Atuação de doulas cresce com parto humanizado e preocupa classe médica

Enquanto médicos reclamam da interferência das profissionais durante o parto, elas fazem críticas ao trabalho do obstetra e denunciam casos de violência 

A crescente procura pelo parto humanizado trouxe à tona a figura de uma nova profissional considerada por muitas mães como fundamental: as doulas.

Ao longo dos últimos anos, o alto índice de cesáreas realizadas no país começou a ser questionado, fazendo com que o parto natural ganhasse força. Nesse sentido, as doulas têm papel fundamental. São elas que auxiliam no processo de empoderamento da gestante para que a mesma seja a protagonista no nascimento de seu filho, em um momento de intensa dor e vulnerabilidade.

Educadora física e mãe de duas meninas, Lariza Zanini é uma grande defensora da atuação destas profissionais. Os nascimentos de Maria Flor de 3 anos, por meio de cesariana, e da pequena Ana Rosa, de apenas 5 meses, fruto de parto natural, foram marcados por esta experiência.

“A minha doula me ajudou bastante, sobretudo com formas de alívio da dor durante as contrações. Ela tinha mãos de anjo e realizou massagens com óleos essenciais no meu quadril. Fora isso, foi muito importante para mim ter uma figura feminina e de acolhimento naquele momento”, relembra.

Mesmo com toda a boa fama e resultados positivos, a presença dessas profissionais durante o trabalho de parto é alvo constante de polêmica e de críticas, sobretudo por parte da classe médica. A principal reclamação da categoria é de que as doulas acabam “interferindo” nos procedimentos adotados durante o parto — o que prejudicaria a atuação do obstreta.

Vice-presidente do Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego), o Dr. Aldair Novato, que também é ginecologista-obstetra, afirma não ser contra a presença da doula durante o parto, desde que ela se mantenha apenas no seu papel de acompanhante.

“Nós reconhecemos o trabalho das doulas que é de acompanhar, acalmar, dar apoio à gestante. Isso é extremamente importante. O que acontece, algumas vezes, e nós já recebemos reclamações nesse sentido, são de doulas que querem interferir na conduta do médico, e isso é inaceitável”, esclarece.

A posição de mera acompanhante, no entanto, não é vista com bons olhos pelas doulas. Danielle Mesquita é educadora perinatal, terapeuta holística e atua como doula durante e após o parto. Para ela, o papel da profissional vai muito além de acompanhar.

“A doula é uma profissional que oferece apoio emocional, físico e afetivo. Elas desempenham papel diferente de todos os outros profissionais que atuam no parto, auxiliando inclusive o marido a lidar com as próprias emoções e as emoções da mulher no trabalho de parto”, explica.

Nesta queda de braço, a educadora física Lariza reforça a defesa às profissionais. Para ela, muitos médicos preferem resistir à “novidade” e ignoram a importância para a gestante de uma abordagem mais humanizada. “Acho que o problema maior está no fato da maioria dos médicos não conhecer realmente o trabalho das doulas, que, de fato, não é um trabalho médico, mas que é essencial para acolher, encorajar e proteger essa mulher que está parindo”, pontua.

Cesáreas e violência obstétrica

Enquanto os médicos reclamam da interferência das doulas durante o parto, as profissionais fazem críticas ao trabalho do obstetra e destacam o papel delas no momento de escolha por parte da gestante entre o parto natural e uma cesariana. Elas lembram que, muitas vezes, a mulher acaba sendo submetida a um procedimento cirúrgico sem qualquer necessidade.

Para Danielle Mesquita, poucas cirurgias são, de fato, escolhas conscientes das mulheres. “Elas são levadas a uma cesariana por medo de um parto normal violento ou por falta de informação. Assim, caem em cesarianas desnecessárias realizadas por conveniência médica”, critica.

O vice-presidente do Cremego concorda que o número de cesáreas é muito alto no Brasil. Mas enfatiza que a culpa não é apenas do médico. “A cesárea já virou uma coisa cultural. Muitas mulheres chegam no consultório já pedindo a cirurgia. Se essa é uma vontade da gestante, se é ela quem prefere assim, tudo bem”, pontua.

Outro tema sensível quando o assunto é gravidez e que causa bastante polêmica entre médicos e doulas é a violência obstétrica. Danielle Mesquita conta que já presenciou alguns casos graves neste sentido e define a prática como “uma das mais covardes formas de violência”, já que acontece “no momento mais vulnerável da vida de uma mulher”.

“É necessário dar suporte à mãe, É preciso oferecer apoio emocional e muito acolhimento para essa família. A manobra de kristeler [ato de pressionar a parte superior do útero para facilitar e acelerar a saída do bebê], além de privar a gestante do acompanhamento de alguém da sua confiança no pré-parto, parto e pós-parto imediato são algumas das principais formas de violência obstétrica”, denuncia.

O ginecologista vice-presidente do Cremego discorda. O médico não acredita em casos de violência obstétrica e diz que o médico “sai de casa para trabalhar e salvar vidas, e não o contrário”. “Isso é coisa que estão enfiando na cabeça das pacientes para gerar nelas um medo, com outras intenções. Não existe isso de violência obstétrica.”

Uma resposta para “Atuação de doulas cresce com parto humanizado e preocupa classe médica”

  1. Avatar Márcia disse:

    Existe violência obstétrica sim. Esse médico q disse o contrário tá sendo corporativista.

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