Do ensino de base às autoescolas: o caminho indispensável para um trânsito melhor

Em uma sociedade em que a relação entre teoria e prática é desestimulada entre motoristas, o desafio é educar crianças, jovens e adultos para uma direção consciente

Laura Ferreira faz novas aulas de direção na autoescola, após ser reprovada no exame prático do Detran. Seu professor é o jovem Pedro Fellipe | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Laura Ferreira faz novas aulas de direção na autoescola, após ser reprovada no exame prático do Detran. Seu professor é o jovem Pedro Fellipe | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Marcelo Gouveia e Bruna Aidar

A estudante de Psicologia Laura Ferreira tem 20 anos, mora em Goiânia, e integra a lista de motoristas em formação reprovados nos exames do Departamento Estadual de Trânsito de Goiás (Detran-GO), que, só este ano, soma mais de 45 mil condutores. Até abril de 2015, quando abriu o processo para conseguir a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), a jovem não contava com qualquer experiência em direção. Antes mesmo do curso teórico, ouviu dos pais em casa que não iria aprender na autoescola a dirigir “como é na realidade”. Soube também que teoria e prática no trânsito seriam muito diferentes e que o processo de formação teria como objetivo a aprovação nos testes que viriam a seguir.

A jovem relata que passou sem dificuldades no primeiro exame, mas diz não lembrar detalhes dos temas abordados em sala. “A parte de mecânica não deu para aprender nada”, recorda. Na avaliação prática, entretanto, deixou o nervosismo falar mais alto e acabou reprovada na primeira tentativa. Fora a tensão, atribui o mau resultado à alta exigência dos aplicadores.

“Na autoescola é tudo muito certinho: se você esquece uma seta, você não passa na prova. No dia-a-dia, não é dessa forma. Você comete vários errinhos, que não são tão sérios”, diz. Ainda assim, Laura afirma que tentará dirigir de maneira consciente quando finalmente conseguir a habilitação, e acredita que será uma boa condutora.

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Estudante alega alta exigência de aplicadores | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Não é o que pensa a estudante Taís Sousa Carles, de 19 anos. A dois dias de sua primeira tentativa no exame prático, ela é enfática ao dizer que não sairá do processo de formação uma boa motorista. Quanto ao curso teórico, ela destaca que “ninguém o leva muito a sério” e que os alunos “só estão lá para conseguir carga horária”. Questionada se este foi o seu caso, a jovem desconversa.

Ela relata, ainda, que pôde aproveitar pouco o aprendizado em sala de aula para o posterior treinamento no trânsito. “Um pouco de sinalização”, mas não mais do que isso. Também sem nenhuma experiência anterior em direção, ela conta que tem se esforçado em todas as etapas do curso de formação, mas diz que se preocupará de fato com o trânsito somente após a aprovação. Até lá, estará focada em passar na prova de logo mais.

Laura e Taís não são as únicas que passaram pelo processo de formação do Detran alheias à realidade do trânsito. Em enquete feita pelo Jornal Opção no Twitter, 82% dos leitores consultados disseram que sua maior preocupação durante o curso de formação foi o resultado nos exames teórico e prático, enquanto apenas 18% afirmaram que se preocuparam mais em formar-se condutores conscientes. Curiosamente, na mesma publicação, mas em nova enquete, mais de 70% dos usuários disseram que se consideram motoristas que contribuem para a formação de um trânsito melhor.

A ansiedade para ter a CNH em mãos, o excesso de auto-confiança e o reflexo deste destempero em um trânsito já caótico compõem um cenário alarmante. É para o que atenta o aposentado José Maria Bastos, de 57 anos. Em entrevista ao Jornal Opção, ele conta que só aprendeu mesmo a dirigir 39 anos depois de passar pela autoescola. O ex-bancário é um dos 2.430 mil motoristas que tiveram a CNH suspensa no último ano pelo Detran-GO, após somar 20 pontos em infrações em um período de até 12 meses.

Conforme dados da Secretaria Municipal de Trânsito, Transporte e Mobilidade (SMT), o uso de celular e a ultrapassagem do sinal fechado estão entre as infrações mais comuns entre os goianienses. No caso de Bastos, a maior parte de suas multas diz respeito a excesso de velocidade. De acordo com levantamento do Detran-GO, esse crime equivale a quase 70% das autuações no Estado e pode, inclusive, culminar na suspensão do direito de dirigir.

Para se ter ideia, somente em 2016, mais de 31 mil motoristas já foram autuados por transitar em velocidade 50% superior à máxima permitida na via, uma infração considerada gravíssima e que vale sete pontos na carteira. Dirigir sob influência de álcool ou entorpecentes e utilizar o veículo para demonstrar manobras perigosas aparecem em seguida no ranking, com cerca de 7 mil e 2 mil ocorrências no Estado, apenas neste ano.

José Maria Bastos teve a CNH apreendida e ficou um mês sem dirigir, período mínimo estabelecido para quem acumula pontos o suficiente para ter a carteira suspensa. O aposentado só pôde retornar ao trânsito após fazer curso de reciclagem oferecido pelo Detran-GO. Por mês, conforme informações do órgão, aproximadamente 150 motoristas goianos voltam à sala de aula para rever os fundamentos de Direção Defensiva, noções de primeiros socorros, legislação de trânsito e relacionamento interpessoal.

Para Bastos, o retorno significou a perda de velhos hábitos no trânsito e a chance de reaprender a dirigir. “No meu caso, levei tudo para a prática imediatamente. Minha esposa e filhos são testemunhas. Saí de lá dirigindo até mais de devagar. Nada disso é balela, é preciso adquirir essa consciência. Às vezes você morre de inocente”, frisa. Confira abaixo trecho do relato do ex-bancário à reportagem do Jornal Opção:

Na sala de aula e no trânsito

Pedro Fellipe é o instrutor das jovens Taís e Laura | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Pedro Fellipe é o instrutor das jovens Taís e Laura | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Pedro Fellipe de Borba, de 26 anos, é instrutor de autoescola há 5. Foi ele quem explicou para as jovens Laura e Taís a função da embreagem, a diferença entre a primeira e a segunda marcha e também detalhou os pontos da baliza perfeita. Ele conta que cerca de 80% dos candidatos chegam até ele assim como as duas garotas: sem nenhuma noção de direção. “O que é ótimo, facilita o aprendizado”, afirma.

Fora a ansiedade e o nervosismo, Borba cita também o desinteresse quanto à parte teórica como outro grande problema dos alunos. Ele enfatiza a importância do curso oferecido pelos Centros de Formação de Condutores (CFC), mas lamenta o pouco aproveitamento no trânsito dias após a aprovação no exame.

“Há muito desinteresse por parte dos candidatos. Talvez, seja pela longa duração do curso, mas ele é fundamental, porque orienta teoricamente algumas regras de circulação que nós cobramos nas aulas práticas. Infelizmente, muitos alunos não dão a importância necessária para o curso e o reflexo disso, acredito eu, é sentido não só nas minhas aulas, mas no trânsito como um todo”, argumenta.

Roberto Mendes conhece bem essa realidade. Em quase 30 anos de profissão, já contribuiu para a formação de centenas de motoristas nos CFCs da capital. Em sala de aula, ele aborda todas as disciplinas previstas na legislação de trânsito, mas é conhecido por sua expertise em direção defensiva. É ele o responsável por mostrar aos alunos os temidos vídeos de acidentes de trânsito e alertar para os perigos da imprudência ao dirigir.

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Professor Roberto Mendes aposta na conscientização durante aulas em centros de formação de condutores na capital | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Em entrevista, Mendes afirma que a conscientização é o grande mote de seu trabalho em sala de aula. Ele frisa que tenta, ao máximo, esclarecer as consequências de uma direção imprudente. Para o professor, o trabalho de décadas é recompensado quando percebe mudanças de comportamento quanto à postura dos alunos no trânsito, mas admite que tal sensação está longe de ser cotidiana.

“Mostramos as consequências e há alunos que saem daqui mudados, mas outros acabam tendo que voltar após perder a carteira. A verdade é que grande parte está aqui só para tirar a CNH. Não quer melhorar”, lamenta.

Educação de base

O problema, segundo o professor Roberto, vai além do desinteresse dos alunos ou mesmo do sistema de formação nos CFCs e nas autoescolas. Para ele, é necessária uma mudança cultural, que deve ser iniciada com ações que envolvam pessoas de todas as faixas etárias, mas sobretudo as que ainda estão longe de alcançar a idade para dirigir.

Para o perito em direção, a educação deve começar na escola, já nas primeiras séries da educação básica, o que, lembra Roberto, já é previsto no Código Brasileiro de Trânsito, instituído em 1998. “Mais especificamente em seu artigo 76, que trata justamente sobre educação para o trânsito. Hoje, nós ministramos palestras em vários colégios, mas o ideal mesmo era que isso estivesse na grade curricular. Os alunos chegariam nos centros de formação já preparados e conscientes de seu papel no trânsito, tarefa impossível para uma semana em sala de aula”, destaca.

João Balestra | Foto: Eduardo Ferreira/Governo de Goiás

João Balestra: “Precisamos da Educação”| Foto: Eduardo Ferreira/Governo de Goiás

Horácio Ferreira, gerente de Educação de Trânsito da Secretaria Municipal de Trânsito, Transporte e Mobilidade (SMT), concorda. Ele defende que as ações realizadas por professores e órgãos governamentais sejam, inclusive, pensadas como políticas de Estado para evitar que as mesmas fiquem reféns da vontade e do interesse de quem esteja no poder. “Nós precisamos de políticas públicas perenes para evitar que um projeto acabe, caso mude o gestor ou o governo.  Por que, senão, quando é que vai dar continuidade?”, questiona.

Na tentativa de tornar realidade o desejo de ver o ensino de trânsito na grade curricular das escolas, o Detran assinou, na última semana, em parceria com a Secretaria de Educação, Cultura e Esporte (Seduce), uma portaria que institui o “Dia do Trânsito” no calendário escolar, que passa a ser promovido anualmente no dia 25 de setembro. A medida tem como principal objetivo pensar a educação como motor para a transformação do trânsito.

Apesar de ainda ser uma ação pontual, o diretor técnico e de atendimento do órgão, João Balestra, adianta que o subsecretário de Educação já admite a possibilidade de implantar, nas escolas de tempo integral, uma matéria específica sobre o tema, para que os alunos tenham aulas inicialmente mensais e, depois, semanais. Ele defende a parceria: “Detran, sozinho, não dá conta, nós precisamos da Educação”.

Balestra e Ferreira acreditam, ainda, que, embora seja necessária a promoção de ações especiais de conscientização e fiscalização, é preciso que o foco da formação do condutor passe a acontecer na base, permitindo que o aluno chegue ao curso um condutor consciente, antes mesmo de aprender a dirigir. Por isso, os mais jovens são o principal alvo da atuação destes órgãos quando o assunto é a educação para o trânsito.

Colocando em prática

Enquanto a educação para o trânsito não é incluída no currículo escolar, tanto a SMT quanto o Detran fazem o que está ao alcance. Um exemplo é o projeto municipal “Faculdade Consciente Pensa Trânsito”, que leva aos discentes do ensino superior, especialmente os de Pedagogia, cursos teóricos e práticos para que eles desenvolvam ações sobre o assunto com seus futuros alunos. O objetivo, aponta Ferreira, é garantir que o estudante tenha mais contato com o tema durante o ano letivo, mesmo sem a presença da pasta.

A secretaria também realiza o projeto “Escola, Trânsito e Cidadania”, que promove palestras, apresentações de fantoches e outras atividades sobre trânsito e mobilidade para alunos do ensino infantil ao médio. Fora as ações específicas da SMT, existem ainda as parcerias com outras secretarias, como a de Educação. Juntas, as pastas promoveram uma mostra de vídeos produzidos pelos alunos de escolas da capital sobre assuntos relacionados ao trânsito.

No Detran, o projeto “Detranzinho”, voltado especificamente para as crianças, também investe na nova geração para melhorar o trânsito. João Balestra explica como funciona a ação, dividida em dois passos: primeiro, uma professora, formada especificamente em Educação de Trânsito, fica responsável pela parte teórica, ensinando sobre segurança e legislação.

Depois, vem a parte prática, feita em parceria com a empresa Lego Education, responsável pela produção de blocos de montar. Nessa fase, os alunos criam a cidade que julgam ideal. Então, vão para um micro-ônibus e fazem um “tour” por uma metrópole artificial com faixas de trânsito, sinaleiro e toda a infraestrutura urbana, e observam, na prática, como um condutor deve agir. Para isto, o Detran instala câmeras de vídeo dentro do veículo para que as crianças possam acompanhar o percurso na tela.

Alunos da rede estadual de ensino participam do programa "Detranzinho", em Goiânia | Foto: Divulgação/Detran-GO

Alunos da rede estadual de ensino participam do programa “Detranzinho”, em Goiânia | Foto: Divulgação/Detran-GO

O diretor de Atendimento destaca que o intuito não é apenas formar condutores conscientes, mas fazer também com que os pequenos levem os ensinamentos aos pais, que nem sempre dão o melhor exemplo. “Muitas vezes acontece de o pai ir buscar a criança, menor de oito anos, de moto, o que é proibido pela legislação. Em outros casos, ele fala ao celular enquanto dirige, faz uso de bebida alcoólica, enfim: o objetivo é que ela receba uma quantidade suficiente de informação para ser o nosso cidadão multiplicador e leve aquilo para os pais, tios e irmãos”, pontua.

O gerente de Educação da SMT reforça a fala de Balestra e destaca que a criança possui a particularidade de não carregar a bagagem de costumes e hábitos que a pessoa adulta já adquiriu ao longo dos anos. “As crianças são a grande esperança para um trânsito melhor, mas é necessária uma política pública de Estado para isso”, enfatiza Horácio. “Não adianta eu ir à escola hoje e só voltar no ano que vem. É preciso que a escola continue trabalhando isso mesmo quando a SMT não está lá. Se houver esse trabalho sistematizado, contínuo, sem sombra de dúvidas, a próxima geração de condutores será uma geração mais consciente”, pontua.

Concordando, o diretor complementa: “Ainda estamos formando maus condutores, que já chegam com vícios antes mesmo de fazer a prova. Por isso retorno na questão das bases. É um trabalho de formiguinha, mas é necessário, porque eles vão absorver o que é de bom, o que é fundamental.”

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