Creatina pode potencializar tratamento da depressão, mas especialistas alertam: “suplemento não substitui antidepressivos”
01 julho 2026 às 17h14

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Conhecida principalmente por melhorar o desempenho físico e aumentar a força muscular, a creatina também pode ter potencial como tratamento complementar da depressão. Uma revisão científica recente aponta resultados considerados promissores, mas os próprios pesquisadores alertam que as evidências ainda são limitadas e insuficientes para modificar a prática clínica.
O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de Ottawa, no Canadá, reuniu dados de seis pesquisas realizadas em cinco países — Brasil, Estados Unidos, Coreia do Sul, Israel e Índia — envolvendo 238 participantes, com idade média de 36 anos. A maior parte dos voluntários era composta por mulheres diagnosticadas com transtorno depressivo maior ou transtorno bipolar em fase depressiva.
A análise foi dividida em dois grupos. Entre pacientes com depressão, a suplementação diária de 5 gramas de creatina, associada a antidepressivos como o escitalopram, apresentou melhora significativa dos sintomas quando comparada ao placebo. Resultados positivos também foram observados quando o suplemento foi utilizado em conjunto com a terapia cognitivo-comportamental.
Já entre pacientes com transtorno bipolar, os benefícios não foram confirmados. Em dois casos, participantes desenvolveram episódios de mania ou hipomania após o uso da creatina, indicando que o suplemento pode não ser adequado para todos os perfis de pacientes.
Especialistas destacam que os resultados devem ser interpretados com cautela. O próprio líder da pesquisa, Bassam Jeryous Fares, afirma que os achados representam um indicativo de que o tema merece investigações mais aprofundadas, mas ainda não justificam mudanças nas recomendações médicas.
Segundo os autores, a creatina pode favorecer o metabolismo energético cerebral ao contribuir para a regeneração do ATP, principal molécula responsável pelo fornecimento de energia às células. Como pessoas com transtornos de humor frequentemente apresentam alterações nesse metabolismo, a hipótese é que o suplemento auxilie no funcionamento cerebral e influencie neurotransmissores relacionados ao humor, como serotonina e dopamina.
Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores ressaltam que os estudos analisados tiveram duração média de apenas oito semanas e envolveram um número reduzido de participantes. Por isso, defendem a realização de pesquisas mais amplas e de longo prazo antes que a creatina passe a ser incorporada como estratégia terapêutica para pacientes com depressão.
Suplemento pode potencializar tratamento, mas não substitui antidepressivos
Ao Jornal Opção, a nutricionista Taynara Abreu afirma que a creatina já é utilizada na prática clínica em alguns casos, sempre após avaliação individual e exames laboratoriais. Segundo ela, o suplemento pode contribuir para o funcionamento cerebral ao melhorar a produção de energia das células.
“A creatina ajuda a melhorar tanto a produção energética das células cerebrais quanto o funcionamento do cérebro. Essa melhora do metabolismo energético pode auxiliar na recuperação da depressão. Existem evidências de que ela potencializa a resposta aos antidepressivos em alguns pacientes e contribui para uma melhora mais rápida ou mais intensa dos sintomas quando utilizada como tratamento complementar”, explica.
A especialista ressalta, no entanto, que o suplemento não deve ser encarado como um tratamento isolado.
“Isso não significa que a creatina seja um remédio para depressão. Ela não substitui o tratamento médico nem os antidepressivos, mas pode atuar como um complemento em situações específicas”, afirma.
Segundo Taynara, além do possível benefício para pacientes com depressão, a creatina também pode contribuir para reduzir a fadiga física e mental, melhorar a memória, a concentração e o desempenho cognitivo. Esses efeitos tendem a ser mais relevantes entre idosos, vegetarianos e pessoas submetidas a situações prolongadas de estresse.
A nutricionista explica que a suplementação deve ser feita somente após uma avaliação clínica completa, para evitar riscos desnecessários.
“Qualquer suplemento precisa ser prescrito após uma avaliação individual. Costumo solicitar hemograma, glicemia, vitaminas B12 e D, ferro, ferritina, ácido fólico e, dependendo da história clínica, magnésio. Também peço ureia, creatinina e colesterol para verificar se o organismo está saudável antes da suplementação”, afirma.
Ela acrescenta que nem todos os pacientes precisam iniciar o uso imediatamente, já que, em muitos casos, outras deficiências nutricionais podem ter prioridade no tratamento.
Embora a revisão científica tenha identificado apenas efeitos adversos leves, como desconfortos gastrointestinais, a nutricionista alerta que existem contraindicações e grupos que exigem acompanhamento ainda mais rigoroso.
“Cada pessoa possui uma dosagem específica. Crianças não devem utilizar creatina sem indicação adequada. Gestantes, lactantes e pessoas com doenças crônicas também precisam de avaliação individual. Muitas vezes a indicação vem de amigos ou das redes sociais, mas isso pode trazer riscos, principalmente para organismos em desenvolvimento ou para quem já apresenta alguma condição de saúde”, conclui.
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