O presidente da Comissão Especial de Inquérito (CEI) dos Fios Soltos, vereador Coronel Urzêda (PL), pode pedir a inclusão do indiciamento do presidente da Equatorial Goiás, Lener Silva Jayme, no relatório final, diante dos elementos reunidos durante a investigação. Além disso, foi enviada uma minuta ao prefeito de Goiânia, Sandro Mabel (União Brasil), para a elaboração do Código Municipal de Gestão da Infraestrutura Aérea Urbana de Goiânia, em homenagem à adolescente Náthaly Rodrigues do Nascimento, que morreu após sofrer uma descarga elétrica em setembro do ano passado.

O relatório final será apresentado nesta terça-feira, 30, às 14h, na Câmara Municipal de Goiânia. A CEI apurou as responsabilidades relacionadas à situação da fiação aérea na capital e às circunstâncias que envolveram a morte da adolescente. Coronel Urzêda afirma que a investigação não deve terminar apenas com a identificação dos responsáveis.

O Jornal Opção pediu um posicionamento da Equatorial sobre o assunto e aguarda um retorno.

Sobre a criação do Código, o vereador destaca que a proposta deverá estabelecer regras mais claras para a instalação, manutenção, identificação, regularização e retirada de cabos e fiações dos postes da cidade, além de fortalecer os mecanismos de fiscalização e responsabilização das empresas que utilizam a infraestrutura aérea.

“A Náthaly não pode ser lembrada apenas como uma vítima. O nosso objetivo é transformar essa tragédia em um marco para que Goiânia tenha regras mais rígidas e uma infraestrutura aérea mais segura. O nome dela ficará associado a uma legislação que busca impedir que outras famílias passem pela mesma dor”, afirmou.

Após a aprovação do relatório final, os encaminhamentos deverão ser enviados aos órgãos competentes para a adoção das providências cabíveis.

A primeira reunião da CEI foi realizada em 25 de novembro do ano passado. Desde então, diversas pessoas foram ouvidas durante os trabalhos. O presidente da Equatorial Goiás chegou a obter um habeas corpus que o desobrigou de comparecer à comissão para prestar esclarecimentos.

A CEI é formada pelos vereadores Sargento Novandir (Democrata), Tião Peixoto (PSDB), Markim Goya (PRD), Coronel Urzêda (PL), Geverson Abel (Republicanos), Daniela da Gilka (PRTB), Léo José (Solidariedade) e Lucas Vergílio (MDB).

Náthaly Rodrigues do Nascimento
Náthaly morreu após receber um descarga elétrica na Rua 20, no Centro de Goiânia | Foto: divulgação redes sociais

O caso

A adolescente Náthaly Rodrigues, de 17 anos, morreu em 23 de setembro de 2025 após receber uma descarga elétrica provocada por um fio da rede de energia que se rompeu durante o temporal que atingiu Goiânia naquele dia. Em decorrência do caso, três funcionários da Equatorial foram indiciados pela Polícia Civil por homicídio culposo pela morte da adolescente.

Eles também foram indiciados por lesão corporal culposa pelos ferimentos causados ao operador de máquinas Wil Robson dos Reis, que também sofreu uma descarga elétrica, mas sobreviveu. Ele teve queimaduras de segundo grau.

Na ocasião, o delegado Fernando Martins explicou ao Jornal Opção que os funcionários indiciados são um supervisor, um gerente e um operador do Centro de Operações da concessionária. Segundo ele, a perícia constatou que, devido à força da chuva, cabos de energia entraram em contato, provocaram um curto-circuito e se romperam.

O Centro de Operações identificou uma anomalia na região por meio de um dispositivo chamado religador automático, responsável pelo desligamento e religamento automático da energia em situações como essa.

Entretanto, segundo o delegado, o equipamento foi desabilitado manualmente devido às constantes oscilações provocadas pela forte chuva e pela ventania. O dispositivo funciona como um mecanismo de segurança.

“Nesse caso, o sistema passou a receber comandos manuais do Centro de Operações da Equatorial, ou seja, da distribuidora de energia. Nesse Centro, havia um operador, um supervisor e um gerente. O rompimento ocorreu por volta das 16h45. A descarga elétrica que o jovem recebeu foi às 17h15. O operador, que estava fazendo os comandos manuais, não sabia a dimensão do que tinha ocorrido em campo, que os cabos estavam soltos e em contato com a água. Ele retomou a energia naquele ponto específico, sem ver o que estava acontecendo, porque o religador automático não detectou os cabos rompidos”, explicou.

O delegado relatou ainda que o sistema indicou baixa amperagem porque, dos três cabos existentes no local, apenas dois haviam se rompido. O terceiro continuava recebendo energia.

“Quando o operador restabeleceu o fornecimento, houve uma energia de retorno do cabo intacto para os dois rompidos. Eles receberam baixa intensidade, mas o suficiente para gerar o acidente. O religador automático não foi sensibilizado por essa situação, chamada tecnicamente de falta por alta impedância — uma baixa intensidade que os cabos recebiam e que o sistema não identificou como falha”, pontuou.

Omissão

Segundo o delegado, houve omissão dos profissionais porque a situação poderia ter sido evitada caso uma equipe tivesse sido encaminhada ao endereço para verificar as condições do local antes do restabelecimento da energia.

“Eles tiveram cerca de 30 minutos entre o rompimento (16h46) e a descarga elétrica (17h15) para deslocar uma equipe e verificar o que estava acontecendo. Em vez disso, religaram a energia manualmente, com os cabos rompidos submersos em água. Do ponto de vista penal, houve omissão, imprudência e negligência da equipe do Centro de Operações pelos três funcionários, todos com relação direta com o evento”, pontuou o delegado.

Fernando Martins afirmou ainda que dois dos profissionais indiciados tinham mais de 20 anos de experiência, o que, segundo ele, demonstra que já haviam se deparado com situações semelhantes e tinham conhecimento dos riscos envolvidos.

A perícia apontou também que Náthaly Rodrigues recebeu uma descarga elétrica de aproximadamente 1.156 volts. O inquérito policial foi posteriormente encaminhado ao Poder Judiciário.

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