Casos de hepatites virais ultrapassam 826 mil no Brasil; Goiás reduz registros, mas especialistas alertam para subdiagnóstico
04 julho 2026 às 15h27

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Mais de 826 mil casos de hepatites virais foram confirmados no Brasil entre 2000 e 2024, segundo o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2025, divulgado pelo Ministério da Saúde. No período, foram registrados 826.292 diagnósticos e quase 50 mil mortes diretamente relacionadas às doenças, que continuam entre os principais desafios da saúde pública por evoluírem, na maioria das vezes, de forma silenciosa.
A hepatite C respondeu por 41,5% dos casos confirmados, seguida pela hepatite B (36,6%), hepatite A (21,2%), hepatite D (0,6%) e hepatite E (0,1%). Entre os óbitos, a hepatite C também lidera com ampla vantagem, sendo responsável por 75,3% das mortes, enquanto a hepatite B responde por 22%.
Os dados reforçam o compromisso assumido pelo Brasil junto à Organização Mundial da Saúde (OMS) de eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública até 2030. A meta prevê reduzir em 90% a incidência das hepatites B e C e diminuir em 65% a mortalidade causada por essas doenças.
Goiás reduz casos, mas diagnóstico ainda preocupa
Em Goiás, os números apontam uma redução nas notificações em 2026. Dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) mostram que, entre janeiro e maio deste ano, foram registrados 249 casos e 10 mortes, contra 414 casos e 16 óbitosno mesmo período de 2025, queda de aproximadamente 40% no número de casos.
Ao longo de todo o ano passado, o estado contabilizou 981 casos confirmados e 42 mortes por hepatites virais.
Apesar da redução, o infectologista Marcelo Daher afirma ao Jornal Opção que o principal desafio continua sendo identificar quem está infectado antes do surgimento das complicações.
“O principal desafio é o diagnóstico. A hepatite é uma doença silenciosa. Muitas pessoas estão infectadas e não sabem porque, principalmente nas hepatites B e C, os sintomas podem demorar muitos anos para aparecer.”
Segundo o especialista, a diminuição das notificações não significa, necessariamente, que menos pessoas estejam infectadas.
“O que nós precisamos fazer é testar mais. Não basta esperar que o paciente apresente sintomas, porque quando eles aparecem muitas vezes a doença já provocou danos importantes no fígado.”
Para ele, a meta estabelecida pela OMS só será alcançada com três estratégias principais: vacinação, ampliação da testagem e tratamento dos pacientes diagnosticados.
“Existe uma meta a ser cumprida pelo Brasil, que é a eliminação das hepatites virais em 2030. Isso deverá acontecer principalmente por meio do diagnóstico precoce, do tratamento da maioria dos pacientes e da vacinação.”
Cada hepatite tem comportamento diferente
A infectologista Renata Bernardes explica que as hepatites apresentam características distintas, o que exige estratégias específicas de prevenção.
“A hepatite A costuma ser uma doença autolimitada e geralmente benigna. Ela é mais sintomática, então normalmente é aquela hepatite da qual a pessoa lembra porque ficou amarela. Ela era muito comum na infância, mas vem reduzindo nos últimos anos por causa da vacinação”, disse ao Jornal Opção.
Apesar da redução acumulada de 47% entre 2014 e 2024, a hepatite A voltou a crescer no último ano analisado. A taxa nacional passou de 1,1 para 1,7 caso por 100 mil habitantes, aumento de 54,5%.
Segundo a médica, esse crescimento está relacionado principalmente à transmissão entre adultos.
“Houve aumento do número de casos entre adultos jovens, especialmente homens que fazem sexo com homens, porque a hepatite A também pode ser transmitida durante relações sexuais com contato fecal-oral”, acrescenta.
Ela lembra que a vacina contra a hepatite A está disponível gratuitamente no SUS para crianças e usuários da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) ao HIV.
Hepatites B e C evoluem sem sintomas
Embora a hepatite B tenha apresentado redução de 34,6% na última década, ela continua preocupando pelo risco de cronificação.
“A maioria dos pacientes cura espontaneamente, mas cerca de 20% podem cronificar. Nesses casos existe risco de evolução para cirrose ou câncer de fígado”, explica Renata Bernardes.
A situação é ainda mais delicada na hepatite C, responsável por mais de 342 mil casos registrados desde 2000 e por três em cada quatro mortes relacionadas às hepatites virais.
“É uma doença geralmente silenciosa. Quando surgem sintomas, muitas vezes o paciente já apresenta sinais de cirrose ou câncer de fígado, que são as principais causas de morte relacionadas às hepatites”, pontua.
Segundo a especialista, sintomas como fraqueza intensa, barriga inchada e sangramentos costumam aparecer apenas quando a doença já está em estágio avançado.
Especialistas defendem ampliação da testagem
Os dois infectologistas são unânimes ao afirmar que o diagnóstico precoce é a principal ferramenta para reduzir as complicações.
“Toda consulta é uma oportunidade para oferecer a sorologia. É por meio do exame que conseguimos fazer o diagnóstico antes do aparecimento das complicações”, afirma Renata Bernardes.
Marcelo Daher defende que os testes façam parte da rotina da população.
“Nós precisamos testar principalmente as pessoas acima de 50 anos, mas também aproveitar todas as oportunidades para oferecer esses exames.”
Segundo ele, a recomendação atual das sociedades médicas é que toda pessoa realize pelo menos uma vez na vida exames para HIV, hepatites B e C e sífilis.
“Se conseguirmos ampliar a testagem, vamos diagnosticar precocemente esses pacientes e iniciar o tratamento mais rapidamente.”
Goiânia reforça campanha Julho Amarelo
Durante o Julho Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre as hepatites virais, a Prefeitura de Goiânia ampliou as ações de prevenção e diagnóstico.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), a capital registrou 130 casos de hepatites virais em 2026 e 545 notificações ao longo de 2025.
Além da oferta permanente de testes rápidos para hepatites B e C em todas as unidades básicas de saúde, o município realizará ações itinerantes de testagem para hepatites, HIV e sífilis durante o mês de julho.
“As hepatites virais podem evoluir de forma silenciosa por muitos anos. Quando descobertas precocemente, é possível iniciar o tratamento no momento adequado, reduzindo riscos de complicações como cirrose e câncer de fígado. Por isso, é fundamental que a população aproveite a oferta gratuita de testes e procure uma unidade de saúde sempre que houver indicação”, afirma o secretário municipal de Saúde, Luiz Pellizzer.
As próximas ações ocorrerão no Órion Business & Health Complex (8 de julho), Avenida Ricardo Paranhos (11 de julho) e Araguaia Shopping (14 de julho), quando também serão distribuídos preservativos e realizadas orientações sobre prevenção.
Vacinação continua sendo a principal proteção
Além da testagem, os especialistas destacam a importância da vacinação para reduzir a circulação dos vírus.
Segundo Marcelo Daher, a imunização contra a hepatite B praticamente eliminou a transmissão da doença entre crianças.
“Hoje vemos poucos casos de hepatite B em crianças e adolescentes justamente porque a vacinação ao nascimento foi muito eficaz.”
Ele afirma que a vacina contra a hepatite A também modificou o perfil epidemiológico da doença.
“A vacinação diminuiu muito os casos em crianças. Hoje observamos uma mudança no perfil epidemiológico, com maior ocorrência entre adultos, especialmente homens que fazem sexo com homens.”
Tratamento da hepatite C tem cura em cerca de 97% dos casos
Os avanços no tratamento também mudaram o cenário das hepatites virais.
Segundo Renata Bernardes, a hepatite C, que durante décadas foi considerada uma doença de difícil tratamento, hoje apresenta índice de cura próximo de 97%.
“Há cerca de dez anos, os tratamentos eram agressivos e tinham menos de 50% de chance de cura. Hoje o tratamento é feito com comprimidos por três a seis meses, é oferecido gratuitamente pelo SUS e apresenta taxa de cura de aproximadamente 97%.”
Para os especialistas, ampliar a vacinação, incentivar a realização de testes e garantir acesso rápido ao tratamento são medidas fundamentais para que Goiás e o Brasil consigam cumprir a meta da OMS de eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública até o fim da década.
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