Depois de trabalhar como servente, faxineiro e porteiro e enfrentar dificuldades financeiras que o fizeram interromper a faculdade mais de uma vez, Francisco Arnaldo Patrício, de 50 anos, chega nesta terça-feira, 1º, a um dos momentos mais aguardados de sua vida: a colação de grau em Direito. “Estou muito feliz. Tenho a expectativa de fazer alguma coisa com isso, ter uma vida nova”, conta ao Jornal Opção. A cerimônia será às 18h30, no auditório da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), com a presença do pai e dos irmãos.

Quando Francisco entrar no auditório para receber o diploma, não levará consigo apenas os anos cursados em uma faculdade. A conquista reúne uma história que começou ainda na infância, na roça, passou pela construção civil, pela faxina e pela portaria até chegar aos corredores do Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO).

Natural de Iguatu, no interior do Ceará, Francisco começou a trabalhar ainda criança e precisou interromper os estudos na quarta série do ensino fundamental. Décadas depois, o menino que deixou a escola antes mesmo de concluir o ensino fundamental estará diante da família para receber um diploma de ensino superior.

Em 1996, Francisco deixou o Ceará em busca de novas oportunidades. Passou cerca de dois anos em São Paulo antes de chegar a Goiás, em 1998. Por aqui, estabeleceu-se entre Aparecida de Goiânia e a capital e começou a reconstruir a vida com os trabalhos que surgiam.

Foi servente de pedreiro e trabalhou em serviços gerais até que, em 2006, conseguiu uma oportunidade como faxineiro terceirizado no TJGO. Na época, sua jornada começava às 6h e terminava às 16h.

Foi justamente naquele ambiente que o Direito começou a ocupar um espaço maior em seus planos.

Entre a faxina e os livros de Direito

A rotina de trabalho não impediu Francisco de voltar a estudar. Nos intervalos do expediente, aproveitava o tempo disponível para abrir os livros de Direito. Depois das horas de trabalho, ainda seguia para a faculdade.

Conciliar emprego e graduação já era um desafio, mas havia outro obstáculo ainda maior: conseguir dinheiro para permanecer no curso.

Sem condições de arcar sozinho com todos os custos, Francisco contou com a ajuda de colegas e chegou a vender rifas para conseguir pagar a matrícula. Pequenas contribuições ajudavam a manter vivo um projeto que, naquele momento, ainda estava distante de ser concluído.

“Alguns colegas me ajudavam, compravam um saquinho e outro, para pagar a matrícula, porque minha condição não dava. A vida financeira não dava”, relembra ao Jornal Opção.

Enquanto tentava avançar na faculdade, Francisco também buscava melhorar a própria condição profissional. Da faxina, passou a trabalhar como porteiro, mudança que trouxe algum alívio financeiro.

O sonho precisou esperar

Em 2010, Francisco decidiu tentar um novo caminho e prestou concurso público. No ano seguinte, foi aprovado para trabalhar na Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg).

Em 2014, retornou ao TJGO, mas em uma condição diferente daquela em que havia chegado anos antes. O antigo faxineiro terceirizado passou a atuar no tribunal como servidor à disposição. Atualmente, exerce a função de assistente judiciário.

A ascensão profissional, entretanto, não significou que o caminho até o diploma estivesse livre de obstáculos. As dificuldades financeiras fizeram com que a graduação em Direito fosse interrompida em diferentes momentos.

O tempo passou e, em determinado momento, Francisco chegou a considerar não retornar mais à faculdade. Foi quando pessoas próximas começaram a lembrá-lo de tudo o que já havia enfrentado para chegar até ali.

“Foi os conselhos mesmo que pediram para mim: ‘Não, Francisco, o que é isso? Você volta, rapaz, você gastou tanto, você ralou, você… não vai ficar assim, você fez tudo, depois você vai jogar assim pelo alto?’”, relata.

O incentivo fez diferença.

“Decidi que iria concluir”

Em 2025, Francisco voltou para a faculdade com uma decisão tomada: desta vez, queria chegar até o fim. Depois de anos entre idas e vindas, concluiu o curso em 2026.

“Estou muito feliz. Tenho a expectativa de fazer alguma coisa com isso, ter uma vida nova. Aprendi muito e acho que a força que os amigos me deram me incentivou a voltar a estudar. Em 2025 decidi que iria concluir a faculdade”, afirma.

A colação de grau desta terça-feira terá um significado ainda mais especial porque Francisco poderá compartilhar o momento com parte da família. O pai e os irmãos estarão presentes para acompanhar uma conquista que levou anos para ser construída.

Para ele, concluir a graduação significa também perceber o quanto a vida mudou desde os primeiros trabalhos e das dificuldades para permanecer estudando.

“Mudou para melhor”, resume. “Agora chegou o momento, o ponto final como estão dizendo, terminar agora o curso superior.”

O diploma é só o começo

Apesar de chamar a conclusão da faculdade de “ponto final”, Francisco já sabe que os estudos continuarão fazendo parte da rotina.

O próximo objetivo é prestar o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Ele também pretende se preparar para novos concursos públicos, desta vez direcionados à área jurídica.

“Quero fazer concurso público. E assim por diante, a minha vida vai ser só concurso público”, diz.

Nesta terça-feira, quando o nome de Francisco Arnaldo Patrício for chamado na cerimônia, o diploma representará mais do que a conclusão de um curso. Estarão reunidos naquele momento o menino que trabalhou na roça e precisou deixar a escola, o homem que foi servente de pedreiro, o faxineiro que estudava Direito nos intervalos do expediente, o porteiro que buscou melhorar de vida e o servidor público que decidiu voltar à faculdade quando desistir parecia uma possibilidade.

Entre a quarta série interrompida e a graduação em Direito, passaram-se décadas. Entre as rifas vendidas para ajudar a pagar a matrícula e a cerimônia de colação de grau, vieram pausas, recomeços e dificuldades.

Aos 50 anos, Francisco chega ao diploma depois de uma caminhada longa. E, para ele, a conquista não encerra a história. Abre a próxima etapa.

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