“Desespero do poder”: especialistas explicam por que Trump estaria tentando conter avanço da China na América Latina
24 agosto 2026 às 12h49

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Em uma conversa telefônica descrita pelo Palácio do Planalto como de tom “amistoso e cordial”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ouviu do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, perguntas sobre as eleições de outubro, ao mesmo tempo em que rebatia as alegações norte-americanas para o tarifaço que atinge milhares de produtos brasileiros, classificando-as como “infundadas”. O diálogo, que, segundo fontes da diplomacia brasileira, não representou uma cobrança formal de explicações nem levantou especulações sobre o sistema eleitoral ou as urnas eletrônicas, acontece, no entanto, em meio a uma escalada de tensões iniciada semanas antes e que, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Jornal Opção, expõe muito mais a fragilidade geopolítica de Washington do que sua força.
Isso porque o contato entre os mandatários ocorre sob a sombra de uma publicação do Departamento de Estado que resgatou a centenária Doutrina Monroe para reafirmar o domínio estadunidense sobre as Américas, um movimento interpretado como uma reação desesperada à crescente influência chinesa na região e um recado direto ao Brasil por sua postura na Organização Mundial do Comércio (OMC).
O vídeo, divulgado há cerca de três semanas na rede social X (antigo Twitter), proclama que “o domínio americano no hemisfério ocidental nunca mais será questionado”, citando a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro como exemplo recente da aplicação da política externa criada em 1823 pelo então presidente James Monroe. A publicação aconteceu em meio às tensões comerciais já agudas com o Brasil, que acumula sobretaxas que podem chegar a 37,5% sobre seus produtos, resultado da soma de uma tarifa de 25%, aplicada após investigação sobre práticas comerciais injustas, com uma alíquota adicional de 12,5% baseada em acusações de falhas no controle de importação de produtos feitos com trabalho forçado.
Para a professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutora em Ciências Sociais, Marina Bolfarine Caixeta, a atitude norte-americana traduz muito mais do que uma simples provocação diplomática. Em entrevista ao Jornal Opção, a especialista em Relações Internacionais fez uma análise sobre o momento geopolítico atual, traçando um paralelo entre o passado e o presente para explicar o que classifica como um “desespero do poder norte-americano”.

Segundo ela, diferentemente do contexto do século XIX, quando a Doutrina Monroe visava conter a ingerência europeia em um continente que se descolonizava, a reedição dessa política hoje tem um novo alvo: a China.
“No atual contexto, em que a doutrina Donald está sendo questionada, está sendo nomeada assim, como uma crítica ao Trump de tentar resgatar uma coisa do passado, de zona de influência norte-americana, não é contra a Europa, mas contra a China. E, lembrando que a China é esse novo parceiro da América Latina, que está oferecendo oportunidades de cooperação e de relações comerciais muito mais vantajosas para os países latino-americanos do que a própria permanência sob a esfera de influência norte-americana”, argumentou.
Marina ressaltou que o que está verdadeiramente em jogo é a soberania dos países latino-americanos e, sob essa ótica, a balança pende favoravelmente ao gigante asiático.
“A Iniciativa Cinturão e a Rota, que em inglês se usa muito a expressão Belt and Road Initiative, como se fosse uma reconstrução da nova Rota da Seda, ela é muito mais vantajosa para a nossa região em termos comerciais, de investimento externo direto, de assistência técnica e em termos de superação das nossas deficiências de infraestrutura. A China é a grande vantagem da crise”, afirmou.
Nesse sentido, a professora avaliou que a reação de Washington, materializada não apenas no vídeo, mas também no tarifaço contra produtos brasileiros e nas ameaças veladas, constitui uma tentativa desesperada de conter a perda de influência em um território que considera seu “último reduto”. Para ela, ações como o sequestro de Maduro e a asfixia econômica imposta a Cuba servem como evidências desse movimento.
“A tentativa também de questionar as eleições do Brasil e de fazer algumas declarações que nos colocam com medo de haver intercorrências nas nossas eleições. Então, isso tudo, na verdade, é um desespero do poder norte-americano”, concluiu.
Essa avaliação é corroborada por outro analista ouvido pelo Jornal Opção. O mestre em Sociedade e analista político Deividi Lira destacou que as ações de Washington, incluindo a crítica ao sistema de pagamentos brasileiro Pix e a categorização de facções criminosas como organizações terroristas, configuram uma interferência direta nos assuntos internos do Brasil.
“A ligação entre o Brasil e os Estados Unidos está bem enfraquecida, há muito desgaste entre a relação diplomática. O tarifaço e depois mais uma tarifa de 12,5%, tudo isso acaba afetando muito as questões comerciais, aquilo que os dois países já tinham construído há muito tempo”, disse Deividi.
O analista chamou atenção para o fato de que, ao se autodeclarar líder das Américas, Trump se expande em governos alinhados à direita na região, o que fortalece seu discurso e amplia o cerco ao Brasil.
“A questão dele categorizar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas e dele querer enviar dois olheiros, digamos assim, para a convenção do Flávio Bolsonaro, pode sim ser uma forma dele interferir nas eleições brasileiras, então tudo isso são pontos que o Donald Trump traz e que, sim, precisam de uma atenção do atual governo”, alertou.

Apesar do tom agressivo e da escalada das tensões, Deividi acredita que o conflito tende a permanecer no campo diplomático e comercial, sem se converter em uma hostilidade militar direta.
“Eu não acredito que vá escalar em uma violência como a gente viu no Oriente Médio, os Estados Unidos atacando o Irã, não acredito que chegará a tanto, mas é preciso, sim, uma postura mais combativa, não só do Brasil, mas de outros países que são de esquerda”, ponderou.
Ele destacou, inclusive, que a recente conversa telefônica entre os presidentes Lula e Trump pode indicar uma tentativa de ambos os lados de frear a deterioração do relacionamento.
Contudo, a professora da UFG afirmou que a intromissão dos EUA nos assuntos internos dos países latino-americanos é uma prática histórica e que, portanto, deve-se esperar tentativas de influenciar o pleito de outubro.
“A ingerência dos Estados Unidos nos assuntos internos dos países latino-americanos sempre existiu desde que os Estados Unidos se projetou como um país poderoso depois da Segunda Guerra Mundial”, lembrou, citando o apoio à ditadura de Augusto Pinochet no Chile e o golpe militar no Brasil como exemplos documentados.
Ela argumentou que a imprevisibilidade de Trump e de seu secretário de Estado, Marco Rubio, torna a situação ainda mais delicada, com a possibilidade de métodos inovadores e surpreendentes de interferência.
“As mais diversas formas inclusive já estão acontecendo, até subsídios a pesquisas e pesquisadores que vão liberar dados que são contestados facilmente. Isso já está acontecendo, pesquisas de opinião que vão enviesar o ponto de vista da população perante um candidato ou outro já é uma coisa que já está se praticando”, denunciou.
Para a especialista, a postura do presidente Lula, que tem buscado uma diversificação de parcerias internacionais como uma medida de soberania, é vista com maus olhos por Washington.
“A gente tem um governo que está questionando as medidas norte-americanas e que possivelmente por conta disso está sendo visto como o malquisto. Os Estados Unidos talvez vão fazer investidas para não tê-lo novamente aproveitando o período eleitoral próximo”, disse.
A professora destacou, ainda, um fenômeno observado por intelectuais e que resume a ironia do momento atual: a política agressiva de Trump pode estar, na verdade, acelerando o fortalecimento chinês.
“Tem uma frase muito interessante que tem se falado na China que é o Trump está construindo a China. Segundo o próprio cientista norte-americano Joseph Nye, a cada vez que eles usam a armada e as sanções econômicas que são eminentemente relacionadas ao poder de coerção, que é o poder bruto, a China constrói suas relações”, finalizou.
Por fim, o analista Deividi Lira acredita que, independentemente do resultado das eleições brasileiras em outubro, a questão comercial será um tema central a ser administrado em 2027, com a possibilidade de as tarifas permanecerem até lá como instrumento de pressão.
“Eu acho que ele vai manter, sim, as duas tarifas e também a investigação comercial”, concluiu.
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