A briga entre os deputados Amauri Ribeiro e Major Araújo, ambos do PL, é entendida nos bastidores da política como muito mais do que uma troca de xingamentos no Plenário da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego). Por trás das ofensas, provocações e ameaças está uma disputa por base eleitoral do campo conservador e na segurança pública, em especial na Polícia Militar, além da legitimidade do discurso bolsonarista dentro da legenda.

O conflito ganhou novo capítulo nesta terça-feira, 13, com a presença do coronel Edson Raiado na Alego, usando um chapéu preto semelhante ao acessório usado por Amauri. O gesto foi interpretado como apoio político e acirrou a reação de Major Araújo, que disse ter se sentido intimidado pela presença do militar no plenário.

“Que bosta é essa que está fazendo aqui? Isso aí é o Raiado querendo me intimidar. É um idiota mesmo. Quem é essa pessoa que está aqui acompanhando? É o coronel do PCC”, afirmou Major Araújo, em referência ao coronel.

Amauri negou ter chamado Raiado para intimidar o colega e afirmou que o coronel estava na Assembleia como qualquer cidadão. Segundo o deputado, Major Araújo reagiu de forma desproporcional ao pedir para entrar armado no plenário depois da presença do militar.

“Ele chegou armado, mas teve que deixar a arma na secretaria, como todos que andam armados têm que fazer. Pronto, ele está desarmado. Qual ameaça? Ele é um cidadão comum que também foi atacado por esse soldadinho de chumbo”, disse Amauri.

Disputa de narrativas

Embora ambos estejam hoje no PL, os dois representam trajetórias e grupos distintos dentro da direita goiana. Major Araújo construiu sua carreira política vinculada ao eleitorado da segurança pública e da Polícia Militar, setor que historicamente funciona como uma das bases mais organizadas e ideológicas do conservadorismo em Goiás. O deputado também mantém um discurso fortemente associado ao bolsonarismo mais tradicional e ao eleitorado anti-establishment.

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Amauri Ribeiro, por outro lado, chegou recentemente ao PL após deixar o União Brasil durante a janela partidária. Apesar da filiação à legenda bolsonarista, Amauri preserva interlocução com nomes do grupo caiadista e mantém trânsito em espaços políticos fora do núcleo mais duro do partido, o que casa com a estratégia tentada por Gustavo Gayer em se aproximar da base governista.

O momento também é delicado para o partido porque o PL tenta organizar seu palanque estadual para 2026 em meio a ruídos internos. Wilder Morais trabalha para consolidar sua pré-candidatura ao governo com declarações tímidas de apoio ao seu projeto. O PL tinha um encontro previsto para acontecer no próximo dia 23 de maio. Entretanto, o senador publicou, em suas redes sociais, um vídeo ao lado do pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, adiando o encontro para o próximo mês.

Não por acaso, a discussão deixou rapidamente o debate institucional e assumiu elementos performáticos típicos da política bolsonarista contemporânea: provocações públicas, símbolos visuais, disputa por fidelidade ideológica e ataques sobre quem seria “mais de direita” ou “mais bolsonarista”.

Amauri afirmou que Wilder e Gayer entraram na discussão para tentar conter a crise. “O senador Wilder entrou agora nessa briga juntamente com o Gayer, porque o partido não pode sofrer uma guerra interna de forma nenhuma. E não existe essa guerra lá. A guerra que existe é aqui dentro, de dois deputados que nunca foram amigos”, disse.

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