doença só acontece em centros especializados”, relata Mário.
Joel chegou a uma etapa decisiva do tratamento. Segundo Mário, são necessárias duas intervenções: um transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas e uma cirurgia para tratar a massa localizada no retroperitônio. A família busca uma equipe especializada e com experiência nesse tipo de procedimento.
De acordo com Mário, a cirurgia é de alta complexidade e pode ser realizada com auxílio de tecnologia robótica. “A gente está nas pesquisas que fez, nos muitos médicos que procurou, buscando uma equipe especializada que tenha prática cirúrgica nesse ponto”, afirma. “É necessário ter volume de atendimentos, um médico com volume de atendimentos, para conseguir fazer o procedimento da melhor maneira possível.”
O custo estimado para essa nova etapa do tratamento chegou a R$ 570 mil, segundo a família. A necessidade de atendimento especializado também pode exigir que o casal permaneça fora de Goiás durante parte do processo. Mário afirma que os recursos arrecadados seriam utilizados para agilizar etapas do tratamento, custear os procedimentos e garantir a permanência do casal em outro Estado, caso isso seja necessário.

Quem é Joel
Em meio a exames, consultas e decisões médicas, Mário insiste em apresentar primeiro o homem por trás do diagnóstico. “Todo dia, antes de fazer qualquer outra coisa, ele vai cuidar dos nossos quatro gatos. A Amora, o Thor, a Raposa e o Denguinho”, escreve.
Segundo ele, Joel percorre a casa chamando os animais. “Ele passa pela casa falando com eles: ‘Cadê os bebês?’, ‘Cadê a Amora?’ E para o Denguinho: ‘Cadê o gato gordo do papai?’” Até a Amora, conta Mário, possui um ritual próprio. “Todo santo dia faz a mesma coisa. Fica esperando abrir a porta do quarto e, quando eu abro, ela corre para a cama para acordar o Joel. Antes mesmo de pedir ração.”
Joel é alérgico a gatos, mas isso não o impediu de transformar a casa em um lar para quatro deles e ainda alimentar animais que vivem nas ruas. “Ele é alérgico a gatos. Mas mesmo assim temos quatro gatos dentro de casa e ele ainda alimenta vários gatos de rua todos os dias”, relata.
A disciplina também aparece nos pequenos hábitos. Joel treina diariamente, pesa os alimentos e prepara café e tapioca todas as manhãs. Em casa, também cuida do marido. “Nos dias em que eu estou cansado demais para pensar em qualquer coisa, ele prepara meu almoço, meu lanche da tarde para eu levar para o trabalho. Quando eu chego em casa, muitas vezes a janta já está pronta”, conta Mário.
“É assim que o Joel cuida de mim. Nas miudezas.” À noite, a rotina se repete. “A gente janta no sofá, assistindo série, com os gatos espalhados pelo sofá. E todas as noites a gente se dá as mãos para dormir, até um ou outro pegar no sono”, escreve. Para Mário, o cuidado é uma das principais formas pelas quais Joel demonstra afeto.
“O Joel não tem problema nenhum em dizer que ama. Mas ele faz isso, sobretudo, no cuidado. Ele é meu marido. Meu companheiro de todos os dias.” Agora, é o marido quem tenta cuidar de Joel diante da doença. A mobilização de familiares e amigos busca arrecadar os recursos necessários para o tratamento.
Para Mário, porém, o pedido de ajuda não deveria começar pelo diagnóstico. “O Joel fez tudo certo. O Joel se alimenta bem, cuida da saúde, gosta de viver, quer continuar fazendo parte da história das pessoas que amam ele”, afirma. Ele reconhece que a doença trouxe urgência à vida do casal e que os recursos podem fazer diferença na velocidade com que o tratamento será realizado.
“A gente não tem muito tempo. Alguém que pode contribuir com aquilo que não vai fazer falta pode fazer a diferença na minha vida, como marido dele, na vida da mãe dele, da irmã, do irmão, dos amigos que amam ele e querem que ele continue aqui”, diz.
Ao Jornal Opção, Mário encerra o pedido de ajuda retomando o ponto de partida: antes de ser um paciente com câncer, Joel é o homem que divide a vida com ele. “Porque, para mim, quando eu peço ajuda para ele, eu não estou falando de câncer, ou de mais uma pessoa doente. Estou falando desse homem.”
“Do homem que cuida dos gatos antes de cuidar de qualquer outra coisa. Que ri até quase passar mal. Que prepara meu almoço. Que segura minha mão antes de dormir. Estou falando do homem que eu amo.”
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