Moradores denunciam corte de mais de 200 árvores em bosque de Anicuns; relatório da Semma fala em 30
23 outubro 2026 às 19h10

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Moradores de Anicuns, no oeste de Goiás, denunciam o corte de mais de 200 árvores no Bosque Municipal Ary Ribeiro Valadão durante as obras de revitalização do espaço. O número contrasta com o Relatório de Impacto Ambiental (Rima) simplificado da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), que prevê a retirada de apenas 30 exemplares. A denúncia levou o Ministério Público de Goiás (MPGO) a converter o caso em inquérito civil para apurar possíveis irregularidades na intervenção ambiental.
A reportagem procurou a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), que informou ter realizado uma fiscalização, mas afirmou que o relatório ainda está em elaboração. O Batalhão Ambiental e o prefeito de Anicuns, Paulinho do Barreiro, também foram procurados, mas não responderam aos questionamentos até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para manifestações.
Moradores contestam derrubada de árvores
Vagner Feliciano Borges, que se apresenta ao Jornal Opção como ex-secretário de Meio Ambiente de Anicuns de 2009 a 2016, afirma que a intervenção foi inicialmente anunciada como uma reforma das calçadas e do alambrado ao redor do bosque, utilizados por moradores para caminhadas e atividades físicas. Segundo ele, a derrubada de árvores começou durante a execução dos serviços e chamou a atenção de quem acompanhava a obra.
“Eles anunciaram que iam fazer a reforma da calçada, onde o pessoal faz caminhada, e da cerca do alambrado em volta do bosque. Aí começou a obra. Tiraram com máquina a calçada e começaram a retirar o alambrado. Depois, começaram a derrubar árvores”, relatou Vagner.
De acordo com ele, os trabalhadores justificavam os cortes alegando que algumas árvores apresentavam risco de queda sobre casas próximas. O ex-secretário, porém, afirma que a intervenção foi além dos exemplares que supostamente ofereciam perigo. “Eles não estavam cortando só essas árvores. Estavam cortando árvores muito para dentro do bosque, árvores pequenas, todo tipo de árvore”, declarou.

Levantamento aponta mais de 200 exemplares
Borges afirma que os moradores passaram a registrar os cortes por meio de fotografias e vídeos e fizeram um levantamento dos troncos deixados no local. Segundo ele, o material documenta a localização das árvores derrubadas e indica um número muito superior ao previsto no relatório ambiental.
“Na época, a gente suspeitou que tinha mais de 100. Quando fomos contar, tiramos fotos, inclusive com a localização de cada árvore, e deu mais de 200 árvores”, afirmou. Ele também disse que entre os exemplares retirados havia árvores que classificou como centenárias, incluindo jatobás e jacarandás.
Moradores acionaram o Ministério Público
Segundo Vagner Borges, a mobilização aumentou quando os moradores perceberam a intensidade dos cortes. Ele afirma que um grupo foi até o bosque para pedir a paralisação dos trabalhos e levou o caso ao Ministério Público. “Teve um dia em que estavam derrubando demais, e o pessoal estava filmando. A gente juntou um número de pessoas, foi para lá e pediu para eles pararem”, relatou.
Borges afirma que, depois das denúncias, a derrubada foi interrompida, mas a madeira já havia sido retirada. Ele também questiona a documentação e a destinação do material lenhoso. “A gente chamou a Polícia Militar e pediu o documento de origem florestal, porque a madeira não pode ser transportada sem esse documento. Mas eles não quiseram abordar o caminhão”, declarou, ao relatar a situação segundo sua versão dos fatos.
O ex-secretário afirma ainda que parte da madeira teria sido levada para uma serraria e que, conforme as informações que diz ter recebido, uma parcela poderia ser utilizada em pontes e estruturas públicas. “O restante não se sabe para onde vai”, afirmou.

Inquérito civil apura possíveis irregularidades
A 2ª Promotoria de Justiça de Anicuns informou que a Notícia de Fato referente ao corte de árvores durante a reforma do Bosque Municipal Ary Ribeiro Valadão foi convertida em Inquérito Civil, registrado sob o nº 202600607896. Entre as providências estão a expedição de recomendação ao prefeito e aos secretários municipais de Obras e de Meio Ambiente, além da requisição de documentos sobre as árvores indicadas para corte, as já retiradas, a execução dos serviços, a destinação da madeira, a proteção jurídica da área e a compensação ambiental.
O Ministério Público também solicitou uma vistoria urgente ao Batalhão Ambiental da Polícia Militar, com prazo de 10 dias, para verificar os cortes, a destinação da madeira e possíveis danos à fauna. À Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), foi solicitada fiscalização ambiental e vistoria técnica prioritária, com prazo de 30 dias para encaminhamento de relatório e informações sobre as medidas adotadas. A Promotoria informou que a apuração permanece em andamento.

Relatório prevê plantio de 90 mudas
O Rima simplificado da Semma prevê a retirada de 30 árvores, principalmente nas bordas do bosque, próximas a ruas, calçadas e estruturas de cercamento. O documento aponta problemas estruturais nos exemplares selecionados, como troncos inclinados, bifurcados ou torcidos, galhos secos e copas com risco de queda. A revitalização inclui a substituição do alambrado danificado, a construção de novas calçadas e a implantação de uma pista de caminhada. Segundo o estudo, a maioria das árvores apresenta boas condições e deverá ser preservada.
Como compensação ambiental, o relatório prevê o plantio de 90 mudas de espécies nativas, três para cada árvore suprimida. As mudas deverão ter pelo menos 1,50 metro de altura e receber manutenção por 24 meses, com irrigação, controle de formigas e reposição dos exemplares que morrerem. O documento também prevê inspeção das árvores para identificar ninhos e animais, isolamento das áreas de trabalho e acompanhamento da execução pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Entre os impactos apontados estão a redução pontual da cobertura arbórea, possíveis danos ao solo e às raízes remanescentes, perturbações à fauna, ruídos e geração de resíduos vegetais.
Veja Relatório de Impacto Ambiental
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