Antes mesmo de receber as primeiras empresas, o Distrito de Inovação e Inteligência Artificial de Goiás já nasce com uma ambição que vai além da instalação de escritórios e laboratórios. A proposta do governo estadual é transformar uma área de 91 hectares do Setor Leste Universitário, em Goiânia, em um ecossistema onde universidades, centros de pesquisa, startups e multinacionais compartilhem o mesmo espaço para acelerar o desenvolvimento de soluções em inteligência artificial, formar mão de obra especializada e atrair investimentos. Com mais de R$ 300 milhões previstos em aportes, o projeto foi oficialmente lançado nesta terça-feira, 30, pelo governador Daniel Vilela.

A iniciativa busca posicionar Goiás como o principal polo brasileiro de inteligência artificial e um dos maiores da América Latina. Além da revitalização urbana da região, o distrito pretende concentrar empresas de tecnologia, laboratórios de pesquisa e programas de capacitação profissional em um modelo inspirado em polos internacionais de inovação.

Segundo o secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, José Frederico, o projeto começou a ser estruturado ainda durante a gestão do ex-governador Ronaldo Caiado, quando Daniel Vilela ocupava o cargo de vice-governador.

“A gente percebeu que Goiás já possui uma vocação para tecnologia e inteligência artificial. Estudamos exemplos como o Vale do Silício, Israel e Barcelona, que conseguiram estruturar grandes aglomerados de empresas de tecnologia e inovação. Esses polos acabam gerando milhares de empregos e fortalecendo toda a economia local”, afirmou ao Jornal Opção.

Embora o governo ainda não tenha uma estimativa definitiva sobre o número de vagas que serão criadas ao longo da implantação do projeto, José Frederico afirma que a expectativa é elevada.

Fotos: Walter Folador

“Hoje ainda não conseguimos mensurar exatamente porque isso dependerá da chegada das empresas, mas acreditamos que serão dezenas de milhares de empregos ao longo da consolidação do distrito.”

Ecossistema inspirado nos principais polos de inovação

A proposta do Distrito de Inteligência Artificial vai além da oferta de infraestrutura física. O conceito adotado pelo governo é o de criar um “cluster” tecnológico, modelo em que empresas, universidades, centros de pesquisa e órgãos públicos compartilham o mesmo território para estimular inovação, transferência de conhecimento e desenvolvimento de novos negócios.

Nesse processo, duas instituições terão papel estratégico: o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia-UFG) e o Hub Goiás.

“O CEIA será uma grande âncora do distrito. Ele continuará com sua sede na Universidade Federal de Goiás, mas também terá atuação aqui. O Hub Goiás também exerce esse papel de atrair startups e empresas inovadoras. Esses equipamentos funcionam como elementos que puxam outras empresas para o ecossistema”, explicou o secretário.

A estrutura prevê investimentos de aproximadamente R$ 200 milhões na reforma de prédios públicos e construção de novos espaços. Outros R$ 30 milhões serão destinados a projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, além de parte dos recursos do novo convênio firmado entre o Governo de Goiás e o Ceia-UFG.

Entre os imóveis que serão reformados estão o atual anexo da Secretaria de Estado da Administração (Sead), o prédio da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), a sede da Junta Comercial do Estado de Goiás (Juceg) e o Centro de Ensino em Período Integral Pré-Universitário, que passará a funcionar como uma escola voltada para tecnologia e inteligência artificial.

Semantix será a primeira empresa a integrar o distrito

A primeira companhia a confirmar participação no novo ecossistema é a Semantix, multinacional brasileira especializada em dados, analytics e inteligência artificial, presente em sete países e listada na Nasdaq em 2022.

Durante o lançamento, a empresa assinou um memorando de entendimento com o Governo de Goiás para instalar operações no distrito.

Fundador e CEO da Semantix, Leonardo dos Santos Poça d’Água afirmou que a escolha por Goiás foi motivada por uma combinação de fatores que dificilmente são encontrados em outros estados.

“O ambiente reúne governo, universidades e iniciativa privada. Essa triangulação é fundamental para qualquer economia baseada em inovação. Nós já vivemos essa experiência em outros países onde atuamos e entendemos que esse ambiente favorece muito o desenvolvimento da inteligência artificial”, afirmou ao Jornal Opção.

Segundo ele, a empresa já iniciou suas atividades no estado com uma estrutura reduzida, mas pretende ampliar significativamente sua presença conforme o distrito avance.

“Nós já estamos aqui e queremos expandir nossa atuação com esse novo centro.”

A expectativa inicial da companhia é formar uma equipe de aproximadamente 100 profissionais dedicados às operações de inteligência artificial em Goiás.

Para efeito de comparação, Leonardo lembra que a unidade da empresa em Londrina conta atualmente com quase mil colaboradores.

Curso de IA da UFG pesou na decisão

Outro fator considerado decisivo pela empresa foi a existência do curso de Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás.

Para Leonardo, a disponibilidade de mão de obra especializada próxima ao ambiente empresarial representa uma vantagem competitiva importante.

“Foi um fator decisivo. Ter uma universidade formando profissionais exatamente na área em que atuamos facilita muito a aproximação desses jovens com o mercado de trabalho e fortalece todo o ecossistema.”

A proposta do governo também prevê programas de residência tecnológica, aceleração de startups e qualificação profissional. Logo na fase inicial serão ofertadas cerca de 1.500 bolsas de capacitação, além de cursos técnicos gratuitos e descontos em formações oferecidas em parceria com o Sistema S.

Interesse de novas empresas

Mesmo antes do início das obras, o governo afirma que outras companhias do setor de tecnologia já demonstraram interesse em integrar o distrito.

José Frederico revelou ao Jornal Opção que a Amazon Web Services (AWS), divisão de computação em nuvem da Amazon, está entre as empresas que iniciaram conversas com o Estado.

“A Semantix foi a primeira empresa a formalizar esse interesse, mas já percebemos um movimento muito forte de outras companhias. A AWS também demonstrou interesse, e isso acontece naturalmente porque o ecossistema está sendo construído em torno de universidades, pesquisa e inovação.”

Revitalização urbana e transformação do Setor Universitário

Além do desenvolvimento tecnológico, o projeto pretende modificar a dinâmica urbana do Setor Leste Universitário.

A área de intervenção direta compreende 91 hectares e prevê requalificação de espaços públicos, priorização da circulação de pedestres, melhorias na mobilidade, implantação de áreas de convivência e revitalização de pontos tradicionais como a Praça Universitária e a Biblioteca Marieta Telles.

Na primeira fase, a expectativa é gerar 1.406 empregos diretos e movimentar diariamente mais de 3,2 mil pessoas entre pesquisadores, estudantes, trabalhadores e visitantes.

O governo estadual também negocia com a Prefeitura de Goiânia a criação de uma Área de Interesse Especial no Plano Diretor, que poderá oferecer incentivos urbanísticos e tributários para estimular a instalação de novas empresas no distrito.

A expectativa é que o espaço também funcione como um sandbox regulatório, permitindo testar soluções tecnológicas para serviços públicos antes de sua expansão para outras regiões da capital.

Para o governo, a combinação entre universidades, empresas, infraestrutura pública e incentivos econômicos deverá consolidar Goiânia como um dos principais centros brasileiros dedicados ao desenvolvimento da inteligência artificial e da economia baseada no conhecimento.