O esquecimento de chaves ou a perda de objetos no dia a dia é uma ocorrência comum que não representa, isoladamente, um problema de saúde. O cenário passa a demandar atenção médica no momento em que as falhas de memória se tornam frequentes, repetitivas e começam a interferir na funcionalidade e na qualidade de vida do indivíduo.

A preocupação é voltada principalmente para a população com idade a partir de 60 a 65 anos, uma vez que em pessoas mais jovens os lapsos de memória costumam estar associados a fatores como estresse, ansiedade, alterações do sono ou distúrbios metabólicos e hormonais.

Ao Jornal Opção, o médico neurologista Iron Dangoni, do hospital Einstein em Goiânia, explicou, nesta quinta-feira, 17, a importância do rastreio e da observação constante da rotina dos idosos. “A partir do momento em que está se tornando repetitivo, está influenciando na rotina, o ideal é não esperar ser grave o suficiente a ponto de ser perigoso. Se interferiu na rotina, eu acho que já é o momento para procurar atendimento especializado”, disse.

Médico neurologista Iron Dangoni, do hospital Einstein em Goiânia | Foto: Acervo Pessoal

“Porque se nós deixarmos a ponto de interferir de forma importante, inclusive, por exemplo, esquecer a chave, esquecer a comida no fogo, se a gente vai deixando isso acontecer de forma repetitiva e de forma importante, começa a ficar arriscado para a segurança da pessoa. Uma pessoa que começou a se perder, começa a ficar arriscado ao sair de casa, ao andar de carro. Então, antes ter problemas ou ter situações graves, o ideal é procurar atendimento, uma para o diagnóstico precoce e outra para intervenção precoce, que vai ajudar inclusive no desfecho”, completou.

O diagnóstico precoce estabelece uma janela de oportunidade para a utilização de terapias antiamiloide ativas no Brasil, como o donanemabe e o lecanemabe. Tais medicações são aprovadas exclusivamente para a fase de comprometimento cognitivo leve, que antecede a demência e mantém a funcionalidade preservada, ou para a fase de demência leve, em que o prejuízo funcional ainda é inicial.

“E por que tem que ser nessa fase? Porque o intuito do remédio, inicial, não é melhorar a memória, ele não retrocede. O intuito do remédio é tentar estabilizar a doença ou tornar a evolução mais lenta. Se nós pegamos pacientes em fase moderada ou fase avançada, estabilizar a doença em fase avançada traz um benefício muito pequeno para o paciente. Por isso que nós temos essa janela estreita”, explicou.

Segundo o especialista, existe uma distinção fundamental entre o mecanismo dessas novas terapias e os tratamentos tradicionais. Os medicamentos sintomáticos convencionais, como os três inibidores de acetilcolinesterase disponíveis no mercado, atuam elevando os níveis de acetilcolina no cérebro com o objetivo de aliviar o sintoma do esquecimento, sem alterar a progressão do Alzheimer. Em contrapartida, as terapias antiamiloide atuam na própria patologia.

“Isso é interessante porque, até antes dessas medicações existirem, nós tínhamos medicações apenas para tratar a memória. Existem hoje disponíveis no mercado três medicações que são inibidores de acetilcolinesterase. O que esses remédios fazem é aumentar a acetilcolina, que seria como se fosse o hormônio da memória. Então esses remédios tratam o sintoma memória, o sintoma esquecimento, eles não tratam a doença de Alzheimer. Essas medicações novas não tratam a memória, elas tratam a doença de Alzheimer, com o intuito de retardar a evolução e estabilizar a doença”, disse.

Segundo o médico, para verificar se um paciente é elegível ao tratamento com os anticorpos monoclonais, é realizada uma investigação individualizada. O protocolo exige a comprovação do acúmulo da proteína beta-amiloide por meio do exame PET amiloide ou da análise de biomarcadores no líquor, além de uma ressonância magnética de crânio para descartar sinais de sangramento ou doença vascular. Adicionalmente, realiza-se o teste genético para a apolipoproteína E, conhecida como ApoE, pois a presença do genótipo ApoE E4/E4 indica alto risco de complicações e contraindica a medicação no país.

“Em relação aos testes genéticos, existe um teste chamado apolipoproteína E, ou ApoE. Esse exame nós solicitamos não pensando em diagnóstico de doença de Alzheimer propriamente dita, mas pensando no contexto do uso destes anticorpos monoclonais antiamiloide. Porque quando nós temos uma ApoE E4/E4, o risco de nós termos alguma complicação é alto e aí nós não temos indicação, no Brasil, de usar a medicação. Todo paciente que tem a possibilidade de fazer precisa passar por todo esse passo a passo. Eu sempre converso com os pacientes que é um checklist. Ele vai passar por várias etapas e só depois disso que, se estiver tudo certo, vai poder usar a medicação”, explicou.

A aplicação dos medicamentos é realizada em ambiente hospitalar por infusão intravenosa, com rotinas de acompanhamento distintas. O donanemabe é administrado uma vez por mês, com previsão de tratamento de até um ano e meio. O lecanemabe é aplicado a cada 15 dias, duas vezes por mês, com uso por tempo indeterminado. Ambos exigem uma ressonância magnética de base antes do início e três ressonâncias adicionais durante o processo para monitoramento, com intervalos específicos para cada droga.

Paralelamente às intervenções farmacológicas, o tratamento não medicamentoso possui papel central na prevenção e no manejo da doença. A conduta inclui a prática regular de exercícios físicos, alimentação saudável, estímulo cognitivo, convívio social e o controle de fatores de risco cardiovasculares, como hipertensão, diabetes, colesterol, tabagismo e consumo de álcool.

“Se nós formos pensar, não precisamos esperar que o paciente sofra dessa condição para fazer isso. Esse é um tratamento não medicamentoso, e hoje é o que temos de mais forte e recomendado para a população, independentemente de ter problema de memória e independentemente da idade, seja jovem, adulto ou idoso. Recomendamos para todos: exercício físico, alimentação saudável, controle de fatores de risco cardiovasculares, como controlar a pressão, diabetes, colesterol, não fumar e não beber, além de estímulos cognitivos e convívio social. O exercício físico é o que tem maior comprovação como prevenção para a doença de Alzheimer. Como prevenção é muito importante, e para pacientes que já têm a doença, mais ainda”, disse.

O impacto do diagnóstico se estende à estrutura familiar. A conduta em relação ao suporte psicológico e à transmissão das informações é moldada de forma individualizada, respeitando a autonomia e o direito de escolha do paciente e de seus parentes.

“Essa questão é muito individual, porque eu sempre tento tratar de uma forma muito leve, por ser um tema muito pesado. É muito difícil lidar com o diagnóstico, tanto para o paciente quanto para a família. Eu tento sentir de cada indivíduo e de cada familiar o quanto estão entendendo, absorvendo e lidando com a informação. Tem pacientes que vão precisar de um suporte a mais, outros não, e alguns querem saber só até certo ponto”, afirmou.

“Nós individualizamos muito em respeito à autonomia e ao direito de escolha da pessoa. A partir do momento em que entendemos o perfil, orientamos aquilo que melhor se encaixa. Não existe uma receita de bolo, cada família e cada pessoa tem sua realidade e seu contexto”, disse.

Ao sintetizar as características fundamentais da patologia, o neurologista Iron Dangoni definiu os aspectos clínicos centrais da enfermidade. “A doença de Alzheimer é uma doença degenerativa que acomete principalmente pessoas idosas. Ela causa, geralmente, alterações de memória, dificuldades de nomeação e desorientação espacial, com uma piora progressiva e que pode levar a quadros demenciais”, finalizou.

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