Cirurgião diz que procedimentos invasivos não podem ser considerados meros tratamentos estéticos

Segundo o Cremego, a aplicação de hidrogel nos glúteos é considerado um método invasivo. A Lei do Ato Médico especifica que somente um profissional da medicina pode executar tal ato

Não é a primeira vez que vemos um caso de alguém que perde a vida tentando melhorar seu corpo, se sentir melhor. Tanto em hospitais, em cirurgias realizadas por médicos, quanto em clínicas de estáticas, várias mulheres já faleceram ou ficaram deformadas após algum procedimento mal sucedido.

Maria José Medrado de Souza Brandão é a mais recente vítima. Falecida na madrugada do dia 25, a mulher, de 39 anos, supostamente devido a uma embolia pulmonar ocasionada por complicações após a aplicação de hidrogel nos glúteos. O laudo que irá atestar se for essa a causa da morte deve sair na próxima segunda-feira (3/11). A mulher que fez a aplicação havia dito que era biomédica, o que foi desmentido nesta semana. De acordo com a delegada Myriam Vidal, que cuida do inquérito, ficou comprovado que a suspeita não tinha licença para a prática e realizava os procedimentos em total desacordo com as normas da vigilância sanitária.

Segundo o Conselho Regional de Medicina em Goiás (Cremego), a aplicação de hidrogel nos glúteos, como foi feito em Maria José, é considerado um método invasivo. Desta forma, no artigo 4º, inciso II, da Lei do Ato Médico, entre as atividades privativas do médico está a “indicação e execução da intervenção cirúrgica e prescrição dos cuidados médicos pré e pós-operatórios”.

O Cremego publicou ainda no último dia 29 uma resolução proibindo médicos de atuar em clinicas de estética, salões, institutos de beleza e outros estabelecimentos que não cumpram as normas mínimas para o funcionamento de consultórios médicos e dos complexos cirúrgicos para práticas com internação de curta permanência. “O objetivo é proteger a sociedade e a classe médica, evitando o exercício da medicina em condições inadequadas e associado a métodos sem reconhecimento científico”, disse o presidente da entidade, Erso Guimarães.

Em entrevista ao Jornal Opção Online, o cirurgião plástico Fábio Fernandes, que atua na capital goiana, esclarece alguns pontos referentes ao hidrogel e sua aplicação nos glúteos:

Como é o procedimento para aumento de glúteos?

O aumento de glúteo pode ser realizado de várias formas, incluindo próteses de silicone, enxerto de gordura da própria paciente (proveniente de lipoaspiração) ou de materiais sintéticos, dentre os quais o Aqualift está incluído. A maioria dos cirurgiões plásticos acaba optando pelo enxerto de gordura ou prótese, já que, muitas vezes, o aumento de glúteos acaba sendo associado a lipoescultura para melhores resultados em termos de contorno corporal.

O senhor já utilizou o hidrogel Aqualift para algum procedimento?

Nunca utilizei nenhum tipo de preenchimento que não fosse enxerto de gordura ou ácido hialurônico. Mas para glúteos, apenas utilizo a prótese ou enxerto de gordura.

Já ouviu falar do uso desse produto para aumentar glúteos?

Já ouvi falar na utilização do Aqualift para os glúteos, mas não por cirurgiões plásticos.

Quais são os riscos de aplicar hidrogel nos glúteos ou em outra parte do corpo?

A empresa que fornece o Aqualift garante que o produto é biocompatível, ou seja, que é bem aceito pelo organismo e não produz reações de hipersensibilidade. Entretanto, a aplicação de forma incorreta, em planos anatômicos inadequados, pode levar a determinadas complicações, dependendo do local.

Os riscos incluem aplicação muito superficial, o que pode deixar irregularidades, aplicação intravascular, podendo levar a embolia, assimetrias de contorno, reações alérgicas (embora sejam raras), entre outros.

Qual a diferença do hidrogel para o silicone?

O hidrogel de Aqualift é um polímero de poliamida, sendo degradável e, portanto, absorvido com o tempo pelo organismo. O silicone é um outro tipo de polímero sintético, cuja molécula básica inclui silício e oxigênio. Quanto maior o número de moléculas no polímero de silicone, maior a consistência, podendo passar de líquido a sólido.

Como ocorre a embolia pulmonar? Quais são os riscos de embolia pulmonar nesse procedimento de aplicação de hidrogel e de silicone?

Êmbolo se trata de algo trafegando na corrente sanguínea. Pode ser constituído de gordura, coágulo de sangue, ar ou materiais estranhos ao organismo. A injeção intravascular de qualquer material sintético pode levar à embolia e, consequentemente, a efeitos graves, como insuficiência cardíaca direita, necrose de pele, etc. Hoje em dia não se utiliza mais aplicação de silicone líquido, em função das possíveis complicações. O silicone é utilizado ou na sua forma sólida através de próteses que possuem um envoltório sólido e um conteúdo sólido ou de gel bem coesivo, justamente para evitar migração e reações de hipersensibilidade em caso de ruptura do implante.

Quando o senhor aplica gordura ou coloca silicone nos glúteos de um paciente, quais os cuidados que toma antes?

Antes de qualquer procedimento cirúrgico, seja ele de enxerto de gordura ou prótese de glúteos, é necessário realizar exames pré-operatórios específicos e avaliação de risco cirúrgico. Após a cirurgia, nos primeiros dias, é normal sentir algum desconforto em grau variável na área tratada. Entretanto, dor exagerada, com irradiação para os membros inferiores, assimetrias, sinais de infecção, falta de ar, dor  e endurecimento nas panturrilhas podem sugerir o início de complicações.

O senhor acredita que outros profissionais, além de médicos, são indicados para procedimentos como esse de aumento de glúteo?

Quanto aos profissionais habilitados, creio que o responsável pelo procedimento, independente de qual seja, deve estar capacitado para tratar eventuais complicações, bem como dar o suporte necessário para qualquer intercorrência e assumir a responsabilidade. O profissional médico é habilitado para tal.

Existem outros práticas realizadas por clínicas de estética que o senhor acredita que somente um médico deveria fazer?

Acredito que seja necessária uma discussão ampla entre os conselhos das entidades representativas dos profissionais de saúde para determinar o que deve ser realizado exclusivamente por médicos. A falta de legislação específica, principalmente após os vetos de alguns pontos na lei do ato médico pela presidente Dilma no ano passado, não contribuiu para que se chegasse a um consenso [Bruno se refere aos vetos do artigos da lei do Ato Médico feitos pela presidente Dilma Rousseff que dividiram as categorias de profissionais de saúde. Um dos principais artigos vetados foi a determinação de que só médicos pudessem diagnosticar doenças e fazer prescrição do tratamento]. Os profissionais de saúde não médicos exercem papel fundamental na assistência ao paciente e devem, por isso, ser muito respeitados. Entretanto, práticas invasivas e que possuem potencial para complicações mais sérias não devem ser encarados como simples tratamentos estéticos e, portanto, exigem um profissional capacitado para sua realização e acompanhamento.

Veja o decreto do Congresso Nacional, sem os vetos da presidente.

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Silvia Ruiz

É muito importante saber escolher uma boa clínica e um bom médico antes
de realizar qualquer procedimento cirúrgico invasivo. Realizei o meu implante de silicone nos seios
na Master Health e aprovei o resultado. Ficou ótimo!