“Tentativa de criar uma imagem negativa da universidade é desconhecer o seu papel”

Reitor aponta que ataque às universidades é um retrocesso que afeta drasticamente o desenvolvimento do País

Professor Eduardo Bovolato, Reitor da Universidade Federal do Tocantins| Foto: Divulgação

O reitor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), professor Eduardo Bovolato, avalia que a instabilidade política provocada por interrupções da gestão estadual vem comprometendo seriamente o desenvolvimento do Estado do Tocantins. Ele observa que a solução de continuidade das políticas públicas impacta diretamente no desenvolvimento econômico, reduzindo a atratividade dos negócios e a capacidade de investimento do Estado, o que, segundo ele, é ruim para todos.

Bovolato aponta que as universidades têm um papel fundamental no desenvolvimento do País. “A academia precisa direcionar os esforços de forma que estejam alinhados com as políticas de desenvolvimento do Estado”, recomenda, apontando que a criação do Conselho de Reitores das universidades do Tocantins busca organizar uma rede de compartilhamento de suas estruturas, nas áreas de ensino, pesquisa e extensão, para apoiar o Estado no incremento ao desenvolvimento.

Segundo ele, os ataques às universidades afetam “naturalmente o percurso do Estado do ponto de vista do desenvolvimento científico, tecnológico e perpetua aquela condição de sermos eternos importadores de soluções tecnológicas e não provedores e desenvolvedores dessa condição”, observa.

Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Opção, o reitor fala ainda da articulação do Parque Tecnológico, um ambiente de soluções que está sendo articulado pela Fundação de Amparo a Pesquisa (Fapto), a implantação da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT) e comenta sobre a lição da pandemia que mostrou para todo o mundo o quanto a ciência é importante.

De onde surgiu a ideia do conselho de reitores e a que se presta essa nova entidade?

Essa ideia do conselho dos reitores das universidades se iniciou há algum tempo. Uma discussão que já vem acontecendo com o professor Augusto [Rezende, reitor da Unitins] e o professor Gillianno [Mazetto, reitor da Unicatólica], a partir da necessidade de construirmos uma rede de compartilhamento não só de estrutura física, mas também de pessoal. Só que isso é complexo e a gente acabou amadurecendo a criação deste conselho, uma vez que a gente entende que as universidades públicas e privadas no Estado são elementos essenciais e devem assumir o protagonismo do ponto de vista de apoiar o Estado no seu desenvolvimento em todas as áreas.

A elaboração do plano estratégico de desenvolvimento do Tocantins, demandado pelo governo e conduzido pelo reitor da Unitins, Augusto Rezende, é resultado desse desejo de compartilhamento das universidades?

Não podemos desvincular nossa atuação da macropolítica, dos grandes vetores de desenvolvimento com o estímulo de financiamento e dentro da política do Estado a partir do mapeamento das principais cadeiras produtivas. Então, por isso, é preciso concentrar os esforços nessas áreas onde a gente possa ter o melhor resultado. A academia precisa direcionar os esforços de forma que esteja alinhada com as políticas de desenvolvimento do Estado, ao Plano Plurianual, ao Planejamento Estratégico, ao fortalecimento das principais cadeias e aí a universidade pode catalisar todo este movimento.

Do ponto de vista da formação, indiscutivelmente as universidades realizam uma tarefa grandiosa no Tocantins. As instituições púbicas somam mais de 40 mil alunos de graduação. Mas o que elas podem fazer para alavancar o desenvolvimento do Estado, que vem perdendo a capacidade de investimento?

Tudo se passa por uma necessidade de estabilidade política do Tocantins. Quem promove o desenvolvimento econômico é a iniciativa privada, mas o Estado é o grande provedor da infraestrutura e da condição básica para que as empresas se sintam estimuladas a investir. Investindo, ela vai procurar absorver mão de obra local. Não muito tempo atrás, quem morava aqui antes da criação do Estado, para se capacitar, fazer um curso superior tinha de ir para Belém, São Luís, Goiânia ou Brasília e essa realidade foi mudando no Tocantins com a implantação da Unitins, com uma estrutura multicâmpi e depois com a UFT, o Instituto Federal. Aí vieram as instituições privadas, de forma que hoje a rede de ensino superior do Tocantins está bem capilarizada, bem distribuída. Isso proporciona condições de acesso de muitos jovens ao ensino superior, tanto público quanto privado. Nesse processo, as instituições de ensino têm feito sua parte, que é a formação técnico-científica, apontar ao mercado profissionais nas diferentes áreas do conhecimento. Isso é fundamental para que a gente tenha mão de obra qualificada para que o Estado possa se desenvolver.

Como medir o impacto da instabilidade na economia?

Quando a gente encontra essa dificuldade de falta de estabilidade política, isso impacta obviamente o planejamento, a economia. O Estado acaba perdendo sua capacidade de investimento, de investir naquilo que lhe compete, como provedor da infraestrutura básica, para estimular o setor produtivo a se desenvolver. Mas eu penso que nós avançamos muito do ponto de vista da formação. O que é necessário, realmente, é o Tocantins despertar, mas aí é preciso criar uma base e uma ponte com a academia. Estou percebendo um esforço, temos muitas iniciativas isoladas e, em algum momento, daqui para frente, os esforços vão se concentrar. Por exemplo, temos o esforço do Estado com a criação do Parque Tecnológico, gerando uma maior aproximação entre Estado, academia e setor produtivo, fazendo uma união de esforços para que a gente possa então, dar esse “start” e promover a transformação do Tocantins do ponto de vista da industrialização.

Hoje o Tocantins é um produtor de commodities, o agronegócio vai bem, obrigado, só que o agronegócio tecnificado como está hoje emprega pouca mão de obra. O próximo passo do Estado é tentar, na medida do possível, fazer com que muito daquilo que é produzido permaneça aqui como forma de agregar valor à produção. Isso é a industrialização que pode começar pelo momento de indústrias pequenas e ir crescendo. Têm muitos grupos com interesse aqui. Aí o sistema educacional como um todo tem de estar preparado para suprir esse movimento. A educação é um instrumento de ascensão social, de transformação. O que está acontecendo hoje, especificamente em relação a educação, é que temos perdido muito espaço pra a iniciativa privada e, principalmente, saindo do ensino presencial para o ensino a distância. Isso por uma série de razões, hoje o ensino a distância consegue se adequar à realidade do nosso estudante. E um movimento que está acontecendo em todo o Brasil.

Como o sr. avalia a proposta do Parque Tecnológico? O Tocantins finalmente está aderindo à ideia de ser produtor de tecnologia e inovação e não apenas de commodities?

Acho que estamos no caminho, óbvio que já poderíamos ter caminhado mais. Se formos pegar um Estado vizinho, como Goiás, vemos que ele se transformou rapidamente, avançou muito mais rapidamente do que o Tocantins tem avançado. Penso que parte disso foi a dificuldade do poder público de perceber esse movimento e entender que o apoio e investimento na ciência, a inovação, aproximando estes entes com a iniciativa privada, poderia se reverter em resultados muito rápidos para o Estado. Você investe um real e tem no mínimo cinco ou dez de retorno. Isso de forma muito rápida. O Estado demorou a enxergar isso. Por outro lado, também a academia tem sua dificuldade – isso está se dissipando – de dialogar com o privado. É preciso parar de achar que o empresário só quer sugar o pesquisador. Na verdade, um precisa do outro para que a gente crie o ambiente ideal para o desenvolvimento.

“A gente espera que as universidades brasileiras tenham outro tratamento, porque nenhum reitor é contra a Nação brasileira.”

 Como as universidades estão lidando com os ataques ao ensino superior público e gratuito, que vêm justamente de quem deveria defendê-lo, as autoridades federais?

Essa tentativa de criar uma imagem negativas das universidades públicas brasileiras é uma falta total de conhecimento do que é a rede de universidades federais. É um desconhecimento do papel das universidades no mundo todo quanto a instituições de formação política, do desenvolvimento do senso crítico. Aqui na universidade não entra o embate político-ideológico. Isso afeta naturalmente o percurso do nosso Estado enquanto Nação, do ponto de vista do desenvolvimento científico, tecnológico e perpetua aquela condição de sermos eternos importadores de soluções tecnológicas e não provedores e desenvolvedores dessa condição. A universidade é como o Congresso Nacional, tem todo tipo de representação. Vejo essa questão com preocupação, porque os impactos de ações de um governo de quatro anos, se forem decisões acertadas, o país colhe bons resultados; se a política é mal conduzida, além de comprometer o desenvolvimento futuro, mata tudo aquilo que foi feito lá atrás. A gente espera que, para frente, as universidades brasileiras tenham outro tratamento, porque nenhum reitor é contra a Nação brasileira. O certo é que a universidade está aqui a serviço da Nação e ela precisa ser mais bem utilizada e valorizada.

Por outro lado, essas provocações podem servir para as universidades mostrarem o quão são importantes. Podemos dizer que nunca se dependeu tanto da ciência como na pandemia e que a ciência fez muito pela vida?

Estes dois últimos anos, neste aspecto de vitrine para as universidades, foi muito interessante. A universidade pôde se comunicar melhor com a sociedade e a sociedade pôde perceber o papel e a importância da ciência, da tecnologia, da pesquisa, que é no Brasil prioritariamente desenvolvida nas universidades federais. Sem dúvida, essa percepção nos últimos dois anos ficou mais consolidada. Os ataques às universidades públicas brasileiras serviram como espécie de estímulo às instituições, que passaram a se conhecer melhor. Penso que as universidades, todas elas, procuraram ter uma melhor gestão, procuraram profissionalizar a gestão, buscando, então, ferramentas de planejamento e trabalhando em cima de indicadores para melhorar sua performance, porque com recursos extremamente limitados você precisar melhorar a qualidade do seu gasto, do seu investimento. Neste aspecto, eu vejo que foi positivo. Uma boa provocação. Mas a gente precisa dizer para toda sociedade que, em qualquer lugar do mundo, as universidades são essenciais no desenvolvimento do País.

O que a pandemia deixa de aprendizado? Que lição poderíamos tirar da experiência?

A lição que fica é que conseguimos desenvolver vacinas – embora alguns questionem sua eficácia, sua eficiência –, mas isso não se desenvolveu no fundo de uma garagem. Foi com base em todo o conhecimento adquirido, na expertise, a grande rede de pesquisadores do mundo, todos se conectando. Então, a ciência revelou seu poder de reação e mostrou para a sociedade o quanto é importante não só na vacina, mas na tecnologia também. A gente sempre tomou vacina, desde criança e nunca se perguntou de onde ela vinha. A gente aprendeu que vacina é importante, que é preciso tomar. Infelizmente, houve uma contaminação política desse movimento, o que foi ruim, mas ficou claro para a sociedade, de maneira geral, que a ciência é importante e que, sem ela, não saberíamos como estaria a situação hoje. A pandemia ainda não acabou, mas a vacina se mostrou eficiente na curva de declínio da contaminação.

O Tocantins está ganhando mais uma universidade pública, a Universidade Federal do Norte do Tocantins, desmembrada da UFT. Como o sr. avalia essa conquista?    

Quando a gente começou esta discussão em Araguaína, por parte de um grupo de professores, muita gente não acreditava. Aí houve uma conjuntura favorável. Esse projeto chegou até a mão da senadora Kátia Abreu, naquele momento em que ela estava muito próxima da presidente Dilma Rousseff (PT), e coincidiu que já estava naquele momento do impeachment e ela assinou um decreto. O presidente Jair Bolsonaro (PL) também a criou neste mesmo ambiente político, a primeira do novo governo. Um dia me perguntaram o que eu achava da criação dessa universidade. Eu disse que é melhor termos a criação de novas universidades, novos câmpi, do que proliferar pelo Tocantins cadeias e presídios. É uma universidade que nasce para atender a uma determinada região com suas características e, no fundo, todas elas têm a mesma função, o mesmo objetivo. Então, vi com bons olhos, a partir dos câmpi de Araguaína e Tocantinópolis, o projeto Xambioá e Guaraí. Há um potencial de crescimento, de desenvolvimento. Araguaína é um câmpus mais consolidado; Tocantinópolis é o portal do Bico [do Papagaio], tem papel estratégico e quando se descentraliza a universidade através de estrutura multicâmpi há um custo mais elevado, é difícil gerir, mas ao mesmo tempo pelo perfil socioeconômico do nosso público você dá oportunidade de os jovens alcançarem o ensino superior sem deixar a região. E foi o que aconteceu muito no governo do ex-presidente Lula, na fase de expansão das universidades, além da criação de novas universidade também, então foi um processo de interiorização da rede federal de ensino.

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