Eduardo Bolsonaro teria influência sobre a gestão financeira do filme “Dark Horse”, segundo o Intercept
15 maio 2026 às 17h04

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O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) atuou como produtor-executivo do filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e possuía responsabilidades diretas sobre a gestão financeira do projeto, segundo contrato e mensagens revelados pelo Intercept Brasil.
Os documentos contradizem declarações feitas por Eduardo nas redes sociais, onde afirmou ter apenas cedido os direitos de imagem para a produção. O contrato, assinado digitalmente em janeiro de 2024, coloca Eduardo e o deputado Mario Frias como produtores-executivos do longa, ao lado da produtora GoUp Entertainment, sediada nos Estados Unidos.

Pelo acordo, os responsáveis pela produção participariam de decisões estratégicas relacionadas ao financiamento do filme, elaboração de documentos para investidores, captação de recursos, obtenção de incentivos fiscais e negociação de patrocínios.

As revelações surgem após o Intercept divulgar que o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, teria negociado o repasse de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões à época, para financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro. Pelo menos US$ 10,6 milhões, o equivalente a cerca de R$ 61 milhões, teriam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025.
Mensagens obtidas pela reportagem da Intercept Brasil indicam que Eduardo também participou de tratativas sobre a remessa internacional do dinheiro. Em uma conversa intermediada pelo empresário Thiago Miranda, fundador do Portal Leo Dias, Eduardo sugere acelerar o envio dos recursos para os Estados Unidos antes de mudanças operacionais que poderiam dificultar as transferências.
Outro documento citado pela reportagem aponta ainda que Eduardo Bolsonaro aparecia como financiador do projeto em uma minuta de aditivo contratual, autorizando o uso de recursos investidos no filme. Não há confirmação se esse aditivo foi oficialmente assinado.

A reportagem também aponta que parte do dinheiro enviado por empresas ligadas a Vorcaro teria sido direcionada ao fundo Havengate Development Fund LP, registrado no Texas, nos Estados Unidos, e ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro. A Polícia Federal investiga se esses recursos foram usados exclusivamente no filme ou se também ajudaram a custear despesas pessoais de Eduardo nos EUA.

O fundo possui ligação com o advogado Paulo Calixto, responsável pelo processo imigratório de Eduardo nos Estados Unidos. Segundo documentos societários obtidos pelo Intercept, Calixto aparece como administrador do fundo, ao lado de Altieris Santana, citado em mensagens relacionadas à operação financeira.
Os documentos também revelam que o orçamento estimado de “Dark Horse” varia entre US$ 23 milhões e US$ 26 milhões, valor considerado elevado para produções brasileiras e superior ao orçamento de diversos filmes recentes de Hollywood. Segundo o plano de negócios obtido pelo Intercept, mais de US$ 10,7 milhões seriam destinados apenas aos chamados custos “acima da linha”, categoria que inclui pagamentos de atores, produtores, diretores, roteiristas e equipe criativa principal.
A estratégia de captação previa a venda de 40 cotas de US$ 500 mil para investidores. Havia ainda pacotes VIP com benefícios exclusivos, incluindo participação no conselho de produção do filme para quem investisse US$ 1 milhão.
O pacote mais caro, no valor de US$ 1,1 milhão, oferecia aos investidores uma “oportunidade de imigração” para os Estados Unidos. Segundo os documentos, o investimento poderia servir como caminho para obtenção de Green Card, permitindo residência permanente no país.
O plano de negócios também projetava retorno financeiro agressivo aos investidores, com devolução integral do capital aplicado e lucro adicional de 20%. Após esse pagamento prioritário, o lucro líquido restante da produção seria dividido entre investidores e produtores, incluindo Eduardo Bolsonaro e Mario Frias.
Na sexta-feira, 15, o ministro Flávio Dino determinou abertura de apuração preliminar para investigar possíveis irregularidades envolvendo emendas parlamentares destinadas a projetos culturais, incluindo o filme “Dark Horse”.
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