5 historiadores que ajudam a compreender o Brasil

Em um período de crises e incertezas, autores “clássicos” e contemporâneos podem oferecer caminhos para entender o país de hoje

Vinícius Mendes
Especial para o Jornal Opção

“Qual Brasil ficará quando essa crise acabar?”, questionou a escritora e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Nélida Piñon, em um evento realizado em março sobre resoluções de conflitos no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo.

Provavelmente, é o mesmo questionamento feito diariamente em salas de universidades, encontros em bares, reuniões empresariais, almoços familiares ou diálogos casuais do cotidiano, não apenas pelo período de incerteza que o Brasil vive como também pelo ineditismo da crise, que já dura cerca de três anos – desde a última eleição presidencial, em 2014.

Talvez a história possa ajudar a respondê-la. Não à toa, o interesse sobre o assunto fez com que diversas instituições de ensino ampliassem suas ofertas dentro do curso de história e oferecessem oficinas, debates e palestras sobre o assunto.

“Ler alguns autores que explicam as raízes brasileiras permite a compreensão até dos mecanismos que levam a períodos de crise como o atual”, afirma o pesquisador de curadoria do Instituto Tomie Ohtake, Theo Monteiro, com licenciatura em História pela USP.

Poucos escritores que se dedicaram a essa tarefa, no entanto, tiveram sucesso significativo, e os que conseguiram se tornaram referências básicas de compreensão do que foi o Brasil antes para ser o que é hoje. A seguir, listamos cinco historiadores que ajudam a compreender o país atual por meio do seu passado.

Sérgio Buarque de Holanda (1902 – 1982)

Apesar de ser conhecido por seu clássico Raízes do Brasil, seu primeiro livro publicado em 1936, o historiador, sociólogo e jornalista Sérgio Buarque de Holanda escreveu diversas outras obras fundamentais para compreender o país, como Cobra de Vidro, de 1944, Visão do Paraíso, de 1959 – que considerava seu melhor trabalho – e Do Império à República, de 1972. Nos anos 1940, ele também se dedicou a explorar a história de São Paulo, publicando Monções e Expansão Paulista em Fins do Século XVI e Princípio do Século XVII, obras importantes da historiografia do Estado.

Em Raízes do Brasil, Buarque busca explicações sobre as origens culturais e sociais dos brasileiros na história da colonização portuguesa. Para ele, ao contrário da conquista holandesa no Nordeste, que se baseava no investimento em meios tecnológicos para exploração da terra, Portugal não se preocupou em estabelecer um empreendimento no seu novo território, mas apenas mantê-lo de forma indisciplinada. Assim, estabeleceu um comportamento descompromissado que permaneceu durante o período colonial.

O conceito mais famoso do livro, porém, é o de homem cordial. Inspirado na obra do sociólogo alemão Max Weber, um dos escritores mais importantes da história da Sociologia, Sérgio Buarque demonstrou que, por uma série de aspectos históricos, os brasileiros não se ajustaram à impessoalidade do Estado moderno, baseado na burocracia e na racionalidade. Ao contrário, eles observam esses processos de forma pessoal, baseada mais na cordialidade. Assim, tudo é encarado com informalidade.

“A ideia do homem cordial é do homem que reage conforme seu coração, tanto para o bem como para o mal: é capaz de grandes efusões amorosas, mas também de inimizades violentas. O brasileiro ainda tem a inclinação de levar tudo para esse lado. É incapaz de obedecer uma hierarquia muito rígida, de disciplina rigorosa. Ele tende a travar contatos amistosos, encurtar distâncias”, analisou o cantor e compositor Chico Buarque, filho de Sérgio, no documentário Chico – Ou o país da delicadeza perdida, de 1990.

A ideia de cordialidade do brasileiro seria utilizada por muitos escritores contemporâneos para explicar questões como a corrupção na administração pública do país e o famoso “jeitinho brasileiro”, traço cultural estruturado na informalidade.

Boris Fausto (1930)

Ao contrário dos outros dois autores citados aqui, o paulistano Boris Fausto tem uma carreira acadêmica quase totalmente dedicada à História. Ainda que tenha se formado em Direito pela Universidade de São Paulo, em 1962, concluiu ainda nos anos 1960 a licenciatura em História pela mesma universidade, onde também se fez Mestre e Doutor estudando aspectos históricos do Brasil.

Membro da Academia Brasileira de Letras desde 2001, ele possui uma vasta obra historiográfica do país, em que se destacam História do Brasil, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Melhor Livro Didático, e Negócios e ócios: histórias da imigração, que também levou o Prêmio Jabuti de 1998 na categoria Melhor Livro de Ciências Humanas. Nele, Fausto conta a história da imigração da sua família – mãe turca e pai romeno – para São Paulo, situando em paralelo os ajustes que a sociedade brasileira precisou fazer para receber estrangeiros durante a primeira metade do século XX.

Ele também possui obras sobre os impactos da chegada de Getúlio Vargas ao poder, em 1930, para a sociedade brasileira como um todo, sobre a criminalidade em São Paulo entre o Império e a República Velha e sobre a democracia no país.

José Murilo de Carvalho (1939)

Apesar de sua formação em Sociologia e Ciência Política, o mineiro José Murilo de Carvalho adquiriu conotação no meio acadêmico por suas obras historiográficas a respeito do Brasil. Ainda que tenha começado a carreira escrevendo livros sobre períodos específicos do país, seus trabalhos mais importantes tratam das particularidades da formação da república e da democracia no país. Entre eles, se destacam Os bestializados, de 1987, um breve compilado chamado Cidadania no Brasil: O longo caminho, de 2001, muito utilizado em cursos universitários de Ciência Política e Sociologia, e Forças Armadas e Política no Brasil, de 2005.

Em Cidadania no Brasil, ele se amparou na obra do sociólogo britânico Thomas Marshall, que, observando a história da Inglaterra, desenvolveu uma linha de evolução da cidadania em três níveis de direitos oferecidos aos governados. Segundo Marshall, os primeiros direitos que a população inglesa recebeu foram os civis (ir e vir, se expressar), passando pelos políticos (votar) e chegando, enfim, aos sociais (educação, saúde).

Murilo, porém, percebeu que esse desenvolvimento não se deu da mesma forma no Brasil: também por uma série de aspectos políticos – como os fatos que envolveram o primeiro período Vargas (1930-1945) –, os brasileiros se apropriaram primeiro dos direitos sociais, exemplificado na criação da Consolidação das Leis de Trabalho (CLT). Somente depois desse momento é que os brasileiros tiveram acesso aos direitos civis e, por fim, aos políticos, com a Constituição de 1988.

Em uma recente entrevista ao site El Papiamento, Murilo demonstrou pessimismo com a democracia brasileira. Para ele, a última constituição não foi capaz de eliminar as pressões originárias de uma sociedade muito desigual com um maior acesso à representação política. “Hoje, a briga é entre cidadãos comuns, amigos, colegas e parentes, o que pode deixar algumas cicatrizes”, analisou.

Historiadores contemporâneos

Para além dos historiadores “clássicos” do Brasil, que são referências para todos os estudantes de História e interessados em conhecer as bases da sociedade brasileira atual, diversos outros autores contemporâneos publicaram contribuições importantes para esse conhecimento. Dentre eles, estão Luiz Felipe de Alencastro, professor do curso de História do Brasil da Universidade de Sorbonne, em Paris, na França, e Laura de Mello e Souza, professora de História Moderna da Universidade de São Paulo desde 1983.

Alencastro publicou em 2000 o seu principal livro historiográfico, chamado O Trato dos Viventes, em que demonstra a existência de uma rede de circulação de navios negreiros funcionando na parte sul do Oceano Atlântico, abastecendo “mercados” no Brasil, no Rio da Prata e até na China. “Percebi que 95% dos navios que trouxeram africanos para o Brasil entre 1550 e 1850 saíram de portos brasileiros para outros lugares. Estamos falando, então, de uma rede no Atlântico Sul que é o elemento essencial, transcontinental, de formação do Brasil”, afirmou em entrevista à revista Estudos Históricos, da Fundação Getúlio Vargas, em 2015.

Laura, por sua vez, ganhou conotação com a publicação de O sol e a sombra, de 2006, cujo reconhecimento veio no ano seguinte com o Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Ciências Humanas. Nele, a escritora reflete sobre o que permitiu o controle de Portugal sobre o Atlântico Sul durante o século XVIII, em um momento que marcou uma nova concepção de império para a metrópole europeia.

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