“Dinheiro da saúde é muito pouco para ser gasto em coisas que não funcionam”, diz Teich

Para ex-ministro da Saúde, Brasil navega em situação de absoluta incapacidade de enxergar o que vai acontecer pela frente

O médico Nelson Teich, que deixou o cargo de ministro da Saúde

O ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, afirmou neste domingo, 24, em entrevista à Globonews que neste momento não se sabe o que vai acontecer com o coronavírus no Brasil. “Navegamos hoje em situação de absoluta incapacidade de enxergar o que vai acontecer pela frente.”

Durante sua fala, Teich afirmou querer evitar a polarização. Ele mencionou, por exemplo, a discussão do isolamento social e a economia. “Se tratou economia como se fosse dinheiro e não vida, eu trato a economia como gente, não como dinheiro.”

Teich também disse que Bolsonaro está preocupado “com as pessoas”, mas talvez sua forma de comunicar isso não foi a boa. “Não vou julgar o presidente. Quem vai julgar o presidente é o futuro. O que não faltou no meu período foi compaixão”, disse.

Por pouco se saber sobre a doença e os próximos passos, a tomada de decisão é frágil, porque você tem que trabalhar com dados ainda incertos. “Se os indicadores mostrarem que não foi a melhor decisão, volto a trás. Foi a melhor decisão naquele momento.”

Outros tratamentos

Na entrevista Teich disse que como os hospitais, médicos e clínicas se dedicaram muito ao combate da coronavírus, outros tratamentos acabaram ficando represados. Por isso, há o risco de após passar a pandemia, o setor de saúde ter dificuldade de lidar com isso. Teich mencionou, por exemplo, que houve redução de 70% nas cirurgias oncológicas.

Sobre o isolamento, Teich ressaltou ainda que a decisão sobre o que fazer é das cidades. “O maior problema de administrar isso é saber quando isso acaba, isso traz uma ansiedade sem tamanho para as pessoas.”

O problema não é a cloroquina, o problema é as suas escolhas

Teich disse que não houve um alinhamento dele com o presidente Jair Bolsonaro, por isso sua decisão de deixar o governo. “Não foi a cloroquina, foi política”, afirmou ao ser perguntado se o uso do remédio para combater a Covid-19 foi o motivo de sua decisão.

“Na prática existia entre mim e o presidente uma diferença em como abordar o problema”, afirmou o ministro. Teich disse que ainda não há estudos definitivos sobre a eficácia da cloroquina, que devem estar prontos “em duas, três semanas”, inclusive no Brasil. Por isso, seria melhor esperar. Mas Bolsonaro preferia antecipar a decisão de liberar o uso. “O problema não é a cloroquina, o problema é as suas escolhas.”

“Para mim eu tinha que esperar pra tomar uma decisão. Não me senti pressionado, não tem pressão nenhuma”, afirmou Teich. “Se tem coisas que não se sabe se funciona, eu não posso gastar dinheiro nisso, porque tenho pouco dinheiro.” Por isso, disse ele, antecipar a decisão do uso da cloroquina teve peso em sua decisão de saída.

“O dinheiro da saúde é muito pouco para ser gasto em coisas que não funcionam”, disse Teich. (Com informações do Estadão)

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