A história das religiões em Goiás se mistura ao próprio processo de formação do Estado. Entre tradições católicas, manifestações populares e novas correntes espirituais que chegaram ao interior brasileiro, o espiritismo ocupa um espaço singular. Segundo pesquisadores e representantes do movimento, a doutrina se estabeleceu em território goiano ainda no século XIX e ajudou a moldar comunidades, instituições e ações sociais que permanecem até hoje.

Na busca por compreender essa trajetória, o Jornal Opção entrevistou o coordenador do Setor de Registros e curador do Espaço Memória Espírita de Goiás, Eurípedes Velloso, e a presidente da Federação Espírita do Estado de Goiás, Márcia Ramos.

Das primeiras influências à chegada em Goiás

De acordo com Márcia Ramos, a expansão do espiritismo no Brasil teve influência ainda no período imperial. “Inclusive, o Imperador era sócio benemérito da Sociedade do Espiritismo lá de Paris”, afirma.

Já sobre a chegada da doutrina em Goiás, Eurípedes Velloso destaca que uma mulher ocupa papel central nesse processo. “O principal nome é uma mulher, Ana Xavier de Barros Tocantins.”

O pesquisador explica que o espiritismo se espalhou inicialmente pelo Nordeste brasileiro, especialmente no Ceará, antes de alcançar o território goiano. “O espiritismo esparramou-se ali pelo Nordeste, especialmente no Ceará, e depois foi uma transferência, a vinda para o Estado de Goiás. Então, ali, mais ou menos em 1840, na povoação do Bacalhau, que há uns quatro quilômetros e meio da própria cidade de Goiás.”

Mulheres lideraram os primeiros passos

Na avaliação de Velloso, a presença feminina foi decisiva para a consolidação inicial do espiritismo em Goiás. Entre os nomes citados por ele estão Maria Xavier de Barros, Valentina Brandão e Ana Jacinta do Couto Brandão, apontadas como pioneiras na estruturação dos primeiros grupos.

Também houve protagonismo masculino nas décadas seguintes, com nomes como José Malaquias do Nascimento, Luiz Marcelino de Camargo, Manoel Lopes de Ramos, Carvalho de Ramos e Antônio Cupertino de Barros.

Expansão para o interior e presença de Cora Coralina

Com o passar dos anos, a doutrina deixou o entorno da antiga capital e avançou para outras regiões, como Anápolis e municípios do interior. Nesse período, surge também o nome de Maria de Alencastro, apontada como a primeira médium de Goiás.

A trajetória do espiritismo goiano também se cruza com a literatura. Segundo Velloso, a escritora Cora Coralina teve participação relevante no movimento. “Cora Coralina, que participava do Gabinete Literário, extremamente importante na cultura da época, inclusive, foi uma grande pioneira do movimento espírita na sequência daqueles primeiros desbravadores. Ela fez um trabalho extraordinário para o movimento espírita.”

Ele também destaca a atuação da autora na imprensa. “Cora Coralina foi articulista do jornal Tribuna Espírita e deixou contribuição maravilhosa.”

Os primeiros centros e cidades ligadas ao movimento

Um dos primeiros marcos institucionais ocorreu em São João das Palmas, apontado como local do primeiro centro espírita em solo que, à época, integrava Goiás e que depois passou à jurisdição do atual Tocantins.

Décadas depois, Palmelo e Caturaí ganham destaque na história do espiritismo goiano. Ambas as cidades tiveram forte influência do movimento religioso em sua formação social.

Sobre Caturaí, Velloso recorda a movimentação no local. “Todo mundo sabe, Palmelo é muito conhecido. Mas Caturaí também. Ali no Centro Espírita Antônio de Pádua eram aquelas caravanas enormes, porque ali se instalara, na fazenda, um grande médium. Depois chegou a montar um sanatório espírita que atendia as pessoas.”

Segundo ele, os relatos de curas e acolhimento atraíram moradores e visitantes, favorecendo o crescimento urbano dessas localidades.

Na Cidade de Goiás, o primeiro centro espírita oficialmente organizado foi o Grupo Espírita Amigo dos Sofredores, fundado em 24 de julho de 1927. “Ali eles começaram com estudos das obras básicas, com a prática mediúnica, e já comemoravam muita coisa”, relata.

O segundo centenário e a construção de Goiânia

Para os estudiosos do movimento, o período iniciado na década de 1930 representa uma nova fase: a da organização institucional do espiritismo em Goiás.

Um episódio simbólico ocorreu em 1938, durante a construção de Goiânia. Operários vindos de várias regiões do país trabalhavam nas obras da nova capital e mantinham reuniões espíritas às margens do Córrego Botafogo.

Segundo Velloso, o então interventor Pedro Ludovico Teixeira tinha como assessor Alcenor Cupertino de Barros, filho de um dos pioneiros do espiritismo local. Ao tomar conhecimento dos encontros, Alcenor auxiliou o grupo na obtenção de espaço para funcionamento.

Dessa iniciativa nasceu o Centro Espírita Estudantes do Evangelho, considerado base do futuro movimento federativo no Estado.

Fundação da federação espírita

A partir do fortalecimento dos centros em Goiânia e no interior, o movimento ganhou instrumentos de integração. Em 1947, foi lançado o primeiro jornal espírita goiano e realizada a primeira Semana Espírita Goiana.

O processo culminou em 1950, com a fundação da União Espírita Goiana, entidade que mais tarde se tornaria a Federação Espírita do Estado de Goiás.

Velloso resume a importância do período. “Foi o Centro Espírita Estudantes do Evangelho que se tornou a raiz da União Espírita Goiana”, afirma.

A criação da federação consolidou décadas de articulação e permitiu ampliar encontros, ações conjuntas e a integração entre grupos espíritas de diferentes municípios. Ainda naquele período, cidades como Catalão já sediavam eventos regionais voltados à unificação do movimento.

Caridade e atuação contemporânea

Para Márcia Ramos, a prática espírita permanece diretamente ligada à caridade e ao serviço comunitário.

Eurípedes Velloso cita como exemplo mobilizações realizadas no Dia de Finados. “Para se ter uma ideia, na época de Finados, nos cemitérios, isso em 1990 já, nos cemitérios de Anápolis foram distribuídas 30 mil mensagens e a Federação municiou mais 70 cidades para a distribuição dessas mensagens no Dia de Finados. A Federação convocou em Goiás 200 trabalhadores. Foi algo extraordinário.”

Desde 2009, com a criação do Projeto Memória, hoje Setor de Registros e Memória, a instituição também passou a investir na preservação documental de sua própria trajetória.

Em 2010, a entidade celebrou os 60 anos de fundação e o centenário de Chico Xavier com ações comemorativas. Em 2021, realizou seu primeiro congresso virtual, marcando os 70 anos da federação.

Exposição sobre Chico Xavier

Neste mês de abril, a federação abriu ao público a mostra Exposição Chico Xavier em Terras Goianas, dedicada à relação do médium com Goiás e à influência de sua obra no Estado.

O acervo reúne registros históricos, documentos e momentos marcantes da presença de Chico Xavier em solo goiano, reforçando o papel da memória na preservação de uma tradição religiosa que atravessa gerações.

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