“Os investidores precisam conhecer a nossa vocação para a agroindústria”

Após ampla experiência no Governo de Goiás, Chiareloto assumiu a Secretaria da Indústria, Comércio e Serviços do Tocantins. Foto: Governo do Tocantins

O currículo do novo secretário Estadual da Indústria, Comércio e Serviços do Tocantins é extenso. Legítimo descendente de italianos, o gaúcho radicado em Goiás desde a década de 1970 Ridoval Chiareloto possui uma infindável lista de serviços prestados à sociedade.

Graduado em contabilidade, migrou de Joaçaba (SC) para Anápolis (GO) em 1973, onde destacou-se como empresário no ramo do comércio, indústria e pecuária. Foi secretário municipal de Desenvolvimento Econômico no governo de Adhemar Santillo e, ainda, candidato a prefeito em 2008.

Além disso, entre os anos de 2003 a 2008, exerceu o cargo de secretário Estadual de Indústria e Comércio do Estado de Goiás. Já entre 2010 e 2014 comandou a Goiás Industrial. No período compreendido entre 2014 e 2018, exerceu a presidência da Agência Goiana Regulação, Controle e Fiscalização de Serviços Públicos (AGR).

Associativista na essência, foi presidente por quatro mandatos alternados da Associação Comercial e Industrial de Anápolis (Acia) e, também, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Anápolis. Por dois mandatos, também exerceu o cargo de presidente na Federação das Associações Comerciais, Industriais e Agropecuárias do Estado de Goiás (Facieg).

Nesta entrevista ao Jornal Opção, Chiareloto conta um pouco da sua trajetória, conquistas e legados, como também, expõe suas expectativas acerca do novo desafio: contribuir com o desenvolvimento do comércio a indústria no Estado do Tocantins.

O Sr. considera que seu perfil pende mais para o empresariado ou para o associativismo?
Creio que é um misto de ambos, com destaque, ainda, para a vertente política. Até mesmo como desportista me aventurei, pois fui presidente do Anápolis Futebol Clube. Talvez 1001 utilidades, como diria um velho adágio popular. Isto me possibilitou trabalhar e atuar em várias áreas e, por consequência, adquirir conhecimento e experiência.

Em relação a esta incursão na política, como foi essa experiência como candidato a prefeito de Anápolis?
Tenho uma longa história com o PSDB e, a convite do então senador Marconi Perillo, resolvi disputar as eleições municipais de 2008, quando obtive mais de 34 mil votos. Talvez essa seja uma das passagens mais tristes da minha vida pública, em razão da covardia dos adversários, que utilizaram calúnias, difamações, montagens midiáticas e panfletos apócrifos, com a específica finalidade de denegrir minha imagem.

Ao final, minha convicção é que o jogo político é muito sujo, indecente e norteado pela incessante busca por vantagens. Não tenho, portanto, qualquer interesse em me candidatar outra vez a qualquer cargo. Foi uma experiência única, dolorosa porque enfrentei, concomitantemente, o falecimento de minha esposa. Entretanto, me serviu, também, como aprendizado.

Qual a sua percepção acerca da sua atuação como auxiliar direto do governo de Goiás?
Tanto a experiência como Secretário de Desenvolvimento, que se estendeu por dois governos, como também o exercício dos cargos de presidente da Goiás Industrial e da Agência Goiana Regulação, foram de grande valia e, acredito, trouxeram bons resultados para Goiás.

“O tocantins não precisa fazer propaganda interna, esse tempo já passou”

Entre 2003 e 2008, atuando como gestor da pasta de Desenvolvimento Econômico, houve vários avanços, com a implantação de políticas públicas e incentivos fiscais que atraíram muitas empresas para Goiás, gerando empregos, renda e recolhimento de tributos. Foram mais de 1,3 mil projetos que resultaram na instalação de mais de 600 indústrias. A arrecadação de ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] experimentou significativos aumentos, saindo da casa dos milhões para adentrar na de bilhões. À época, havia apenas 12 usinas de açúcar e álcool em Goiás e, hoje, são 38 indústrias desta natureza. Consegui atrair montadoras de automóveis, como, por exemplo, a Hyundai, além de várias indústrias farmacêuticas para o distrito industrial de Anápolis.

No período de 2010 até 2014, cuidamos dos 33 Distritos Industriais existentes em território goiano e posso dizer que houve uma guinada no que se refere à instalação de empresas, na medida em que conseguimos atrair mais de 300 empresas naquele período.

Após a reeleição de Perillo, ocorrida em 2014, ao assumir a Agência de Regulação, houve uma mudança de foco, uma vez que o objetivo da autarquia era fiscalizar a execução de obras públicas, o transporte, as concessionárias de água e energia, entre outros.

Como se deu o estreitamento de laços com o governador Mauro Carlesse?
Através do senador eleito em 2018 por Goiás, Vanderlan Cardoso. O governador do Tocantins estava a procura de um gestor que tivesse experiência com o desenvolvimento econômico e pudesse fazer um trabalho diferenciado no Estado. Recebi o convite com alegria e, após algumas reflexões, principalmente no concerne ao convívio familiar e estado de saúde, resolvi assumir mais esse desafio, mesmo aos 75 anos de idade.

É importante frisar que alertei o governador que uma secretaria com essas especificidades precisa de uma boa equipe de profissionais, sem vaidades pessoais, como também o perfeito e total entrosamento com as demais pastas, como a fazenda e planejamento, agricultura e pecuária, infraestrutura, meio-ambiente, etc. Caso isto ocorra, as probabilidades de sucesso são enormes.

Não há como negar que o convite me foi feito em razão da minha experiência. As funções exercidas anteriormente podem contribuir muito com o desenvolvimento do Estado do Tocantins. Contudo, é necessário transmitir seriedade e segurança para o empresariado e, além de tudo, tempo para trabalhar. Num futuro breve, poderemos colher bons frutos.

Certamente o Sr. já conhecia o Estado do Tocantins, desde quando ainda era uma parte de Goiás. Quais seriam as potencialidades a serem exploradas por aqui, de forma tal que se aproximasse, pelo menos em parte, à realidade comercial e industrial do vizinho goiano?
Cheguei a morar em Araguaína, em 1986, por um ano. Tornei-me sócio de uma concessionária da Ford naquela cidade. Visitei o Estado em outras oportunidades e conheço bem a região, sei dos problemas, como também das virtudes.

“O Tocantins é o novo Shangri-la e tem um futuro promissor”

Na visão do saudoso Henrique Santillo, Goiás era o Portal da Amazônia. Hoje, sem dúvidas, esse título pertence ao Tocantins. A logística, o corredor de exportação para o Porto de Itaqui-MA, tudo isso passa por aqui. É o novo Shangri-la e tem um futuro promissor. As estações são bem definidas e não há problemas climáticos. Esse fator é preponderante para o agronegócio, por exemplo.

Se falássemos em desenvolvimento, por intermédio da criação de Distritos Industriais, a realidade de hoje é bem diferente daquela em que o Distrito de Anápolis (Daia) foi criado, com aproximadamente 200 alqueires. Naquela época, havia muitos investimentos por parte do Governo Militar, na tentativa de tornar capital federal, Brasília, uma cidade apenas administrativa. Toda estrutura de consumo necessária para crescimento daquela capital ficaria nas adjacências, num raio de 200 quilômetros. Por isso, a cidade de Anápolis foi escolhida para receber um Distrito Industrial de grande porte.

O Tocantins também necessita de um Distrito Estadual de grande porte e não precisa, necessariamente, ser em Palmas. Diga-se de passagem, não sou muito favorável a distritos municipais. O ideal seria esse distrito fosse próximo à ferrovia, a um bom aeroporto e rodovias em bom estado de conservação, além de possuir uma grande faixa de terras disponível, no mínimo, 50 alqueires. Uma fábrica ou montadora de tratores, como a John Deere, por exemplo, caso se instalasse, precisaria de aproximadamente 10 alqueires de terras para montar seu pátio industrial. Aliado a isso, o governo teria que oferecer incentivos fiscais, uma boa fonte de captação de água, tratamento do esgoto, ruas asfaltadas, energia elétrica de boa qualidade, estacionamentos, etc. Em suma: não é uma tarefa fácil, mas é possível.

Em relação aos incentivos fiscais, qual seria o modelo ideal?
O Estado precisa mostrar primeiro aos empresários interessados em investir a viabilidade do local e dos empreendimentos, bem como, assegurar garantias. Já demos o primeiro passo, uma vez que o Tocantins oferece um dos melhores incentivos fiscais do país. Um negócio inédito, que só vi por aqui, foi o incentivo fiscal no pagamento da energia elétrica para indústrias.

Na minha visão, o Tocantins não tem que fazer propaganda interna. Este tempo já passou. Os investidores de outros Estados precisam conhecer a nossa vocação para a agroindústria. Não é necessário ir ao exterior, pois há empresários brasileiros, principalmente do sul do país, interessados em investir, contudo, muitas vezes sequer sabem das nossas potencialidades. As cadeias produtivas da carne bovina, da ovinocaprinocultura, da piscicultura, dos grãos e das possibilidades vender insumos, fertilizantes, defensivos, além da extração do óleo, fabricação de rações, etc. são um enorme nicho de mercado.

Há, ainda, uma riqueza incomensurável de minérios aqui no Tocantins. Estudos comprovaram isso. Logicamente, é possível atrair indústrias que têm know-how para explorar essa riqueza e, por consequência, contribuir com o desenvolvimento do Estado.

Enfim, há uma série de potencialidades a serem exploradas e nosso objetivo é mapear todas elas, de forma tal que gerem dividendos para o Tocantins.

E em relação aos pequenos empresários?
Talvez eles sejam mais importantes que os grandes comerciários. As microempresas geram muitos empregos e são relevantes para a economia. Caso consigamos viabilizar financiamentos aos microempresários, através da Agência Estadual de Fomento, com toda certeza estaríamos elevando a qualidade de vida da população, com a geração de mais emprego e renda. Veja, considero a ideia de criar polos, fantástica. Porque não incentivarmos um polo de confecção numa determinada cidade do Tocantins e absorver todo o mercado consumidor do Pará, Maranhão, Piauí e Bahia? Se as pessoas viajam 1,5 mil ou 2 mil quilômetros para chegarem às cidades de Goiás com esse objetivo, evidente que se existisse um polo aqui, muitas dessas pessoas iriam preferir fazer apenas a metade do percurso e comprar as mercadorias no Tocantins. Ainda é apenas uma ideia, mas que pode, perfeitamente, ser colocada em prática. O governo deve ser parte integrante desse contexto.

“Pude perceber que as terras [do Bico do Papagaio] são muito valorosas, ao contrário do que muita gente pensa”

O que o Sr. considera como possível e viável para desenvolver a sofrida região conhecida como Bico do Papagaio?
Visitei recentemente a região. O porto de Praia Norte, quando estiver em pleno funcionamento, dará um impulso sem precedentes àquela região. Ao mesmo tempo, fiquei extremamente triste ao constatar que o Projeto Sampaio praticamente sucumbiu em razão da má gestão e aplicação dos recursos públicos. Aquilo não poderia ter ocorrido.

No mais, pude perceber as terras são valorosas, ao contrário do que muita gente pensa. Podemos implantar ali projetos que viabilizem a produção de frutas típicas da região, deixando de ser importador para nos tornarmos exportadores. A economia do Bico não pode se basear em plantações de eucalipto, que sequer geram empregos e alimentam somente as indústrias localizadas no Estado do Maranhão. Temos, portanto, que mudar essa realidade.

Há poucos dias o Sr. recebeu a senadora Kátia Abreu para debater temas relativos ao desenvolvimento econômico do Tocantins. Qual a sua percepção acerca desse encontro?
Foi muito bom. Debatemos vários temas e a senadora demonstrou que as cores partidárias empunhadas na eleição de 2018 não se justificam mais, neste momento. A hora é de olhar pra frente e ela, como senadora da República, tem compromissos com Estado e com o nosso povo. Independentemente do governador que esteja no poder, é obrigação dela, pelo cargo que ocupa, contribuir com debate e ajudar a encontrar soluções para os problemas que enfrentamos.

A conversa foi franca e vi com bons olhos a reunião. Creio que ela está comprometida em ajudar, em tudo que puder, essa retomada do crescimento que o Estado tanto necessita.

“Como senadora da República [Kátia Abreu] tem compromisso com o Estado e com nosso povo”. Foto: Divulgação / Facebook

Além disso, estreitei o diálogo com a Federação da Agricultura e Pecuária do Tocantins (Faet), que andava afastada do Governo do Tocantins. Convidei os dirigentes para participar da Agrotins, a maior feira agrotecnológica do Norte do País, e o convite foi imediatamente aceito, o que me trouxe muita satisfação. A Fieto, da mesma forma, também vai participar do evento.

Nossa vocação para a agroindústria deve ser estimulada pelo governo e tenho certeza que a Agrotins será, de novo, um sucesso. Nossa equipe já está articulando e planejando a montagem de um estande, que será uma espécie de espaço empresarial.

O que a população do Tocantins pode esperar da sua gestão?
Vim para contribuir, não tenho vaidades ou pretensões políticas e nem tampouco outros interesses financeiros. Não quero voltar aqui posteriormente para responder processos de improbidade, porque ao longo de toda minha vida pública, não respondi a nenhum.

Creio que é possível contribuir muito, desde que haja apoio do próprio governador e dos outros secretários. Assumi o encargo pensando que posso fazer pelo Tocantins muito do que fiz por Goiás. Se eu tiver chance de aplicar a minha experiência, será possível fazer a atração de investimentos que o Estado tanto necessita.

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