“Proibi a venda de bebidas alcoólicas porque as pessoas não entenderam a gravidade”

Prefeito de Araguaína, Ronaldo Dimas explica o motivo de ter endurecido as regras de isolamento no município após aumento do contágio pelo cornavírus

Ronaldo Dimas: “As pessoas estavam fazendo festas, churrascos” | Foto: Divulgação

Ronaldo Dimas é graduado em Engenharia Civil e, atualmente, exerce o cargo de prefeito da segunda maior cidade do Tocantins, Araguaína. Eleito em 2012, foi reeleito em 2016. Foi deputado federal pelo Tocantins entre 2003 e 2006. Destacou-se como um dos fundadores e, também, primeiro presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado do Tocantins (Sinduscon/TO), de 1992 a 1997. Também foi presidente, por dois mandatos, da Federação das Indústrias do Estado do Tocantins (Fieto), no período de 1997 a 2003, e Conselheiro da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Dimas atualmente é presidente estadual do Podemos e, naturalmente, pré-candidato ao governo do Estado do Tocantins em 2022, uma vez que obrigatoriamente deixará de ser prefeito ao final de 2020.

Nesta entrevista, entretanto, o foco, infelizmente, foi o representativo aumento do número de casos de Covid-19 em Araguaína, lotando todas as UTIs disponíveis para este fim, além de obrigar o gestor a editar decretos extremamente restritivos no âmbito do município.

Houve um vertiginoso crescimento de casos de Covid-19 em Araguaína nos últimos dias, tornando-se o epicentro da doença no Tocantins e assustando a população da cidade. Isso se deve ao aumento das testagens ou à contaminação comunitária?
É necessário expor que, de longe, mas de longe mesmo, Araguaína é uma das cidades que mais tem feito testes, não apenas no Tocantins, mas no Brasil. Adotamos essa política da “testagens em massa” desde o começo da pandemia. Fomos os primeiros a adquirir testes rápidos, ainda no mês de março. Enfrentamos – porque tudo foi novidade para todos nós – as deficiências que o método do teste rápido apresenta, como os “falsos negativos”, por exemplo. O índice de acerto é relativamente pequeno antes do décimo dia de contaminação. Por isso, a necessidade do teste PCR. Temos feito vários diariamente e, gradativamente, ampliando, não deixando a responsabilidade toda para o Estado.

Então, posso afirmar que, percentualmente, a nossa testagem é infinitamente superior às cidades vizinhas. Talvez elas estejam tão infectadas quanto Araguaína, porém, como não testam em massa, a impressão que se tem é que não há contaminação, entende?

Veja, por exemplo, os casos de Imperatriz-MA (259 mil habitantes) e Marabá-PA (271 mil habitantes). Até essa data, a primeira cidade apresenta 261 casos confirmados e 176 descartados. Já o município paraense, tem 86 confirmados e apenas 50 descartados. Já Araguaína (177 mil habitantes) tem mais de 700 casos descartados e 114 confirmados. Nestes mesmos parâmetros – corrobora com o que eu estou dizendo – o fato de ter ocorrido 16 óbitos em Imperatriz e, em Araguaína, até o momento, nenhum. Se esses dois municípios – que nos servem de parâmetro – tivessem testado percentualmente como nós, certamente teriam mais de 1 mil casos positivos.

Em suma: ou não estão testando por falta de condições técnicas, ou só estão testando depois dos óbitos, ou não estão divulgando os dados, com o intuito de não assustar a população. É a chamada subtestagem.

Enquanto Palmas não disponibilizou um leito municipal sequer para pacientes de Covi-19, jogando todo esse encargo para o governo do Estado, Araguaína tem feito o dever de casa. Quantos leitos foram oferecidos pelo município?
No hospital municipal temos dois leitos de UTI e dois leitos clínicos para pacientes de Covid-19. Na Unidade de Pronto Atendimento, isolamos uma área e instalamos um leito de UTI e seis leitos clínicos e, além disso, articulamos intensamente com o Hospital Dom Orione para a viabilização da parceria. Eles disponibilizaram 16 leitos de UTI, que estão na regulação estadual. Estamos negociando para que eles disponibilizem mais quatro para a próxima semana.

Além disso, estou implantando, nos próximos dez dias, mais 15 leitos na UPA que estava inativa, que batizei de “Unidade Corona Norte” (risos). Isso só foi possível graças aos recursos obtidos pela força-tarefa em Brasília-DF, composta pelo deputado Tiago Dimas e pelos senadores Eduardo Gomes e Irajá Abreu.

Estou trabalhando, também, para que no HDT – um hospital federal – sejam instalados mais 20 leitos de UTI, uma vez que eles já implantaram dez, dos quais, três com respiradores.

O HRA, sob a responsabilidade do Estado do Tocantins, também implantou dez leitos de UTI e quatro leitos clínicos, para atender nosso município, o que é muito pouco, diga-se de passagem. A luta contra a pandemia, portanto, é diária e, da qual, não vou desistir nunca.

Há pacientes de outros Estados internados em Araguaína?
No começo atendemos alguns, contudo, ante ao agravamento da doença, pontuei com o Secretário Estadual de Saúde que se continuasse atendendo pacientes do Maranhão e do Pará, nossos munícipes ficariam desassistidos. Por isso, não temos mais pacientes de outros Estados da federação, a não ser – evidentemente – os caminhoneiros que apresentam sintomas e, por estarem em trânsito pela nossa cidade, atendemos de forma humanitária.

O sr. havia flexibilizado o funcionamento do comércio há alguns dias, contudo, ante ao aumento do número de casos, voltou a restringir e decretar novamente regras de isolamento. O que houve, na verdade, para que tomasse essa decisão?
Desde o começo, a primeira reação de todos os prefeitos brasileiros foi o medo e eu me incluo nessa estatística. Como fazer? Como lidar com um problema totalmente novo? E as consequências? Fechamos tudo e determinamos o isolamento. Alguns gestores, inclusive, o fizeram sem nem mesmo ter casos em seus municípios. Era natural, pois o medo foi apavorante.

Passado algum tempo, percebemos que após a primeira reação era necessário avaliar a realidade. Ouvimos as razões de todos, como também as contra-razões. Percebemos que o fechamento total de tudo era exagerado e, após várias reuniões, percebi que poderíamos flexibilizar a abertura do comércio.

Ouvimos o Ministério Público, a Defensoria Pública, os médicos e profissionais de saúde e assim decidimos, mesmo porque não tínhamos até aquela data, nenhum leito ocupado. Contudo, vieram os casos e fomos obrigados a restringir novamente. Se a princípio foram mais brandas as restrições, após os desrespeitos por uma parte da população – que não entendeu a gravidade do problema – fui obrigado a decretar medidas muito duras e adotar como critério, por exemplo, a proibição da venda de bebidas alcoólicas. As pessoas faziam festas, reuniões familiares, churrascos, entre outros.

Os jovens, principalmente, estavam convictos que os efeitos do coronavírus neles próprios eram quase que insignificantes. Por isso, não se importavam com as medidas restritivas impostas e desrespeitavam o isolamento social. Então, fui obrigado a restringir ainda mais, visando evitar a proliferação e disseminação da pandemia.

E como se dá essa fiscalização, prefeito? Naturalmente o Sr. não possui fiscais de posturas para atender a tanta demanda…
Fomos obrigados a nos adequar. O estado de calamidade nos obriga e encontrar saídas. Juntei todos os fiscais: de postura, de trânsito, de vigilância sanitária, entre outros, como também, contratamos vinte auxiliares de fiscalização e conseguimos montar 12 equipes. Eles têm atuado intensamente. Exatamente por isso, a conscientização da população aconteceu e já consigo vislumbrar que o povo de Araguaína entendeu a gravidade do problema.

E diante dessas restrições e impossibilidade de trabalhar, a Prefeitura ajudou as pessoas em situação de miserabilidade?
Com toda certeza. Antes mesmo do governo federal aprovar e pagar a ajuda emergencial de R$ 600, nós já estávamos adquirindo e entregando cestas básicas às famílias carentes, constantes do nosso cadastro na Pasta da Assistência Social. Foram mais de 13 mil benefícios na nossa cidade. Depois que o governo federal iniciou o pagamento do auxílio, ainda assim estamos dando assistência às famílias em situação de vulnerabilidade.

Em meio à pandemia, as eleições se aproximam. Qual a sua visão acerca da possibilidade de adiamento do pleito ou prorrogação dos atuais mandatos?
Claro que administração da cidade não parou por conta da pandemia. Estamos tocando obras, muito mais do que necessárias para o nosso município. As frentes de serviço, principalmente após o encerramento do período chuvoso, estão atuando nos quatro cantos da cidade. A revitalização da cidade sempre foi nossa prioridade. Vários são os exemplos, como o Parque Cimba e a “Via Lago”. Hoje ainda há várias obras licitadas e outras ainda em andamento. Isso vai contribuir, com toda certeza, com a retomada do desenvolvimento econômico da cidade.

Quanto às eleições, depende muito de uma emenda constitucional. Não sei como vai ser o andamento dessas questões no Congresso Nacional. Creio que pico da epidemia já ocorreu. Em breve estaremos na curva descendente e, neste caso, poderemos realizar as eleições normalmente em outubro.

Entretanto, caso isso não aconteça e for necessário adiar o pleito, teremos que nos adequar, em razão do estado de calamidade pública a qual estamos vivendo. O que o Congresso Nacional decidir através de PEC ou aquilo que o TSE determinar, iremos acatar com serenidade. Ainda é muito cedo para falar de eleição, considerando o estado de necessidade que a nossa população enfrenta.

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