Dicionário ‘esquecido’ da ditadura militar associava maconha a conspirações comunistas

15 janeiro 2025 às 21h00

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Um ‘dicionário esquecido’ pela ditadura militar, e encontrado pela BBC News Brasil, costumava associar a maconha à conspirações comunistas. Frases que apareciam no documento estavam relacionadas ao consumo e ao comércio ilegal. A ditadura alegava que as frases eram utilizadas por traficantes e usuários na década de 70.
A anotação foi feita por um inspetor da Polícia Federal no Glossário de Entorpecentes e Drogas Afins. O livro era atribuído ao Serviço de Repressão a Tóxicos e Entorpecentes, organização parte da estrutura da Polícia Federal responsável pela doutrina do tema na época. As informações foram divulgadas pela BBC Brasil
Apenas dizer as frases [listadas no fim dessa reportagem] era o suficiente para que alguém ficar sob suspeita de consumir ou comercializar entorpecentes. O pensamento guiou a atividade policial na década de 70, durante a ditadura militar e da ascensão da guerra às drogas.
O dicionário buscava organizar termos e conceito que poderiam ser usados para identificar supostos criminosos e reflete um momento onde pouco se sabia sobre as drogas. Um jornal chegou a chamar a obra de “a mais recente inovação no combate à onda de alucinógenos”, em 1971.
Publicações da época mostravam o cenário de ascensão do uso e comércio de drogas, o que preocupava o governo e a polícia. A interpretação é que este fenômeno estava ligado a uma estratégia internacional do comunismo de “estímulo ao vício”.
O glossário não aparece no arquivo oficial da PF. Em nota, a instituição afirmou que não encontrou a obra em seu arcevo. “Foi feita uma busca no acervo da biblioteca da Diretoria de Ensino da Academia Nacional de Polícia, bem como em seu arquivo depositário e não foi identificada a referida obra”, disse a PF, em nota. O glossário também não foi encontrado no acervo documental do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
No texto, diversos termosfazem menção a um vocabulário político, sem relação direta com drogas. Os termos “Assembleia”, catalogado como “grupo de fumadores de maconha, meeting de viciados em maconha ou diamba”, ou “contestação”, que significaria, segundo o documento “protesto jovem, de conotação tóxica”.
Exemplos como “ele é da política” significaria “da onda do fumo, linguagem de meliantes, tóxicos”. Ou ainda “new left”, traduzido como “nova esquerda, da pregação tóxica” também aparecem no livro.
O chefe do setor responsável por drogas na PF à época, Guimarães Alves, reclamava publicamente da falta de preparo de policiais sobre o tema. “É lamentável a insipiência de nossos homens no tocante ao mínimo de conhecimento dos toxicômanos”, disse em notícia veiculada no Jornal do Brasil em maio de 1970.
Ele também afirmou que a orientação da PF naquele momento era de fazer um trabalho “mais profilático” do que “repressivo”. O inspetor acreditava que a campanha “alertaria a juventude e faria ela engajar-se na luta que a Polícia Federal vem travando contra as drogas.”
O combate às drogas era um dos temas principais de Guimarães. Ao deixar o cargo, ele deixou, também, um plano de ações para o sucessor, “com o objetivo principal de alertar o brasileiro para os males causados pelo uso da droga.”
A estratégia do inspetor envolvia a estruturação da Polícia Federal para o combate às drogas e divulgação do trabalho para a população, com a publicação de artigos da “escalada nacional de repressão aos entorpecentes” para estudantes. Além disso, havia um plano de destruição do “polígono nordestino da maconha”, a realização de um congresso nacional de entorpecentes e sistematização de arquivos sobre o tema.
Um inspetor de polícia chamado Carl Grobman assumiria o cargo no lugar de Guimarães. “Até a sua posse continuará respondendo pelo cargo o sr. Guimarães Alves, que preparou para seu sucessor um glossário toxicológico que contará, inclusive, com o linguajar usado pelos viciados”, diz uma nota.
Veja as frases encontradas no glossário
- O que significam estas frases abaixo?
- “Acabei de castigar a coisa e fiquei de zonzeira.”
- “O tesoureiro apareceu com a coisa agora.”
- “Nega de dar um finório ao pivete”.
- “Olha estas pintas, tudo acertado”.
Veja fotos do livro






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