Enquanto boa parte dos goianos associa Corumbá de Goiás às cachoeiras do Salto de Corumbá, a história do município revela uma importância muito maior para a formação do estado. Berço de um dos primeiros núcleos de ocupação da então Capitania de Goiás, a cidade preserva quase três séculos de patrimônio arquitetônico, manifestações culturais e tradições religiosas que atravessaram gerações. Neste mês de julho, o município celebra 296 anos de sua fundação, além de dois outros marcos fundamentais de sua trajetória administrativa, reunindo história, memória e desenvolvimento em uma mesma comemoração.

Embora a programação oficial aconteça em 9 de julho, a data reúne três acontecimentos distintos da história corumbaense. O primeiro é a fundação do antigo Arraial de Nossa Senhora da Penha de França de Corumbá, ocorrida em 8 de setembro de 1730, quando bandeirantes e mineradores se estabeleceram na região após a descoberta de ouro. Como setembro coincide com a tradicional Romaria de Nossa Senhora da Penha de França, padroeira do município, as comemorações cívicas foram transferidas para julho.

Também são celebrados os 151 anos da emancipação política, conquistada em 23 de junho de 1875, quando Corumbá voltou a ser município após períodos em que esteve subordinada administrativamente a Meia Ponte, atual Pirenópolis. Soma-se ainda o aniversário de 124 anos da elevação à categoria de cidade, oficializada em 9 de julho de 1902.

Para o historiador Ramir Curado, mestre em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e autor de diversas obras sobre o município, compreender essas datas é fundamental para entender a trajetória de Corumbá.

Segundo ele, muitas pessoas confundem as comemorações por associá-las apenas ao aniversário da cidade, quando, na verdade, julho reúne diferentes acontecimentos que marcaram sua consolidação política e administrativa. A fundação ocorreu em setembro de 1730, a emancipação definitiva veio em 1875 e a elevação à categoria de cidade aconteceu apenas em 1902, datas que hoje são lembradas conjuntamente pela população.

Uma das cidades mais antigas de Goiás

O surgimento de Corumbá está diretamente ligado ao ciclo do ouro, responsável pela ocupação do interior goiano durante o século XVIII. A riqueza mineral transformou rapidamente o antigo arraial em um importante centro econômico da região, atraindo mineradores, comerciantes e religiosos.

Mesmo após o esgotamento gradual das jazidas, o município conseguiu preservar grande parte de sua configuração urbana original. Hoje, caminhar pelo centro histórico significa percorrer ruas que guardam parte significativa da arquitetura colonial goiana.

Ramir Curado explica que diversos vestígios do período da mineração permanecem presentes no cotidiano da cidade. Entre eles está a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França, cuja construção começou por volta de 1750, durante o auge da exploração aurífera. O templo passou a funcionar em 24 de junho de 1751, embora sua conclusão tenha se estendido por décadas, chegando ao século XIX.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França | Foto: Divulgação

O historiador também destaca a dimensão da atividade mineradora desenvolvida em Corumbá. Em suas pesquisas, identificou 127 grupiaras — áreas destinadas à exploração de ouro — distribuídas pelo território do município, número que considera conservador, já que outras frentes de mineração podem ter existido sem registro documental.

Nem mesmo um dos principais cartões-postais atuais escapou desse passado. O Salto de Corumbá, hoje conhecido pelas cachoeiras e pelo turismo de aventura, também foi palco de intensa atividade mineradora durante o período colonial.

Patrimônio preservado

A herança desse passado permanece visível não apenas na Igreja Matriz. Corumbá conserva aproximadamente uma centena de edificações protegidas pelo patrimônio histórico, formando um dos conjuntos arquitetônicos mais expressivos de Goiás.

Até a década de 1920 predominavam construções em estilo colonial português. Posteriormente surgiram imóveis de influência eclética, que também passaram a integrar o conjunto preservado.

Entre os imóveis históricos, Ramir Curado chama atenção para uma residência construída em 1733, considerada uma das mais antigas do estado, além da Praça Antônio Félix, que homenageia o deputado responsável pela articulação política que resultou na elevação de Corumbá à categoria de cidade.

Outro marco pouco conhecido é o antigo sistema público de abastecimento de água, apontado pelo historiador como o primeiro implantado em Goiás. Parte dessa estrutura ainda pode ser observada na região da Serra do Cristo.

A antiga ponte construída no início do século XX também ocupa lugar importante na memória local. Além de impulsionar o desenvolvimento econômico de Corumbá, ela serviu posteriormente para a passagem de equipamentos destinados às obras de construção de Brasília, conectando a pequena cidade a um dos maiores projetos de infraestrutura do país.

Perdas e retomadas marcaram quase três séculos

A história de Corumbá, entretanto, não foi feita apenas de prosperidade. Ao longo dos séculos, o município enfrentou períodos de perda de autonomia administrativa que alteraram seu ritmo de crescimento.

Ramir Curado lembra que uma das maiores rupturas ocorreu em 1786, quando Corumbá foi incorporada ao município de Meia Ponte. Somente décadas depois recuperaria sua autonomia, voltando a perdê-la antes da emancipação definitiva conquistada em 1875.

Na avaliação do historiador, essas mudanças produziram impactos administrativos, econômicos e políticos importantes. O município também enfrentou disputas decisivas relacionadas à infraestrutura. Embora tenha sido beneficiado posteriormente pela passagem de uma rodovia federal, acabou ficando fora do traçado da ferrovia, fator que influenciou diretamente seu desenvolvimento econômico ao longo do século XX.

Apesar dessas dificuldades, Corumbá chega aos seus 296 anos preservando um patrimônio histórico que hoje representa um dos principais ativos para seu futuro, reunindo arquitetura, memória e identidade em um cenário cada vez mais valorizado pelo turismo cultural.

Tradições que resistem ao tempo fazem da cultura um patrimônio vivo

Historiador Ramir Curado | Foto: Arquivo

Se o casario colonial e os monumentos históricos ajudam a contar a trajetória de Corumbá de Goiás, é nas manifestações culturais e religiosas que a cidade mantém viva uma herança iniciada ainda no século XVIII. Diferentemente de outros destinos históricos, onde muitas festas passaram a ser realizadas prioritariamente para atender ao turismo, em Corumbá elas permanecem como expressões da própria comunidade.

Para o historiador Ramir Curado, esse é um dos maiores diferenciais do município. Segundo ele, as celebrações religiosas e populares não existem para atrair visitantes, mas porque fazem parte da identidade da população. “O visitante é muito bem-vindo, mas participa de manifestações que são espontâneas e preservadas pela própria comunidade”, observa.

Ao longo do ano, praticamente não há período sem alguma manifestação tradicional. Entre as mais conhecidas estão a Semana Santa, marcada por procissões centenárias, cânticos litúrgicos e celebrações religiosas; a Festa do Divino Espírito Santo, que reúne foliões, festeiros, imperador e as tradicionais Cavalhadas; além das festas dedicadas à padroeira, Nossa Senhora da Penha de França, e aos santos São Sebastião, São Benedito e Santo Elesbão.

Na avaliação do historiador, patrimônio histórico, manifestações culturais e belezas naturais formam os três pilares que sustentam o turismo corumbaense. O desafio, segundo ele, não está na ausência de atrativos, mas na ampliação da divulgação e da infraestrutura para receber visitantes.

“Corumbá tem todas as condições de ocupar um lugar de maior destaque entre os destinos históricos de Goiás”, afirma.

Uma herança preservada por gerações

Grande parte desse trabalho de preservação é conduzida pela Associação de Cultura e Defesa do Patrimônio Histórico de Corumbá de Goiás e pela Academia de Letras do município. Há quase três décadas, as instituições desenvolvem ações voltadas ao resgate da memória local, à valorização dos bens históricos e à difusão da produção cultural corumbaense.

Presidente das duas entidades, Ana Ruth Fleury Curado afirma que muitas das tradições existentes hoje remontam ao período da colonização bandeirante e foram transmitidas de geração em geração.

Entre elas estão as folias em homenagem ao Divino Espírito Santo e a Nossa Senhora da Penha de França, realizadas tanto na zona urbana quanto na zona rural, além das Cavalhadas, das rezas de presépio e das celebrações da Semana Santa.

Segundo ela, a Semana Santa conserva elementos que atravessaram séculos praticamente sem alterações, reunindo as procissões, os motetos interpretados pelo Coral Vozes de Corumbá e a participação da tradicional Corporação Musical 13 de Maio, responsável pela execução das marchas fúnebres e dobrados que acompanham os cortejos religiosos.

Para fortalecer esse patrimônio imaterial, a Associação de Cultura concluiu um amplo levantamento do turismo cultural católico existente no município. O estudo, realizado por meio de uma emenda parlamentar da deputada estadual Vivian Naves, será entregue à comunidade e à Paróquia de Nossa Senhora da Penha de França nos próximos meses e reúne informações sobre as principais manifestações religiosas preservadas em Corumbá.

Museus, literatura e memória

Além da preservação das festas tradicionais, a Associação de Cultura atua na manutenção do Museu Sacro, do Museu Biográfico e em ações educativas voltadas à valorização da história local.

Já a Academia de Letras de Corumbá de Goiás presta homenagem aos principais nomes da produção intelectual do município, reunindo escritores, músicos, artistas plásticos e pesquisadores que ajudaram a construir a identidade cultural da cidade.

Entre os patronos lembrados pela instituição estão Bernardo Élis, único goiano eleito para a Academia Brasileira de Letras, José J. Veiga, um dos maiores escritores brasileiros do século XX, além de Benedito Odilon Rocha, Hélio Rocha e outros intelectuais ligados à história corumbaense.

Ramir Curado observa que a tradição literária é um dos maiores orgulhos do município. Bernardo Élis utilizou Corumbá como cenário de parte significativa de sua obra, enquanto José J. Veiga conquistou reconhecimento internacional, com livros traduzidos para diversos idiomas e adaptados para o cinema e a televisão.

O historiador também destaca outro patrimônio pouco conhecido fora do estado: a banda de música de Corumbá, em atividade contínua desde 1890, considerada a mais antiga de Goiás. Ao longo de mais de um século, o grupo participou das principais solenidades do município e representou o estado em diferentes apresentações pelo país.

Segundo ele, a produção cultural da cidade vai muito além da literatura. Corumbá mantém coral, orquestra, grupos artísticos e manifestações populares que continuam sendo transmitidas entre gerações.

O desafio é formar novas gerações

Para Ana Ruth Fleury Curado, preservar o patrimônio histórico depende, sobretudo, da educação. Ela avalia que o maior desafio não está na juventude, mas na necessidade de ampliar as ações voltadas às crianças e adolescentes para despertar o sentimento de pertencimento.

Na sua avaliação, conhecer a história da cidade é condição indispensável para que as novas gerações valorizem esse legado. “São 296 anos de história e esse legado pertence a todos nós. Temos que conhecer, ter orgulho e preservar”, afirma.

Ana Ruth Fleury Curado | Foto: Arquivo

Ela cita como símbolos dessa identidade a Ponte de Madeira, a Igreja Matriz e os casarões históricos, além das manifestações folclóricas e religiosas que atravessaram séculos praticamente intactas.

“O maior bem de uma cidade é a sua identidade”, resume.

Ana Ruth também defende que Corumbá precisa ampliar o reconhecimento de personagens que ajudaram a construir sua trajetória. Entre eles estão educadores como Miza Jacinto, professor Garibaldi e professor Jukinha, além de personalidades como o Tenente Hastimphilo e o compositor Francisco Bruno do Rosário, nomes que, segundo ela, contribuíram para transformar o município em um verdadeiro celeiro de cultura.

Na avaliação da presidente da Associação de Cultura, Corumbá ocupa um lugar singular na formação do estado por ter participado do ciclo do ouro e, posteriormente, consolidado sua economia por meio da agricultura, sem abandonar suas tradições. O maior desafio daqui para frente, afirma, é fazer com que esse patrimônio seja mais conhecido pelos próprios goianos.

“Corumbá de Goiás precisa ser reconhecida como cidade da cultura genuína preservada”, defende.

Turismo aposta na qualidade para impulsionar desenvolvimento sem descaracterizar a cidade

Se o passado consolidou Corumbá de Goiás como um dos berços históricos do estado, o futuro passa, inevitavelmente, pelo turismo. Nos últimos anos, o município vem buscando estruturar políticas públicas capazes de ampliar sua presença no mapa turístico goiano, mas sem repetir o modelo de crescimento acelerado observado em outros destinos.

À frente da Secretaria Municipal de Turismo desde 2021 — após também ter comandado a pasta entre 2016 e 2018 — Gheovanna Lowrranny afirma que o principal desafio da gestão tem sido organizar o setor antes de ampliar a promoção do destino.

Segundo ela, um dos primeiros projetos desenvolvidos foi a criação da Rota dos Primeiros Queijos e Vinhos, em parceria com os municípios de Pirenópolis e Cocalzinho de Goiás. A iniciativa reúne produtores locais que já conquistaram reconhecimento nacional com queijos e vinhos premiados e busca fortalecer o turismo gastronômico na região.

Outra frente de atuação foi a participação do município no Caminho de Cora Coralina, percurso turístico e cultural que tem início em Corumbá de Goiás e percorre cidades ligadas à trajetória da escritora.

Mais recentemente, a prefeitura iniciou, em parceria com o Sebrae, o processo de implantação do programa Destinos Turísticos Inteligentes (DTI). A proposta é atualizar o cadastro de empreendimentos, revisar o Plano Municipal de Turismo, adequar a legislação e organizar o setor para orientar os investimentos futuros.

“Não adianta querer fazer uma grande divulgação se ainda não temos todo esse ordenamento. Primeiro precisamos organizar a casa para depois buscar novos investimentos”, resume a secretária.

Gheovanna Lowrranny | Foto: Arquivo

Novos empreendimentos indicam mudança no perfil turístico

Além do turismo de natureza e do patrimônio histórico, Corumbá começa a atrair investidores interessados em empreendimentos imobiliários voltados para segunda residência.

Dois condomínios já estão em implantação no município: o Salto Imperial e o Fazenda da Mata. Segundo Gheovanna, ambos registram elevada procura, e o interesse do mercado começa a despertar novos investimentos.

Ela informa que, apenas no último mês, representantes de outros três grupos empresariais procuraram a prefeitura para conhecer a legislação municipal e discutir a possibilidade de implantação de novos empreendimentos, embora os projetos ainda não tenham sido protocolados oficialmente.

Na avaliação da secretária, esse movimento tende a modificar o perfil econômico da cidade ao longo dos próximos anos.

“O público de segunda moradia já está chegando. A previsão é que parte dessas residências esteja pronta até 2028. Nosso trabalho agora é preparar a cidade para receber essas pessoas e fazer com que a economia local aproveite esse novo momento”, explica.

Crescer sem perder a essência

Apesar do aumento do interesse de investidores, a gestão municipal afirma que não pretende transformar Corumbá em um destino de turismo de massa.

Localizada entre Goiânia, Brasília e Anápolis, a cidade ocupa posição estratégica em uma das regiões de maior concentração populacional do Centro-Oeste. Ainda assim, a prefeitura prefere apostar em um crescimento gradual.

Segundo Gheovanna, cerca de 70% dos visitantes que chegam atualmente ao município são provenientes do Distrito Federal, resultado da proximidade geográfica e da facilidade de acesso.

Ela reconhece que Corumbá ainda enfrenta limitações importantes, especialmente na oferta de hospedagem.

“O maior obstáculo hoje é a quantidade de leitos. Precisamos ampliar nossa rede hoteleira, mas também qualificar quem já trabalha com turismo para atender melhor esse novo público”, afirma.

Para a secretária, a expansão do turismo precisa ocorrer de forma planejada para evitar problemas enfrentados por outros destinos consolidados.

“Nós queremos crescer, mas sem perder a essência da cidade. Não buscamos quantidade de visitantes; buscamos qualidade. Queremos um turismo que gere renda para os moradores e preserve aquilo que faz Corumbá ser diferente.”

Ela ressalta que muitas tradições permanecem praticamente inalteradas desde o século XVIII. As Cavalhadas, por exemplo, realizadas desde 1752, continuam preservando seus principais elementos históricos. O mesmo ocorre com as folias religiosas e diversas manifestações populares transmitidas entre gerações.

“Queremos que o visitante conheça uma cidade que continua sendo boa para quem mora aqui”, resume.

Uma história que continua sendo escrita

Ao completar 296 anos de fundação — além de celebrar os 151 anos da emancipação política e os 124 anos da elevação à categoria de cidade — Corumbá de Goiás reafirma uma característica rara entre os municípios históricos brasileiros: conseguiu preservar boa parte de seu patrimônio arquitetônico, de suas manifestações culturais e de sua paisagem natural sem interromper seu processo de desenvolvimento.

Para Ramir Curado, esse conjunto representa a principal vocação do município. Poucas cidades brasileiras, observa o historiador, conseguem reunir em um mesmo território um centro histórico preservado, festas populares mantidas pela própria comunidade e atrativos naturais de grande relevância, como o Salto de Corumbá e a Serra do Cristo.

Ana Ruth Fleury Curado acredita que esse patrimônio só continuará existindo se as novas gerações conhecerem a própria história e desenvolverem um sentimento de pertencimento em relação à cidade.

Já Gheovanna Lowrranny enxerga no turismo uma oportunidade para ampliar a geração de emprego e renda, desde que o crescimento seja acompanhado por planejamento e respeito à identidade local.

Entre o casario colonial, as procissões centenárias, as folias, as Cavalhadas, a produção literária que revelou nomes como Bernardo Élis e José J. Veiga, as cachoeiras e as novas perspectivas econômicas, Corumbá de Goiás chega aos 296 anos demonstrando que preservar o passado não significa permanecer parada no tempo. Ao contrário: é justamente na força de sua história que o município busca construir o futuro.