Andrea Vecci: “Iquego voltará a estar entre os três melhores laboratórios do Brasil”

Presidente contou, em entrevista ao Jornal Opção, qual é o panorama da empresa para os próximos anos. Criação de um instituto de Pesquisa é uma das prioridades

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção Online

“Seremos um instituto de pesquisa e poderemos prestar serviço para o maior polo farmacêutico do País, que é o de Anápolis” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção Online

Há quatro anos, no início do terceiro mandato do governador Marconi Perillo (PSDB), a Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego) passava por um frágil momento financeiro, com uma dívida estimada em R$ 58 milhões. Hoje, esse valor foi reduzido em mais de 50% e a empresa espera, muito em breve, voltar a figurar entre os três melhores laboratórios do Brasil. Em entrevista ao Jornal Opção Online, a presidente da Iquego, Andrea Vecci, afirmou que o restante do débito já está completamente “atualizado” e contou quais são as perspectivas da empresa para os próximos anos.

Além de investir pesado na produção de medicamentos negligenciados e de alto custo, o laboratório público também anseia em construir um instituto de Pesquisa próprio. “Não vamos deixar de produzir medicamentos, mas seremos um instituto de pesquisa e poderemos prestar serviço para o maior polo farmacêutico do País, que é o de Anápolis”, explicou a dirigente.

No início dessa semana, a Iquego fechou uma parceria inédita no País para fabricação de aparelhos que fazem o monitoramento da glicemia em pacientes diabéticos. Em três anos, o laboratório goiano será o primeiro do Brasil apto a produzir os glicosímetros, o que, de acordo com a dirigente, pode ocasionar em um retorno financeiro de R$ 500 milhões.

“Como já demos o primeiro passo, acredito que a gente mantenha essa liderança. Nesse processo, sendo bem conservador, a nossa expectativa é de R$ 300 milhões a R$ 500 milhões nos cinco anos de faturamento”, detalhou.

Na entrevista exclusiva ao Jornal Opção Online, Andrea Vecci também fala sobre a breve participação da Cruz Vermelha nos quadros administrativos da Iquego em 2012, do reflexo do corte de gastos empreendido pela gestão estadual na empresa, dentre outros assuntos.

Nessa semana, a Iquego, juntamente com o governo estadual, oficializou uma parceria pública privada, a chamada PPP, com uma corporação chinesa visando a produção de glicosímetros. Como que se deu essa parceria? Qual é a relevância desse acordo para a Iquego?
É o caminho do futuro para a administração de laboratórios públicos. Os laboratórios públicos têm que cuidar das doenças negligenciadas e aquelas de alto custo, e isso inclui a diabetes. É claro que a gente trabalha em um caminho de desenvolvimento de novos produtos, a Iquego estava nesse desenvolvimento até eu vir para cá e nós criamos uma Superintendência de Desenvolvimento com recursos advindos do Ministério da Saúde. Ao todo, vieram R$ 2,5 milhões em equipamentos e, para um laboratório de desenvolvimento, é um valor bom. O laboratório tem que desenvolver os próprios produtos, mas isso é lento. Demora uns três e quatro anos entre o desenvolvimento e o registro. Então, para aumentar nosso portfólio, a gente precisa fazer parcerias com quem já produz medicamentos de alta tecnologia.

O Ministério da Saúde criou toda uma normativa de como fazer essa parceria entre o público e o privado. Como que o privado pode acessar o mercado público, através de nós, sem que isso seja uma “barriga de aluguel”, sem que seja contra os princípios da administração pública. Então, isso só acontece porque eles vão transferir a tecnologia do produto para nós. Dessa maneira, a gente busca o parceiro privado e oferece o modelo PPP. É claro que isso deve ser feito por meio de edital público, há uma seleção e nós desenvolvemos isso nos últimos dez meses aqui na Iquego, culminando agora na assinatura do contrato.

Nós vamos importar as tiras e os glicosímetros, que são aparelhos móveis que avaliam a glicose do individuo e, após dois anos, nós vamos começar a produzir. Esse que é o grande “pulo do gato” da Iquego. Ela vai poder produzir e vai receber essa tecnologia para ela. Já temos a área reservada e a companhia já apresentou um projeto de engenharia. Isso significa que a Iquego está com o pé no futuro; não só na questão da diabetes, mas em relação às parcerias com o setor privado.

E há previsões para novas parcerias?
Sim, em 30 de março, a gente deve lançar mais dois editais e, até 30 de abril, um terceiro para produção de novos produtos. Vamos buscar produtos para aumentar nosso portfólio da saúde básica, que é o que as prefeituras compram. Vamos também aumentar nosso portfólio de produtos de alto custo, que são aqueles para câncer e doenças psíquicas, por exemplo, que são muito caros. Em terceiro, vamos entrar no ramo dos saneantes, que é para atender os hospitais públicos. Esses três editais nós estamos construindo e, até final de abril, devem estar finalizados.

Ainda sobre o contrato firmado com a companhia chinesa, como vai funcionar essa parceria?
Então, nos primeiros dois anos nós vamos importar o medicamento de Taiwan e comercializar aqui. No terceiro ano, a gente já começa produzir. Ao final de cinco anos, temos que estar com esta tecnologia internalizada e toda apropriada.

A Iquego passaria, então, a ser a primeira empresa do Brasil a produzir os glicosímetros, é isso?
Nós vamos ser a primeira empresa do Brasil a produzir, até porque nós estamos na frente e o processo farmacêutico não é algo instantâneo. Existe uma regulamentação extremamente rígida. Então, como já demos o primeiro passo, acredito que a gente mantenha essa liderança. Nesse processo, sendo bem conservador, a nossa expectativa é de R$ 300 milhões a R$ 500 milhões nos cinco anos de faturamento.

Em 2012, a Cruz Vermelha chegou a assumir a gestão da Iquego. O que aconteceu depois disso? A Cruz Vermelha ainda tem algum poder de influência dentro do laboratório?
Bom, eu estou na Iquego há um ano, desde fevereiro do ano passo. A Cruz Vermelha, na verdade, não entrou na Iquego. Ela fez um contrato com o governo, que, da parte dela, teria obrigação de investir R$ 90 milhões e ela não investiu. A Cruz Vermelha tinha um prazo de 30 dias para investir metade e mais 30 dias para investir a outra metade. Dado os 90 dias, ela não internalizou esses recursos e o governo achou por bem rescindir o contrato.

Então, o que aconteceu foi: a Cruz Vermelha tinha indicado um executivo para participar da presidência, o Peter Laubenheimer e o governador gostou muito da atuação dele e, por isso, ele permaneceu, mas por indicação do governador Marconi. E ele foi um bom presidente e ficou aqui dois anos. Juntamente com o governador, ele abriu muitos caminhos de parcerias.

Então, hoje a Cruz Vermelha não tem ligação nenhuma com a Iquego?
Não, nenhuma. Inclusive, o termo que foi assinado, à época, foi um termo informal. O termo contratual mesmo nem chegou a ser assinado, pois era preciso uma contrapartida financeira da Cruz Vermelha. Posteriormente, vivenciamos, ainda, escândalos da Cruz Vermelha no Brasil, que trouxeram prejuízos ao nome dela. Então, o que aconteceu entre a Iquego e a Cruz Vermelha, foi esse breve namoro, que não chegou a se tornar um casamento.

Há três anos, em 2012, a Iquego passava por uma crise financeira, com uma dívida de aproximadamente R$ 58 milhões. Como está a saúde financeira da empresa atualmente?
Nossa dívida caiu de R$ 58 milhões para R$ 25 milhões. Só que estes R$ 25 milhões estão completamente atualizados. Parte dele é dívida tributária, que parcelamos e já estamos pagando, e o restante são dívidas com fornecedores, que já temos também tudo parcelado. Nós reduzimos a dívida da Iquego nesse último ano em 15% e nos últimos quatro anos, ao longo da gestão do governador Marconi, em quase 50%. E com isso nós conseguimos retomar parcerias com importantes fornecedores.

O governador Marconi Perillo iniciou seu quarto mandato empreendendo cortes em todo o setor público. Como isso está sendo tratado aqui na Iquego?
O governo quer reduzir o pessoal da Iquego. Hoje, temos 270 funcionários e não precisamos destes 270 pelo volume de negócios que nós temos. Até porque, mesmo com a previsão de aumentar esse número de negócios, hoje, a gente trabalha com mais eficiência. Então, acaba que a gente tem que investir é em material e em maquinário. Infelizmente, essa é a lógica de uma indústria. É um assunto desconfortável, porque você falar, que mesmo aumentando o número de negócios você tem que diminuir o número de funcionários, é a lógica inversa do que socialmente você deseja, mas é a lógica empresarial. E a gente compete; tanto compete com os privados — eles são nossos parceiros, mas são concorrentes também — quanto com as empresas públicas. Então, precisamos estar enxutos. O governador determinou que a gente fizesse um enxugamento, a exemplo do que está sendo feito no Estado. A gente deve reduzir, até julho, 30% do pessoal. Além disso, também vamos cortar custos, nossas despesas administrativas.

E, hoje, qual é o compromisso do governador Marconi Perillo com a Iquego?
O compromisso do governador com a Iquego é grande, inquestionável e ele foi o responsável por manter a empresa. Em 2011, 2012 e 2013, a Iquego não tinha a mínima condição de pagar a folha dela e o governo pagou por meio de inversões de capitais como acionista majoritário. O governador acredita que o laboratório público é essencial para o sistema público de Saúde.  Nós não temos um laboratório público por Estado, nós somos 21 no País. Desse número, grande parte são de laboratórios federais, como o da Marinha e do Exército. Então, o governador acredita e remete até essa crença dele à gestão do Mauro Borges. E, quando ele me convidou para vir para a Iquego, ele disse: “não quero que um plano tão ousado e empreendedor como o do Mauro Borges tenha que ser fechado. Eu vejo que os outros laboratórios públicos estão bem, e quero saber porque a Iquego não está e vamos tentar resolver”. E sim, os outros laboratórios públicos estão bem e estão na frente da Iquego, mas estamos trabalhando para voltar.

A Iquego já foi o terceiro maior laboratório público do País. Em questão de estrutura, nós somos muitos melhores que a grande maioria. Nós possuímos um parque fabril lindo, eficiente; não é o mais moderno, se você for comparar com laboratórios privados, mas nós não ficamos para trás. E o governador tem essa visão de que o laboratório público tem que existir para cuidar das doenças negligenciadas, desenvolver pesquisas e ser um regulador de mercado, e isso está definido na Constituição Federal. Não é uma questão se é um governo liberal, governo sócio-democrata ou um governo mais enxuto, é uma questão de seguir o que a Constituição define e o governador tem muita ciência disso. Ele é um governador cidadão. Então, ele nunca quis que a Iquego sofresse com decisões ideológicas, do tipo “vamos fechar ou não vamos fechar?” ou que “laboratório tem que produzir”, isso ele nunca questionou, o que ele questionou foi a eficiência da Iquego, que estamos conseguindo retomar agora com novos projetos e parceiros.

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Foto: Fernando Leite/Jornal Opção Online

Quais são as principais frentes de trabalho desenvolvidas atualmente pela Iquego e quais são os investimentos para essas demandas?
Primeiro e mais importante é transformar a Iquego, em um prazo de oito anos, no máximo, em um instituto de Pesquisa. Não vamos deixar de produzir medicamentos, mas seremos um instituto de pesquisa e poderemos prestar serviço para o maior polo farmacêutico do País, que é o de Anápolis. Não podemos virar as costas e temos que estabelecer uma relação mais próxima com eles. Esse é o fim principal da Iquego: ser um grande instituto de pesquisa em áreas de doenças negligenciadas e de alto custo. Paralelo a isso, ser um grande produtor de medicamentos, atender a assistência farmacial básica e entrar em mercados rentáveis, como é o caso da diabetes, pois ela tende a crescer, isso é triste, mas temos que aproveitar esse mercado. E nós estamos abrindo frentes para trabalhar esses objetivos. Criamos um grupo de Pesquisa e de Desenvolvimento aqui na Iquego, buscando parcerias. Pegamos nosso funcionário mais preparado, que é um mestre professor de diversas universidades, para puxar esse grupo. Já estamos conversando também com laboratórios privados para desenvolver alguns produtos com eles, e isso vai nos trazer expertise que o privado possui. Estamos conversando com a UEG e com a UFG para desenvolver com eles também alguns produtos, porque cada um desses entes possui uma perspectiva diferente. O privado quer medicamentos com rentabilidade e as universidades e nós queremos, além da rentabilidade, cuidar daquelas doenças que não são rentáveis. E ao final, queremos voltar a estar entre os três melhores laboratórios do Brasil.

Então, este é o futuro da Iquego?
Sim, este é o futuro da Iquego: ser um instituto de Pesquisa e um produtor de medicamentos. Isso já abrange o papel da Iquego, que é produzir medicamento de baixo custo, que iremos desenvolver aqui, e fazer parcerias com grandes laboratórios. Isso já vai colocar a rede do SUS em uma situação mais confortável para adquirir medicamento, porque, ao adquirir da Iquego, não há necessidade de licitação e isso facilita. Além disso, garantimos os melhores preços.

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