Prefeito de Paraíso do Tocantins diz que seu partido perde credibilidade ao excluir membros das decisões

Boneco Avelino 2

Gilson Cavalcante

O prefeito de Paraíso do Tocantins, Moisés Avelino, um dos peemedebistas históricos no Estado, coloca a boca no trombone e faz críticas à direção de seu partido. “O PMDB do Tocantins está igual ao PMDB nacional. Está aí aos trancos e barrancos. Não tenho participado de reuniões, até mesmo porque nunca mais fui convidado para reuniões do partido”, lastima Avelino na entrevista exclusiva ao Jornal Opção. “Não estou reclamando disso, mas acho que eu devia, com a minha visão de vida política, dar palpites também”, afirma ele, que governou o Estado de 1991 a 1994. Ele questiona a forma como a direção estadual do PMDB está articulando com as lideranças do interior do Estado. “Os que eu sei, não têm gabarito para fazer isso, porque falta credibilidade para fazer as articulações e os que fazem, estão fazendo tudo errado. E eu recebendo telefonema de lideranças do interior de todo o Estado dizendo que estão fora do processo e perguntando o que fazer. E eu respondo: eu não sei de nada, estou tão desligado, tão por fora como arco de barril”, explica Avelino, ao admitir que a representatividade do PMDB está diminuindo a cada ano que passa, porque o povo vai desacreditando no partido.

É difícil ser prefeito, principalmente no Tocantins?
Eu acho que não somente a prefeitura de Paraíso, mas todas as prefeituras que não têm recursos próprios, arrecadação pequena, como é o caso de 90% das prefeituras do Tocantins e do interior do Brasil, passam por grandes dificuldades, porque o Poder Central (governo federal), nas últimas décadas, jogou muitos encargos em cima das prefeituras e tirou o dinheiro das administrações municipais. Quando eu fui prefeito de Paraíso, há mais de 30 anos, fazia tudo sem ir a Brasília pedir dinheiro para governo nenhum. Realizava obras com os recursos que a prefeitura dispunha e hoje não tem mais. Hoje, é impossível a prefeitura comprar um caminhão, um trator, porque não tem recurso. Naquela época, eu comprava tudo isso e ainda fazia obras. Então, hoje a gente vive com o pires na mão atrás de emenda parlamentar, pedindo ajuda em Brasília e ao governo do Estado. Então, as dificuldades são imensas e os problemas a cada dia se agigantam mais. E a gente fica muito preocupado com o futuro do Brasil, com essas prefeituras sem condições de tocarem o bonde sozinhas. Mas é um esquema que já foi criado, as leis estão aí para serem cumpridas e, agora, com essa crise que está vivendo o País, com a queda do FPM, a queda na arrecadação do Estado, as prefeituras serão obrigadas a fecharem as portas. Eu acredito que algumas delas não terão condições financeiras para quitar a folha de pagamento dos servidores, tendo em vista a falta de dinheiro. Só para se ter uma noção, só no mês de setembro, o FPM caiu em média 38%, fora as quedas anteriores.

A saída é fazer cortes e enxugar a máquina?
Estou reunindo o meu secretariado para ver o que se pode cortar; já fiz três reuniões nesse sentido. O grande problema é saber o que cortar. Na saúde, educação e assistência social não se pode cortar nada, porque depende do pessoal e da manutenção dos serviços. O que vou fazer é paralisar as obras, não iniciar as obras que estavam previstas, as que estão em andamento vamos ver o que pode continuar ou não e as que contam com recursos federais a gente vai manter com a contrapartida do município, porque não podem ser paradas. Já autorizei o recolhimento de máquinas, cortando abastecimento da frota de carros e reduzindo o número dos veículos em circulação. Estamos fazendo o possível e pedindo os órgãos para não gastar muito com energia elétrica. Fazer economia para ver se não deixamos atrasar a folha de pagamento dos servidores. Estamos na expectativa para ver o que vai acontecer com esse Brasil nos próximos seis meses.

Mesmo com essa crise por que passam as prefeituras, o sr. vai tentar a reeleição? No início do ano o sr. não sabia ainda se iria para a disputa.
Eu sempre digo: a gente entra em política por causa dos amigos e não sai por causa dos inimigos. Então, a gente está numa luta, numa guerra e se a gente não tomar cuidado é engolido pelo adversário. Eu já estou na hora de me aposentar, pela idade, pela história que eu tenho. Mas aconteceram uns fatos novos em minha cidade: o senador Vicentinho (PR) com o deputado Osires Damaso (presidente da As­sembleia), do DEM, lançaram meu vice (Ari Arraes), que era o meu sucessor – tínhamos esse entendimento – para concorrer comigo. Aí mexeu comigo. Agora eu resolvi ir para a reeleição e vamos ver o que o povo quer. E tem outros candidatos também. (Ari era do DEM e foi para o PR).

O sr. nunca pensou em ser um Amastha da vida, aumentando o IPTU e outros tributos à revelia da comunidade?
Não e não devo ser, porque a comunidade, ao longo de sua história, da sua maneira de agir e da cultura que tem, se habituaram a isso. E as gestões municipais não deram para modernizar as administrações. Estamos tentando, mas isso é um processo lento e difícil. Mas estamos tentando, já deu uma melhorazinha. Paraíso pode arrecadar muito mais do que arrecada hoje, duas ou três vezes mais. As cidades que têm arrecadação própria vão sobreviver; as que não têm, vão ficar dependendo do FPM e do ICMS, que são um desastre. E aqui no Tocantins existem poucas cidades nessas condições. Essas cidades à beira do lago têm uma vantagem além da nossa, que é o imposto que recebem da hidrelétrica, que é muito grande. Mesmo assim, a nossa capital está tendo as suas dificuldades, imagina as pequenas que recebem 0,6 de FPM e muitas não têm nem ICMS para receber, se tiverem é um valor ínfimo. Como vão administrar?

O Brasil vive uma crise política e financeira. O sr. acha que a volta da CPMF, com outra nomenclatura, pode resolver parte dessa crise para os Estados e municípios?
Resolver, para mim, não resolve, mas ameniza. Eu sou contra a CPMF, a maioria é. Mas não é questão de ser contra. É questão de salvar o Brasil. E essa CPMF pode voltar para compensar o rombo no sistema previdenciário e dar uma esperança para os Estados e municípios, futuramente. Esse imposto não pode perdurar por muito tempo. Ele já veio uma vez e o povo não concorda com essa CPMF. Por outro lado, é imposto que cobra mais de quem tem mais. O pobre que recebe salário mínimo, pega o dinheiro todo, paga suas contas e faz seu supermercado. Só paga uma vez. Nós outros profissionais liberais, empresários e quem recebe altos salários trabalhamos com cheques e faz várias operações financeiras e, com isso, a CPMF é cobrada cada vez que se faz uma operação dessas. Quem mais movimenta dinheiro e emite cheques é quem mais tem. Então, a CPMF passa a ser um imposto mais justo que os outros. O ser humano não gosta de pagar imposto, mas eu acho que a CPMF, com toda a oposição que tem, vai ser o caminho, pelo menos, para tentar dar uma sobrevida financeira às contas públicas de forma imediata. A situação do Brasil não vai mudar enquanto não se mudar o sistema de governo, de gerir a coisa pública. O que está aí não vai ter capacidade de mudar. Todos os partidos da base do governo federal, inclusive o meu, o PMDB, não consertam o cenário fazendo barganhas políticas. É preciso ter coragem e competência para cortar o que precisa. Essa história de dar mais ministérios ao PMDB, numa tentativa de dar governabilidade à presidente do Brasil, eu sou contra. Eu sou da linha peemedebista que não tem que assumir ministério nenhum. Temos é ter a consciência para salvar o Brasil, sem negociações de espaços políticos.

Impeachment resolveria a crise do Brasil?
Impeachment não resolve. Para colocar quem? O sistema que está aí já faliu o País, roubou demais e como é que muda? Só muda se tirar as cabeças. Nós devemos dar graças a Deus a oportunidade que está tendo a Justiça, que pelo menos está dando demonstração de que quem erra está pagando pelo erro. Mesmo que não sejam 100% justos. O Brasil tem leis que precisam ser cumpridas. É cultural no Brasil que a coisa pública pode ser dilapidada a qualquer custo. No Brasil acabou o amor à pátria; o civismo não existe mais; o povo acabou o amor pela pátria, mas existem ainda uns 30% que continuam amando o Brasil. Mas a maioria ama o bolso; ama, acima de tudo, o seu interesse particular ou de grupo. E não é só na vida pública, não; na vida privada também é assim. Quanto mais esperto e chances de crescer e ganhar dinheiro fácil, mais a pessoa acha que é o felizardo, e que isso é uma virtude, uma sabedoria ganhar vantagem em tudo. No Brasil não existe programa de governo. Muda-se governo, não dão continuidade aos programas. Não é assim. Na saúde brasileira não falta dinheiro; falta, acima de tudo, gestão. Olha o exemplo do Hugo, em Goiânia, que é uma unidade hospitalar de excelência. É o mesmo dinheiro do SUS, de emendas, mas é uma gestão que não tem interferência política, não tem corporativismo.

O PMDB do Tocantins continua com as suas brigas internas. O sr. tem participado das discussões para um possível entendimento entre as alas divergentes?
O PMDB do Tocantins está igual ao PMDB nacional: aos trancos e barrancos, o tempo passando, não tenho participado de reuniões, até mesmo porque nunca mais fui convidado para reuniões do partido. Nem sei se estão havendo reuniões. Não estou reclamando disso, mas acho que eu devia, com a minha visão de vida política, está dando palpites também. Quando as coisas apertam, eu sou chamado para dar palpites, mas não é essa a questão. Quem está tocando o PMDB no Estado? O companheiro Derval de Paiva assumiu o partido num acordo que fizeram, mas ele tem autonomia? Está fazendo? Quem está andando no interior do Estado conversando com as lideranças dos municípios? Os que eu sei, não têm gabarito para fazer isso, porque falta credibilidade para fazer articulações e os que fazem, estão fazendo tudo errado. E eu recebendo telefonema de lideranças do interior de todo o Estado dizendo que estão fora do processo e perguntando o que fazer. E eu respondo: eu não sei de nada, estou tão desligado, tão por fora como arco de barril. Não sei de nada mais decisivo que acontece com o partido, só de fofocas, de briguinhas que chegam até mim. Isso vai para frente? E o diretório nacional está em paz? Coisa nenhuma. É metade de um jeito, metade de outro. Não há patriotismo, mas interesse de grupos. E os interesses acabam com o PMDB; primeiro, acabando com a credibilidade. Vamos ver o que vai dar nas eleições do ano que vem. Quantos prefeitos e quantos vereadores o PMDB vai eleger. A nossa representatividade está minguando a cada ano que passa, porque o povo vai desacreditando.

Paraíso é um município que tem uma boa arrecadação de ICMS?
Não arrecada bem. O nosso município tem potencial para arrecadar muito mais. O que ocorre com Paraíso é que, sempre ao longo da história, foi muito desorganizado esse processo. Estou com quase três anos de administração e ainda não consegui colocar a situação em dia como deve, por exemplo, na questão imobiliária. Por quê? Porque nós temos carência de material humano, não temos condições de contratar uma grande empresa com experiência na área. Estamos tentando melhorar, fazer um novo cadastramento dos imóveis para normalizar a situação. E outra coisa: fazer uma campanha de conscientização de que a cobrança de impostos é de fundamental importância para o desenvolvimento da cidade. Essa questão fundiária e imobiliária tem que ser regularizada, para termos um reordenamento da cidade. Não queremos ser linha dura, cobrando tributos de qualquer forma, de um dia para o outro. O processo tem que ser feito com um diálogo aberto e franco com a comunidade, com os setores organizados da sociedade. Fazer um novo Refis.