Acidentes em ferrovias deixam 531 mortos em cinco anos e expõem risco para comunidades brasileiras
09 agosto 2026 às 09h27

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O avanço das ferrovias brasileiras não eliminou um problema que acompanha a expansão das linhas: a convivência entre trilhos, áreas urbanas e comunidades instaladas às margens das vias. Levantamento apresentado pelo Metrópoles, em reportagem especial sobre a segurança ferroviária no país, mostra que 1.559 acidentes com vítimas foram registrados, nos cinco anos analisados, nas ferrovias concedidas à iniciativa privada. Ao todo, 531 pessoas morreram.
Os números têm como base informações da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Entre os acidentes contabilizados, 1.163 foram atropelamentos e 387 envolveram abalroamentos, quando o trem colide com veículos ou outros objetos. As duas categorias representam 99% das ocorrências com vítimas.
A reportagem também ouviu vítimas, especialistas, autoridades e representantes envolvidos na discussão sobre segurança ferroviária.
Criança perdeu a perna após ser atingida por trem
Uma das histórias apresentadas pelo portal é a de Daiane Valério, que tinha 9 anos quando foi atropelada por um trem no bairro Boa União, em Três Rios (RJ), em abril de 2009.
Segundo o relato concedido ao veículo, Daiane caminhava sobre a linha férrea quando foi atingida por uma composição da MRS Logística, concessionária responsável pelo trecho entre Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Ela perdeu a perna esquerda.
De acordo com testemunhas ouvidas pelo Metrópoles, o maquinista não teria visto a menina e não acionou a buzina antes do atropelamento. O profissional só teria tomado conhecimento do acidente dias depois.
As consequências não ficaram restritas ao ferimento. Aos 15 anos, Daiane abandonou a escola por causa das dificuldades para se locomover. Para chegar ao colégio, dependia de familiares ou vizinhos que a carregassem para atravessar a linha férrea.
Minas, São Paulo, Paraná e Rio concentram mortes
De acordo com os dados da ANTT apresentados pelo Metrópoles, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro concentram 86% das mortes registradas nos acidentes ferroviários analisados. Juntos, os quatro estados somaram 457 vítimas fatais.
Entre as cidades com maior número de ocorrências aparecem Curitiba (PR), Juiz de Fora (MG) e Ponta Grossa (PR).
A situação brasileira também chama atenção quando comparada à de países europeus. A reportagem cita estudo publicado na revista Transporte, da Associação Nacional de Pesquisa e Ensino em Transportes (Anpet), segundo o qual o índice brasileiro de acidentes ferroviários é de 10 a 20 vezes superior ao de países europeus.
No Brasil, são registrados cerca de 16 acidentes por milhão de quilômetros percorridos por trens. Na Europa, o índice é de aproximadamente 1,4 ocorrência por milhão de trem.km.
Falta de investigação independente é apontada como problema
Em entrevista ao Metrópoles, Daniel Alfredo Alves Miguel, especialista em regulação da ANTT e autor do estudo citado na reportagem, chamou atenção para a ausência de um órgão independente responsável pela investigação dos acidentes ferroviários no Brasil.
Atualmente, segundo o levantamento, a apuração das causas é realizada pelas próprias empresas. Para o especialista, isso dificulta a formação de uma base de conhecimento capaz de identificar os riscos do sistema e orientar medidas preventivas.
Infraestrutura, manutenção e falhas humanas aparecem entre os fatores relacionados aos acidentes. Em muitos casos, entretanto, as ocorrências resultam da combinação de diferentes problemas.
“O trem levou minha vida”
Outra personagem ouvida foi Valéria Helena, de Juiz de Fora. Em 2010, ela perdeu as duas pernas depois de ser atingida por uma locomotiva da MRS. Segundo o relato feito à reportagem, Valéria voltava para casa caminhando pela linha férrea quando caiu em um bueiro. Depois de conseguir sair do local, acabou atingida por uma composição de 127 vagões.
Os anos seguintes foram marcados por isolamento e dificuldades de mobilidade. Em 2020, Valéria decidiu expor sua história nas redes sociais e criou uma campanha para conseguir próteses. Ela continua convivendo com dores e limitações para utilizar os equipamentos.
A família também processou a MRS Logística. A empresa não assumiu os custos do tratamento e alegou que a responsabilidade pelo acidente era exclusivamente da vítima. A Justiça de Minas Gerais acolheu a tese apresentada pela concessionária.
Passagens de nível estão entre os principais pontos de risco
Os acidentes se tornam mais frequentes nos trechos em que a ferrovia atravessa áreas urbanas. São locais em que moradores precisam cruzar os trilhos para acessar escolas, locais de trabalho, comércio ou outras regiões da cidade.
Esses cruzamentos são classificados tecnicamente como passagens de nível. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) estabelecem regras para esses pontos, mas a reportagem do Metrópoles aponta que nem sempre as exigências são cumpridas e que a fiscalização é insuficiente.
Auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) encontrou problemas em diferentes concessões ferroviárias, entre elas Rumo Malha Paulista, Estrada de Ferro Vitória a Minas, Estrada de Ferro Carajás, MRS e Rumo Malha Central.
Na Rumo Malha Paulista, 28% das passagens de nível foram classificadas como críticas e outras 11% receberam avaliação ruim. Na Estrada de Ferro Vitória a Minas, 77 dos 204 pontos analisados apresentavam deficiências funcionais ou estruturais. Na Estrada de Ferro Carajás, eram 34 de 76. Já na Rumo Malha Central, 15% das passagens foram consideradas críticas.
Mais de 1,5 mil passagens clandestinas
A ANTT registra 12.036 passagens de nível em todo o país. Desse total, 10.465 são oficiais e 1.571 clandestinas. Conforme o levantamento apresentado pelo Metrópoles, a maior parte das passagens irregulares está localizada em comunidades pobres.
O TCU também identificou o comportamento dos usuários como um dos elementos presentes nos acidentes. Em aproximadamente 66% dos casos analisados pela auditoria, foram observadas situações como desrespeito à sinalização, invasão da faixa de segurança, vandalismo e suicídio ou tentativa de suicídio.
O auditor Maurício Ferreira Wanderley, responsável pela área de infraestrutura portuária e ferroviária do TCU e ouvido pelo Metrópoles, afirmou que o problema envolve diferentes agentes e não pode ser atribuído exclusivamente aos usuários ou às concessionárias.
Curitiba tem trechos com alta concentração de acidentes
Curitiba aparece como um dos principais pontos críticos do país. Segundo levantamento do Metrópoles com base nos dados da ANTT, a capital paranaense registrou 108 acidentes com mortos ou feridos entre 2021 e 2025. Juiz de Fora contabilizou 74 no mesmo período.
O trecho com maior número de ocorrências fica entre os postos km 103,490 e km 108, na região do bairro Cajuru. Em apenas 2,7 quilômetros, foram registrados 40 acidentes com vítimas durante os cinco anos analisados.
Outro trecho, entre o Posto Iguaçu e o km 108, acumulou 31 acidentes em pouco mais de seis quilômetros. As duas áreas têm em comum a proximidade com bairros densamente povoados.
Família sobrevive a colisão com locomotiva
A reportagem do Metrópoles também ouviu Antônio Avila e Keiziane Avila, envolvidos em um acidente ocorrido em junho de 2018, no bairro Cajuru.
O casal estava em um carro com o filho de Keiziane, então com 11 anos, quando o veículo foi atingido por uma locomotiva da Rumo Malha Sul. Antônio relatou que parou antes de cruzar os trilhos, olhou para os dois lados e não percebeu a aproximação do trem.
Os três ocupantes ficaram feridos. Antônio precisou passar por cirurgia após fraturar o antebraço, enquanto Keiziane continuou sentindo dores. A Justiça do Paraná posteriormente condenou a concessionária a reparar os danos causados à família.
O acidente também afetou a rotina de Keiziane. Ela interrompeu a faculdade e passou a evitar o trecho onde a colisão aconteceu por causa do trauma.
Prefeitura quer retirar trens de carga da área urbana
Curitiba possui mais de 40 quilômetros de trilhos que atravessam bairros e 51 pontos onde ruas cruzam linhas ferroviárias. A circulação das composições interfere tanto na mobilidade quanto na segurança da população.
Em entrevista ao Metrópoles, o prefeito Eduardo Pimentel (PSD) defendeu a retirada dos trens de carga do perímetro urbano. A intenção da administração municipal é tentar incluir a alteração no próximo contrato de concessão, previsto para 2027.
Enquanto a proposta não avança, o município investe em tecnologia e ações preventivas. Uma das medidas são semáforos inteligentes que identificam a aproximação das locomotivas e interrompem o tráfego de veículos.
A prefeitura também afirma realizar campanhas educativas e ações de fiscalização nas comunidades próximas aos trilhos.
Trilhos e desigualdade social
Outro aspecto destacado pela reportagem do Metrópoles é a relação entre acidentes ferroviários e desigualdade social.
Em muitos locais, comunidades de baixa renda se instalaram próximas às linhas férreas. O baixo custo da moradia e a necessidade de acesso a diferentes regiões fazem com que essas populações convivam diariamente com os riscos da ferrovia.
O auditor Maurício Ferreira Wanderley afirmou que os acidentes estão concentrados justamente em regiões onde a população utiliza os trilhos ou suas proximidades em deslocamentos cotidianos.
O professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Bruno Barsanetti explicou à reportagem que parte dessas ocupações ocorreu durante períodos em que determinadas ferrovias estavam desativadas. Com a retomada das operações, moradores que já haviam ocupado os espaços passaram a conviver novamente com a circulação dos trens.
Para o especialista, as ferrovias funcionam como barreiras dentro das cidades e acabam impondo dificuldades adicionais a moradores que precisam atravessá-las para chegar a serviços essenciais.
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