Atuação de Palocci em favor da Odebrecht foi “intensa e reiterada”, diz MPF

Para força-tarefa, mensagens criptografadas entre o ex-ministro e executivos da Odebrecht são indícios de negociações ilícitas. Defesa nega acusações

Foto: Wilson Dias/ABr

Foto: Wilson Dias/ABr

Investigações da força-tarefa da Lava Jato levam a crer que o ex-ministro de Dilma e Lula, Antonio Palocci teve atuação “intensa e reiterada” em defesa de interesses da empreiteira Odebrecht na administração pública federal, mesmo enquanto esteve fora do governo. É o que afirmou a procuradora da República, Laura Gonçalves Tessler em entrevista coletiva na manhã desta segunda-feira (26/9), que detalhou as ações da 35ª fase da Operação Lava Jato deflagrada no início da manhã.

Segundo a procuradora, a empreiteira repassou R$ 128 milhões de reais a uma conta que seria gerida pelo ex-ministro. Palocci foi preso preventivamente na manhã esta segunda-feira (26/9) quando a Polícia Federal deflagrou a nova fase, chamada Operação Omertá.

De acordo com Laura Gonçalves, haveria um conta destinada ao recebimento de vantagens indevidas da Odebrecht e Palocci seria o gestor dessa conta. “Se verificou uma atuação intensa e reiterada de Palocci na defesa de interesses da empresa perante a administração pública federal envolvendo contratos com a Petrobras, questões veiculadas e medidas legislativas.

Entre os projetos de interesse da Odebrecht que, segundo as investigações, teriam tido a interferência de Palocci está a Medida Provisória (MP) 460/2009 que resultaria em benefícios fiscais a empresas que exportadoras para Angola, país com no qual a Odebrecht mantém operações.

As informações sobre os pagamentos foram encontradas em uma planilha chamada “Posição Programa Especial Italiano”. O delegado da PF, Filipe Pace, disse que não há “sombra de dúvida” de que o “Italiano” que aparece nas planilhas de Marcelo Odebrecht é o ex-ministro Palocci.

Essa atuação se deu mediante a pactuação e recebimento de contrapartidas em favor do Partido dos Trabalhadores. Palocci, ao que tudo indica, atuava como gestor dessa conta tendo atuado desde 2006 até pelo menos novembro de 2013, comprovadamente, com pagamentos documentados nessa planilha”, disse a procuradora.

A procuradora Laura Gonçalves destacou que repasses registrados para o Italiano não ocorreram apenas em período eleitoral. “O que revela mais claramente se tratarem de propina, já que não havia em curso qualquer campanha eleitoral que subsidiasse esses pagamentos”, disse.

Para o Ministério Público Federal, há indicativos de que Palocci tenha atuado em outros casos em defesa dos interesses da empresa. Segundo a procuradora Laura Gonçalves, foram registrados quase 30 encontros pessoais entre Palocci e executivos da empresa, muitos deles na casa do ex-ministro e no escritório de sua empresa.

Laura Gonçalves afirma ainda que, mesmo no curso da Operação Lava Jato e em 2014 e 2015 foram verificados contatos entre Palocci e executivos da Odebrecht, inclusive com o uso de e-mails criptografados. “O que indica a possibilidade de que continuassem essas tratativas ilícitas já que obviamente para realização de reuniões para assuntos triviais não se precisa ter essa preocupação de criptografia”, disse a procuradora.

Defesa

O advogado de Palocci, José Roberto Batochio, criticou a prisão de seu cliente, dizendo que tudo ocorreu de maneira secreta, ao estilo ditadura militar. “Estamos voltando aos tempos do autoritarismo, da arbitrariedade. Não há necessidade de prender uma pessoa que tem domicílio certo, que foi duas vezes ministro, que pode dar todas as informações quando for intimado. É por causa do espetáculo?”, questionou.

Ele ainda negou as acusações contra Palocci. “Isso é uma coisa absolutamente vaga, vazia. Para quem quer pretexto, isso é pretexto, mas o fato é que o ministro da Fazenda tem que ter uma interlocução com o setor empresarial, com a cadeia produtiva do Brasil, para que se estabeleçam as políticas públicas. Se um ministro conversa com alguém da iniciativa privada, já é suspeito de praticar crime?”, perguntou Batochio.

Antonio Palocci foi ministro da Fazenda no governo Lula (PT), entre janeiro de 2003 e março de 2006 e ministro-chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff (PT) entre janeiro e junho de 2011.

Curitiba

O ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e seus ex-assessores, Branislav Kontic e Juscelino Dourado, presos temporariamente na 35ª fase na Operação Lava Jato, foram levados, às 12h20 desta segunda-feira (26), para o aeroporto de Congonhas, onde embarcam em um avião da Polícia Federal para Curitiba.

Os três foram inicialmente, levados para a Superintendência da Polícia Federal, na capital paulista, região da Lapa. Eles devem cumprir cinco dias de prisão. O último a chegar ao prédio da PF, pouco depois das 11h, foi Juscelino, preso em Campinas, interior de São Paulo.

Além das prisões, a polícia cumpriu mandados de condução coercitiva para sete pessoas, cujos nomes ainda não foram divulgados. Duas delas foram ouvidas na superintendência e duas não tiveram a presença confirmada. Outras três pessoas não terão a condução cumprida, uma em razão de viagem, outra por doença e outra por motivo desconhecido.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.