Especialista aponta quem venceu o primeiro debate presidencial com ausências de Lula e Flávio
24 agosto 2026 às 10h45

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O primeiro debate presidencial das eleições de 2026, realizado pela TV Bandeirantes neste domingo, 23, em São Paulo, foi marcado pela ausência de três dos seis convidados e, principalmente, pelas estratégias adotadas pelos candidatos que compareceram ao encontro. Para o analista político e mestre em Sociedade, Deividi Lira, Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) aproveitaram o espaço de maneiras distintas, enquanto Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) optaram por não participar. Segundo o especialista, o encontro serviu especialmente para ampliar a visibilidade nacional de Caiado e evidenciar a aposta de Renan em uma comunicação voltada às redes sociais e em uma postura de terceira via.
Realizado às 20h, o debate reuniu discussões sobre segurança pública, situação fiscal, educação, violência contra a mulher, relações do Brasil com os Estados Unidos e o fim da escala 6×1. Enquanto isso, os púlpitos destinados a Lula, Flávio e Zema permaneceram vazios. As ausências foram exploradas pelos participantes em diferentes momentos, sobretudo as de Lula e Flávio.
A avaliação de Deividi é que Renan utilizou o espaço de forma mais combativa, priorizando críticas aos adversários ausentes. “O debate abriu a oportunidade para o eleitorado brasileiro. O Renan Santos aproveitou a oportunidade mais para fazer críticas, né? Usou uma comunicação mais combativa, mais agressiva, inclusive chamando o Flávio Bolsonaro e o Lula de criminosos e covardes.” Na avaliação do especialista, entretanto, a estratégia de comunicação adotada por Renan apresenta uma diferença importante em relação à postura de Caiado. O candidato do PSD, que governou Goiás, utilizou a experiência à frente do Estado para apresentar resultados e ampliar sua exposição entre eleitores de outras regiões.
Deividi considera que esse movimento foi relevante porque Caiado, assim como Zema, ainda enfrenta o desafio de aumentar o reconhecimento nacional. “O Ronaldo Caiado entregou um governo muito bem avaliado no estado de Goiás, então, a população já conhecia sim um pouco ele, mas claro que o debate ampliou essa visibilidade dele como um pré-candidato à presidência da República. Porque, nas pesquisas eleitorais, se você pegar, a gente observa que tanto ele quanto o Zema, eles ainda patinam bastante porque eles não são conhecidos nacionalmente.”
Para o analista, Caiado conseguiu aproveitar o debate para se apresentar como uma alternativa ao cenário de polarização. A segurança pública, tema central de sua atuação política, apareceu como um dos principais elementos utilizados para construir essa imagem nacional. Além disso, ele destacou a experiência do governo de Goiás em áreas como educação e combate ao feminicídio. “Eu penso que ele aproveitou essa oportunidade de se colocar como uma terceira via, mesmo sendo mais aliado à direita”, disse o especialista.
Ainda segundo Deividi, a forma como Caiado apresentou Goiás não necessariamente restringe sua candidatura ao eleitorado regional. Pelo contrário, a experiência administrativa pode funcionar como um argumento para ampliar seu espaço nacionalmente, especialmente diante de eleitores que ainda não conhecem sua trajetória. “Eu acho que ele trazer esses dados, a experiência dele governando o estado de Goiás, tende a ser muito positivo e se coloca aí como uma opção para o eleitorado brasileiro que ainda não conhecia.”
Apesar disso, o especialista identificou uma lacuna no discurso do candidato do PSD. Para ele, o ajuste fiscal e o arcabouço fiscal receberam pouca atenção durante o debate, apesar de serem temas relevantes para a economia e para o cenário nacional. “Eu senti falta. Ele não fala muito sobre o arcabouço fiscal, o que será feito, tanto ele quanto os dois candidatos, eles falam de uma forma muito superficial, e a gente sabe que esse é um tema dentro da economia que pega bastante, é um tema muito grave e também urgente neste momento.”
Já Augusto Cury adotou uma postura diferente dos demais participantes. Segundo Deividi, o candidato do Avante buscou reduzir o tom de confronto, criticou a polarização e concentrou parte de sua participação na educação. “Ele disse que o Brasil está doente, que essa polarização cristalizada traz muito prejuízo para a população”, ressalta.
O especialista também considera que a estratégia de Cury pode ganhar força justamente por apresentar propostas e evitar uma comunicação concentrada nos ataques. Nesse sentido, ele diferencia a atuação do candidato da postura de Renan, que, segundo sua avaliação, priorizou frases capazes de gerar repercussão nas redes sociais. “Eu penso que foi uma estratégia mais pacificadora e que fala mais sobre os seus projetos. É a estratégia que vem funcionando e que vai continuar norteando as campanhas eleitorais.”
Deividi avalia ainda que o formato do debate favoreceu comportamentos distintos. Renan teria demonstrado preocupação com a produção de conteúdos curtos para as redes, enquanto Caiado se concentrou em apresentar seu principal mote e Cury tentou pacificar o confronto. “O Renan foi pro debate preocupado em cortes pras redes sociais, com as frases de efeito ali que ele usa, a forma com que ele anda pelo estúdio, que ele enfrenta a câmera, tudo isso é corte para as redes sociais dele.”
O debate foi dividido em três blocos. No primeiro e no terceiro, os candidatos tiveram confrontos diretos, com um minuto para pergunta e réplica e até quatro minutos para o adversário dividir entre resposta e tréplica. No segundo, jornalistas fizeram perguntas e escolheram um candidato para responder e outro para comentar. Ao final, cada participante teve um minuto e meio para as considerações finais.
Na avaliação de Deividi, a ausência de Lula, Flávio Bolsonaro e Zema não retirou a relevância dos candidatos que estiveram no estúdio, mas produziu efeitos distintos sobre as estratégias de campanha. Lula optou por conceder uma entrevista exclusiva no mesmo horário do debate, enquanto Flávio condicionou sua participação à presença do petista. “O Lula foi uma estratégia de marketing político, uma estratégia da campanha dele”, disse o especialista.
Entre os ausentes, Deividi considera que Zema pode ter sido o mais prejudicado pela decisão de não comparecer. O especialista argumenta que o candidato do Novo tinha a oportunidade de usar sua experiência como governador de Minas Gerais para se apresentar ao eleitorado nacional, assim como Caiado fez com Goiás. “Era o momento dele trazer as experiências ali dele para o eleitorado conhecer e ele desperdiçou isso.”
Por fim, Deividi também analisou um dos momentos que repercutiram durante o evento: o fato de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, ter sido flagrado dormindo durante a fala de Caiado. Para o analista, o episódio não deve provocar danos relevantes à candidatura. “Acho que é um fato muito isolado se a gente considerar a trajetória do Kassab.”
Na leitura do especialista, porém, uma das falas de Renan pode ter potencial para atingir especificamente parte do eleitorado conservador. Ao mencionar a relação de Flávio Bolsonaro com Donald Trump e associá-la a uma suposta negociação da soberania nacional, o candidato teria buscado explorar um tema sensível para esse público. “Essa questão do Trump categorizar as organizações criminosas como organizações terroristas, o eleitorado de extrema direita, um eleitorado conservador, ele não é a favor de uma interferência de outra nação nos problemas que são do Brasil.”
Para Deividi, o primeiro debate presidencial de 2026 foi menos marcado pelo confronto entre os três participantes e mais pelas estratégias individuais de comunicação. Enquanto Renan apostou no impacto e na repercussão digital, Caiado utilizou a experiência administrativa de Goiás para ampliar sua projeção nacional, e Cury buscou se posicionar como uma alternativa ao ambiente de polarização.
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