PF suspeita que R$ 468 mil apreendidos com Sóstenes, líder do PL, integram R$ 15,5 milhões movimentados por advogado de Goiás e seu irmão
01 julho 2026 às 16h38

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A Polícia Federal (PF) suspeita que os R$ 468 mil em dinheiro vivo encontrados no guarda-roupa do deputado federal e líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, façam parte dos R$ 15,5 milhões movimentados em mais de 80 saques pelos irmãos advogados Jonas Keslley e Jecy Kenne Umbelino, este último inscrito na OAB-GO. Os dois foram alvos da Operação Galho Fraco II, deflagrada nesta quarta-feira, 1º de julho.
A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão atendeu a um pedido da PF, com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República, e autorizou buscas e apreensões em Goiás, no Distrito Federal e em Minas Gerais, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.
A Operação Galho Fraco II é a terceira fase da Operação Rent a Car, que apura suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro, fraude processual e organização criminosa por meio do desvio de recursos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap).
Segundo a PF, as investigações apontam indícios de um esquema envolvendo agentes públicos, empresários e empresas supostamente utilizadas para dar aparência de legalidade à movimentação de recursos públicos. A corporação também investiga possíveis tentativas de ocultação de provas.
A reportagem tenta contato com os advogados Jonas e Jecy. O Jornal Opção também procurou a OAB-Goiás para comentar o cumprimento do mandado contra Jecy. A entidade declarou o que segue:
“Nota à imprensa
A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO) informa que ainda não foi notificada formalmente sobre o caso e, assim que for, adotará todas as providências necessárias à defesa das prerrogativas, essenciais à garantia do direito de defesa e ao regular funcionamento do Estado Democrático de Direito, assim como medidas éticas e disciplinares, se necessárias e cabíveis.
OAB-GO”
Já Sóstenes Cavalcante afirmou à imprensa que não foi alvo da operação.
Movimentação suspeita
A atual fase da investigação teve origem na apreensão de R$ 468,7 mil em dinheiro vivo durante uma busca realizada em dezembro do ano passado em um endereço atribuído a Sóstenes Cavalcante. Na época, o deputado afirmou à PF que o dinheiro era proveniente da venda de um imóvel em Ituiutaba (MG), “supostamente quitado em espécie”.
A investigação, porém, identificou que os pacotes de dinheiro continham etiquetas bancárias que indicavam como origem contas das empresas Ejus Empreendimentos e Foco Engenharia, controladas pelos irmãos Jonas e Jecy Umbelino.
A partir desse rastreamento, a Polícia Federal identificou um novo núcleo de investigados formado pelos dois empresários e pelas empresas Ejus Empreendimentos Imobiliários, Foco Engenharia e Incorporações e J. Umbelino Participações. Segundo a decisão de Flávio Dino, as empresas apresentam controle societário comum, movimentação financeira considerada complexa, circulação de recursos entre si e elevados saques em dinheiro.
R$ 15,5 milhões em saques
A investigação aponta que o grupo empresarial controlado pelos irmãos realizou 81 saques em espécie, que somaram R$ 15.542.386.
Todas as retiradas foram feitas diretamente por Jonas ou Jecy, o que, segundo a PF, demonstra o protagonismo dos dois na movimentação dos recursos.
Um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), elaborado após a identificação de indícios de lavagem de dinheiro, também registrou movimentações consideradas suspeitas.
Segundo o documento, em 27 de fevereiro de 2026 foram programados 14 saques em espécie que totalizavam R$ 2 milhões, com retiradas previstas para 4 de março. Desse valor, R$ 1 milhão seria sacado por Jecy Kenne e o outro R$ 1 milhão por Jonas Keslley.
De acordo com a PF, o dinheiro passava pelas empresas antes de ser retirado em espécie, em uma dinâmica que teria como objetivo dificultar a identificação da origem e do destino dos recursos. “O padrão de provisionamento de retiradas milionárias em espécie, a proximidade temporal entre as comunicações e a identidade dos sacadores reforçam o grau de suspeição sobre a dinâmica financeira do grupo”, afirma a PF na representação enviada ao STF.
Decisão
Ao autorizar as medidas cautelares, Flávio Dino afirmou que há “fundadas razões” para aprofundar as investigações.
Segundo o ministro, há indícios de que as empresas Ejus Empreendimentos, J. Umbelino Participações e Foco Engenharia movimentaram valores incompatíveis com sua estrutura empresarial e utilizaram sucessivos saques em espécie, prática que, segundo a investigação, pode indicar tentativa de ocultar a origem e o destino dos recursos.
Na decisão, Dino afirma que a hipótese ganha relevância porque parte desses valores pode ter origem em peculato supostamente praticado por um deputado federal.
O ministro também destacou um dos pontos levantados pela PF sobre a justificativa apresentada por Sóstenes Cavalcante para explicar os R$ 468,7 mil apreendidos. Segundo a investigação, o imóvel apontado pelo parlamentar como origem do dinheiro só foi transferido por escritura pública quase um mês após o cumprimento do mandado de busca e apreensão, além de envolver um comprador que também passou a ser investigado por movimentações financeiras consideradas suspeitas.



