Diário de uma vagina: o árduo cotidiano da mulher contra o machismo da sociedade

No século XXI, as mulheres não lutam pelo direito de votar ou trabalhar, mas sim pelo simples direito de não serem violentadas

3ª Marcha das Vadias de Goiânia, que aconteceu este ano. Os manifestantes ocuparam o Coreto após passeata  no centro da capital

3ª Marcha das Vadias de Goiânia, que aconteceu este ano. Os manifestantes ocuparam o Coreto após passeata
no centro da capital

Todos os dias nos deparamos com toneladas de notícias relacionadas à violência contra a mulher. A reincidência constante de atitudes machistas por parte não só de homens, mas também de mulheres, perpetua esta “cultura” de imposição do gênero masculino. Nós, mulheres, somos obrigadas a passar por uma série de situações de assédio sexual e moral durante toda a nossa vida.

A onda de feminismo acaba de ressurgir. Depois dos sutiãs queimados, e dos vários livros feministas, o tema não era constantemente lembrado como acontece atualmente. A marcha das vadias é o exemplo mais claro e recente desta revolta feminina. Revolta por ver o número de violência sexual subindo; revolta por ouvir relato de amigas que sofreram abuso; revolta por viver com medo.

A cultura do machismo é iniciada durante a infância, pela própria mulher, que foi educada da mesma forma. É como um ciclo vicioso que deve ser extinto. Em um dos dois volumes do livro “O Segundo Sexo”, de Simone Beavour, a autora explica que quando criança os adultos querem que o menino seja o “homenzinho”. Quanto a mulher, o tratamento é diferente, é inibidor. Quantas vezes já não vimos mães dizendo às suas filhas “Feche as pernas, que moça não pode ficar de perna aberta?” Não pode por quê?

Então o menino encarna-se no pênis. Sente orgulho do seu pequeno sexo, enquanto a menina aprende que deve manter seu sexo escondido entre as pernas. O menino se sustentará em seu sexo, sua soberania orgulhosa. Enquanto a mulher, na medida que crescer, deverá ter sempre cuidado para não se tornar “alvo fácil”, resguardar sua tão valiosa virgindade, e não usar roupas que aflorem o “instinto selvagem” do macho.

No livro “A política Sexual da Carne”, a chamada “bíblia da feminista vegana”, Carol Adams compara a violência contra os animais com a violência contra a mulher. A autora chama o consumo da carne de “estupro do animal”, e a violência contra a mulher de “retalhamento”. Segundo Adams, o homem, que sempre tem o maior pedaço de carne nas refeições, sente-se de todas as formas, superior à mulher. E este retalhamento é muito mais que apenas a satisfação sexual do macho. É um prazer de sobreposição ao gênero. E também o ápice da humilhação de um ser humano; de uma mulher, fisicamente mais fraca que o homem.

Durante a escravidão, e em diversos casos de guerra, a forma de punir um homem, de tirar-lhe a honra, era violentado-o. A origem da palavra “coitado” vem desta prática do coito. O homem violentado era “coitado”. A violência contra a mulher é a total sobreposição do homem ao gênero e ao indivíduo (não individualizado pelo agressor). Como em diversos relatos de estupro, a mulher é tratada como “um pedaço de carne”, como dito no livro de Carol Adams. Apenas o objeto de satisfação do desejo masculino.

Ser mulher é uma luta diária. É estar atenta no transporte coletivo, não por medo de ser roubada, mas por medo de ser assediada; é trocar de lado na rua quando vê um homem para não ter que ouvir as famosas “cantadas”, que chamo de assédio moral. Uma estudante belga, Sofia Peeters, produziu um documentário expondo as formas com que as mulheres são assediadas pelos homens quando andam pelas ruas de Bruxelas. No filme, a jovem é abordada por vários homens de diversas maneiras enquanto faz um percurso de seu cotidiano.

Até 2009, o Código Penal só tratava como estupro a agressão com penetração vaginal comprovada. As mulheres não denunciavam outros tipos de assédio por medo e receio de serem ridicularizadas. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o índice de estupro cresceu 157% entre 2009 e 2012. É claro que nesta estatística há uma relação direta com o fato das mulheres terem passado a denunciar mais a violência. No entanto, o alarmante é pensar sobre a quantidade de estupros que não foram denunciados, e ver o número crescer continuamente, mesmo com a evolução constante da sociedade. As mulheres conquistaram seu lugar no mercado de trabalho e no mundo, mas ainda são vistas como um ser inferior, assim como o negro sofreu (e ainda sofre) por tantos anos.

As mulheres são obrigadas a viver com medo de sair à noite, morar sozinhas, ir a festas. O homem, criado como um alfa, orgulhoso do seu falo, se impõe sobre a mulher. E a mulher, aprende a ignorar os “elogios” na rua; a abaixar a cabeça quando passa por uma aglomeração de homens. E a violação constante nas ruas, ônibus, festas, faz o sexo feminino se sentir, completamente, como um pedaço de carne. A mulher é animalizada, tratada e sentida como o gado; um ser mais fraco, levado ao abate.

O “machismo nosso de cada dia” impõe tanto para a mulher quanto para o homem uma condição de escravidão. O mundo deve se libertar desta cultura em que o homem paga a conta do restaurante, a mulher pode trabalhar desde que saiba realizar também as tarefas domésticas e o estupro é um crime recorrente. Os homens não devem ser tratados como animais irracionais quando se trata de prazer sexual. Saia curta, decote, vestido apertado não é provocação. É o exercício do direito de se vestir como bem desejar. As ativistas da “Marcha das Vadias” gritam “Pelo direito de ser vadia!” E é exatamento isto. O grito é pelo simples direito de se portar como quiser sem medo de ser violada.

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