Mesmo sob a luz do brilho da morte, a história das vítimas do Césio-137 em Goiás foi deixada nas sombras do esquecimento, um ostracismo que não pode ser medido por detectores de radioatividade, mas que, ainda assim, se expande e ocupa espaços como um tumor maligno que busca a metástase no inconsciente coletivo de uma sociedade sem memória.

Essa expansão do esquecimento é interrompida, vez ou outra, por produções cinematográficas, documentários e pela atenção sazonal que o assunto desperta quando a história volta a ser contada e, diante das recentes movimentações sobre o tema, eu me questiono: como pode uma série da Netflix, com cerca de cinco horas de duração e gravada em São Paulo, trazer mais mobilização política do que 40 anos de choro, reivindicações e luta dos goianos contaminados pela imprudência?

Será que nossa vida vale menos, nosso sofrimento não comove ou nossa história só ganha relevância quando é contada por um paulista, um carioca ou um estrangeiro? Não há qualquer problema em uma produção nacional resgatar a história do Césio, pelo contrário, é importante que ela seja conhecida, mas é difícil não questionar o fato de que aparentemente precisamos que alguém de fora conte aquilo que as vítimas e seus familiares repetem há décadas para que o os políticos voltem a prestar atenção.

São tantos os desafios enfrentados pelas vítimas que cinco horas de uma série jamais seriam suficientes para dimensioná-los: os auxílios considerados baixos, as incertezas relacionadas a diagnósticos até os dias de hoje, as dificuldades para conseguir transporte e tratamento, os problemas financeiros e, sobretudo, as marcas psicológicas deixadas pela tragédia, além do preconceito que transforma pessoas em sinônimos de uma contaminação que elas não escolheram.

O mais doloroso é que a memória parece funcionar em ciclos: quando uma produção alcança o grande público, o país se lembra de Goiânia, surgem debates, entrevistas, manifestações e declarações políticas e, depois, as câmeras vão embora, as manchetes desaparecem e o silêncio retorna, enquanto as vítimas continuam aqui, envelhecendo, convivendo com as consequências da contaminação e lutando por direitos básicos.

Se o acidente do Césio tivesse como palco outro Estado, especialmente um dos grandes centros políticos e econômicos do país, será que a história teria sido diferente? É impossível afirmar, mas é legítimo fazer a pergunta, porque o que não podemos aceitar é que Goiás precise esperar que alguém de fora conte sua própria história para que ela seja novamente levada a sério.

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