De vestígios de 11 mil anos ao Art Déco: Goiás preserva séculos de história e memória
15 agosto 2026 às 21h00

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No dia 17 de agosto, o Brasil celebra o Dia do Patrimônio Histórico Nacional, data criada em 1998 para homenagear o centenário de Rodrigo Melo Franco de Andrade, primeiro presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em Goiás, o acontecimento encontra um território que reúne registros arqueológicos de até 11 mil anos, conjuntos urbanos coloniais, manifestações culturais vivas e o maior acervo de arquitetura Art Déco do país.
Conforme explica o superintendente do Iphan em Goiás, Gilvane Felipe, o instituto concentra hoje sua atuação em três frentes prioritárias: articulações institucionais, educação patrimonial e fiscalização.
Além disso, o Iphan mantém parcerias com universidades, prefeituras e comunidades. Um dos projetos em andamento é o Programa Conviver, Canteiro Modelo Vila Boa, desenvolvido em cooperação com a Universidade Federal de Goiás (UFG) e a Prefeitura Municipal de Goiás.
A iniciativa oferece assistência técnica a moradores de baixa renda em imóveis históricos da área tombada da Cidade de Goiás, combinando projetos de arquitetura e engenharia com oficinas de técnicas construtivas tradicionais, como adobe e pintura com tintas naturais. Paralelamente, o instituto firmou o Acordo de Cooperação Técnica com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para ações junto às comunidades quilombolas e participa do Sistema Nacional de Patrimônio Cultural.
“No âmbito da arqueologia, por exemplo, reúne mais de 1.300 sítios cadastrados pelo Iphan, com registros que recuam a até 11 mil anos atrás. Esses bens são legalmente considerados bens da União, de acordo com a Constituição Federal de 1988, e protegidos pela Lei Federal nº 3.924/1961, cobrindo desde abrigos com arte rupestre pré-colonial até vestígios materiais da mineração setecentista”, detalha Gilvane Felipe.
O superintendente acrescenta que o patrimônio edificado goiano inclui cinco conjuntos urbanos tombados e 43 bens protegidos individualmente pelo instituto, com destaque internacional para o Centro Histórico da Cidade de Goiás, reconhecido como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
Entre as referências culturais reconhecidas pelo Iphan em Goiás, estão a Cidade de Goiás, Pirenópolis, Corumbá de Goiás, Pilar de Goiás e Goiânia. A antiga capital estadual, conforme Gilvane Felipe, “mantém mais de 90% de seu traçado barroco-colonial original preservado” e abriga monumentos como o Palácio Conde dos Arcos e o Museu das Bandeiras. Já Pirenópolis, tombada pelo Iphan em 1990, destaca-se pelo casario colonial imponente, ruas de pedra e forte tradição cultural nas encostas do Rio das Almas. Corumbá de Goiás, fundada em 1731, reflete o auge do comércio no período minerador regional, enquanto Pilar de Goiás preserva relíquias da exploração do ouro em menor escala urbana, com igrejas e residências setecentistas de relevância técnica singular.
Por outro lado, Goiânia rompe com a estética colonial. A capital abriga o maior acervo de arquitetura Art Déco do Brasil, tombado pelo Iphan em 2003. O conjunto nacional engloba o traçado original planejado por Atílio Corrêa Lima e 22 edifícios e monumentos públicos centralizados. Entre os destaques estão o Teatro Goiânia, a Estação Ferroviária e o Palácio das Esmeraldas. Assim, enquanto as cidades históricas exigem cuidado com elementos construtivos tradicionais, como adobe e taipa, o patrimônio modernista de Goiânia demanda atenção a materiais e técnicas do século XX.

No campo do patrimônio imaterial, Goiás também possui registros formais de celebrações e saberes tradicionais. A Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis, a Romaria de Carros de Bois da Festa do Divino Pai Eterno de Trindade e as Expressões Artísticas e Cosmologia do Povo Karajá representam bens culturais vivos.
“Diferente dos monumentos físicos, o patrimônio imaterial foca nas tradições orais, rituais, festas e ofícios repassados entre gerações. Esses bens são vitais para Goiás porque funcionam como o ‘coração cultural’ do Estado, unindo a herança religiosa colonial, o sincretismo afro-brasileiro e a profunda ancestralidade indígena à vida contemporânea das comunidades”, afirma o superintendente.
Ainda segundo Gilvane Felipe, o Iphan vive um momento histórico em relação ao patrimônio quilombola. “Em virtude da Portaria do Iphan nº 135/2023, em Goiás, atualmente vivemos um momento histórico com o tombamento do Quilombo Kalunga pelo Iphan, consolidando o Estado como casa do maior território quilombola do Brasil. Goiás abriga uma população estimada em 50 mil quilombolas, distribuídos em 82 comunidades espalhadas por 49 municípios.” O projeto, firmado em acordo técnico-financeiro com o Sebrae válido até 2028, realiza um inventário dos bens culturais e das potencialidades econômicas das comunidades.
Participação comunitária foi crucial para a preservação e reconhecimento
Enquanto isso, a historiadora Salma Saddi, ex-superintendente do Iphan em Goiás e responsável pelo dossiê da candidatura da Cidade de Goiás a Patrimônio Mundial, destaca a importância da participação comunitária. “O Aloísio Magalhães foi um grande dirigente do Iphan. E ele disse uma frase que eu nunca esqueci e sempre trabalhei com ela: ‘O maior guardião de uma comunidade é a sua população’”, relembra. A historiadora acrescenta que, sem diálogo entre órgãos públicos e moradores, não é possível preservar de forma eficaz. “Um técnico do Iphan tem que dialogar com o proprietário, para que o proprietário perceba a importância do bem que ele tem. Sem o diálogo, não funciona nada. Você cria uma geração de pessoas insatisfeitas com o patrimônio histórico.”
Salma Saddi também avalia que a Cidade de Goiás, Corumbá de Goiás e Pirenópolis estão entre os locais que merecem atenção e visitação. Sobre a antiga capital, ela afirma que o município “ainda mantém os seus elementos construtivos mais íntegros” e conserva grande parte dos valores culturais entre a população. Em Corumbá de Goiás, distante 20 quilômetros de Pirenópolis, a historiadora chama a atenção para a associação de patrimônio histórico que sobrevive “aos trancos e barrancos para manter aquele conjunto”. O município é terra de escritores como Bernardo Élis e José J. Veiga. Já Pirenópolis, segundo Salma, possui bens extraordinários, mas exige cuidado porque a proximidade de Brasília tem tornado a cidade cosmopolita. “É uma cidade linda, que eu tenho o maior carinho por ela e pelas pessoas de lá”, diz.
Outro exemplo citado por Salma é a casa do Senador Canedo, em Bela Vista de Goiás. A proprietária, professora Nancy Ribeiro, mantém o imóvel com recursos próprios. “Ela nunca recebeu verba federal. Ela faz com a verba dela. Todo ano faz reparos na casa”, ressalta a historiadora. A Casa do Senador Canedo é um bem tombado que, segundo Salma, demonstra como a iniciativa privada pode contribuir para a preservação quando existe consciência patrimonial.
Ações educativas são cruciais para manutenção do bem tombado
No campo da educação patrimonial, Salma defende ações educativas contínuas, especialmente com professores e alunos. “Quando você pratica a educação patrimonial, você faz cursos intensivos para professores e faz educação patrimonial com os alunos. Eles são agentes multiplicadores. Eles levam isso para os pais, para os avós, para os filhos”, explica. A historiadora lembra ainda que o Iphan é um órgão normativo, não provedor. “Ele recebe recursos e aproveita essas verbas para investir onde é preciso. Ele não é um órgão para obras, isso é uma consequência”, pontua.
Reconhecimento estadual
Paralelamente às ações do Iphan, a Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego) também participa do reconhecimento de bens culturais. Deputados estaduais apresentam projetos de lei para declarar o valor histórico, cultural ou imaterial de locais, manifestações e instituições. Como o tombamento formal é ato do Poder Executivo, muitas dessas iniciativas parlamentares autorizam o governo a realizar o ato ou declaram o valor cultural por via legislativa. O processo começa com a apresentação do projeto, passa por comissões temáticas, como a Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ), e, se aprovado em plenário, segue para sanção ou veto do governador.
O levantamento realizado pela reportagem na página de pesquisa legislativa da Alego mostra que, desde 2012, aparecem 32 propostas relacionadas a patrimônio histórico e cultural na base consultada, número que pode ser maior, já que a busca considera apenas um recorte específico.
Entre as proposições recentes, destacam-se projetos de 2026. O deputado Cristóvão Tormin (PRD) apresentou o Projeto de Lei Ordinária nº 307/2026, que reconhece a Procissão do Fogaréu de Luziânia como patrimônio histórico e cultural do Estado de Goiás. O mesmo parlamentar também protocolou o Projeto de Lei Ordinária nº 296/2026, que declara a Estação Ferroviária de Vianópolis como patrimônio histórico, cultural e bem de natureza imaterial. Já o deputado Issy Quinan (MDB) propôs o reconhecimento da Caminhada Ecológica como patrimônio histórico e cultural goiano, projeto que foi arquivado com lei sancionada.
Além disso, o deputado Bruno Peixoto (União Brasil) apresentou, no último ano, uma série de projetos que reconhecem igrejas e instituições religiosas como patrimônio histórico e cultural goiano. Entre eles estão o Santuário Basílica Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Matriz de Campinas), no Setor Campinas; a Paróquia Nossa Senhora da Piedade, em Bela Vista de Goiás; a Catedral do Senhor Bom Jesus da Lapa, em Anápolis; a Paróquia de Sant’Ana, em Inhumas; e a Paróquia e Santuário Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida de Goiânia.
Em 2026, Bruno Peixoto propôs ainda a declaração de utilidade pública para a Associação de Proteção ao Meio Ambiente, aos Recursos Hídricos e ao Patrimônio Histórico-Cultural de Itapaci (Promarh Itapaci).
Outro exemplo no âmbito estadual foi o reconhecimento dos pit-dogs como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado. A proposta, que se tornou lei, destacou a presença desses quiosques na paisagem e nos hábitos goianienses há quase 60 anos. A justificativa registrou que os pit-dogs “são comércios que estão há décadas no mesmo ponto e já se incorporaram à paisagem, aos hábitos dos goianienses”. Assim como os pit-dogs, outras manifestações, como a Feira Hippie, em Goiânia, e as Cavalhadas de Santa Cruz de Goiás, também foram objetos de proposições legislativas, demonstrando a diversidade de bens culturais que compõem a identidade goiana.
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