“O Tocantins não permite mais tantos governos que não concluam seus mandatos”

Deputado prevê que próximo governador precisa ter coragem para recuperar credibilidade da política e promover choque de gestão 

Deputado estadual Gutierres Torquato (PSB) | Foto: Ruy Bucar

Ele acaba de assumir o seu primeiro cargo eletivo após a condição de suplente de deputado estadual, mas já chega ao Parlamento com muita bagagem. Por pouco não venceu as eleições da terceira maior cidade do Estado, Gurupi, além de integrado a equipe de Laurez Moreira (PDT), responsável pelo choque de gestão na cidade que fez do ex-prefeito uma forte concorrente ao governo do Estado. O deputado Gutierres Torquato (PSB) tem discurso de independência, mas ganhou a vaga por força das articulações do governador Wanderlei Barbosa (sem partido) para atrair o PSB à base do governo.

Confiante de que, em função de decisão da Justiça, ainda poderá assumir a prefeitura de Gurupi, Torquato explica que o resultado da eleição foi profundamente influenciado pelo uso da máquina estadual. “Um governo totalmente estruturado financeiramente demonstrou o seu poder de fogo numa campanha, a qual, inclusive, nós deixou uma prefeita cassada numa primeira instância e comprovação de que houve uma série de abusos políticos e econômicos. E é um governo afastado que ajudou uma prefeita cassada”, comenta.

Torquato é enfático ao avaliar que o Tocantins não suporta mais os encargos de gestões interrompidas em função do afastamento do chefe do Executivo por suspeita de crime de responsabilidade. “É muito triste ver uma história tão bonita construída no Estado do Tocantins ter vivido uma realidade igual a nossa, com governos que não concluíram seus mandatos e isso fica um prejuízo muito grande para a sociedade”, pontua, enfatizando que os grandes desafios do próximo governador será resgatar a credibilidade da política e promover a modernidade da gestão pública com inovações e ampliação dos investimentos em obras estruturantes.

Gutierres Torquato, 38 anos, goiano de Uruaçu, mas gurupiense de coração, viveu a infância e juventude na capital da amizade. Fisioterapeuta e advogado, foi secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação e secretário da Saúde de Gurupi. Em 2018, disputou pela primeira vez um cargo eletivo, obtendo 14 mil votos, 17º mais votado, mas não foi eleito. Em 2020, concorreu à prefeitura de Gurupi, pelo PSB, com aval do seu padrinho, Laurez, e teve 17.059 votos, o que correspondeu a 43,29% dos votos, contra 20.106, totalizando 51, 05% dos votos, obtidos por Josi Nunes (União Brasil), que foi eleita. Torquato falou com exclusividade ao Jornal Opção, na terça-feira, 22, em seu gabinete, na Assembleia Legislativa.

Como foram as articulações políticas que o trouxeram ao plenário da Assembleia Legislativa?

Na verdade, vou retratar primeiro nossa história aqui. Eu, na eleição em 2018, obtive 14 mil votos, sendo o 17º mais votado naquela eleição. Tivemos mais votos que sete companheiros deputados que hoje estão na Assembleia ocupando vaga de representatividade do Estado do Tocantins. Isso nos credencia e nos credibiliza estar hoje na condição de deputado estadual. Na verdade, o deputado Ricardo Ayres (PSB) teve a sensibilidade necessária de entender que uma região tão importante como o sul do Estado – e olha que eu fui votado em 102 dos 137 municípios – merecia um representante. Nunca ocupei uma função em nível de Estado. Esta é a primeira e, graças a Deus, tivemos a confiança de inúmeros tocantinenses. Gosto muito da política de resultado. O debate é necessário, desde que haja o respeito. Sou muito incisivo naquilo que eu defendo. É com este pensamento que estou tendo a oportunidade de estar aqui na Assembleia neste momento.

O senhor tem alguma explicação para um estreante ter uma votação tão ampla, compreendendo todo o Estado?

Eu faço política com base no respeito e seriedade. As pessoas me conhecem pela minha credibilidade. Por onde passo, procuro deixar uma marca de um trabalho muito sério, porque a gente vive numa sociedade em que as pessoas encontram tanta dificuldade, são tão sofridas, então é muito ruim quando a classe política perde a credibilidade. Sou muito determinado a fazer aquilo que acredito. Iniciei minha trajetória política desacreditado, ninguém me colocava numa condição de uma votação igual àquela, então muitos se surpreenderam. O meu trabalho é constante, me dedico muito ao que faço. Da mesma forma estou fazendo aqui na Assembleia, trabalhando muito para fazer um bom mandato.

“Temos um Estado muito próspero, de uma riqueza imensa, uma logística invejável para qualquer Estado brasileiro” | Foto: Ruy Bucar

Qual é a sua expectativa neste cargo, que é a sua estreia no exercício de mandato eletivo?

É a primeira oportunidade que estou tendo num cargo eletivo e eu te confesso que as expectativas são as melhores possíveis. Fui muito bem recebido aqui na Assembleia, tanto pelos parlamentares quanto pelos servidores, me acolheram de uma forma que até me impressiona. Sinceramente, não esperava que tivesse essa receptividade e isso facilita muito o trabalho. Sou muito focado no desenvolvimento econômico, desenvolvimento social, geração de emprego e renda. Nós temos de qualificar e capacitar nossa população. Nós temos um Estado muito próspero, de uma riqueza imensa, uma logística invejável para qualquer Estado brasileiro. Temos rodovias importantes, temos a Ferrovia Norte-Sul, tem interligações que passam pelo Estado do Tocantins, então nós somos rotas de desenvolvimento econômico, mas, para que haja desenvolvimento efetivo, será preciso capacitar nossa população. Mais capacitada cada vez mais, mais bem preparada para aproveitar as oportunidades que hão de vir. Eu, particularmente, acredito num boom de desenvolvimento econômico do nosso Estado, e em especial do sul do Tocantins. Nossa preocupação hoje é discutir incentivos fiscais, é fortalecer os mecanismos de atração de indústrias, gerando novas oportunidades, sem deixar de adotar políticas de promoção social. Nós sabemos as dificuldades que as pessoas enfrentam, temos uma preocupação muito grande de fazer com que as pessoas tenham uma condição de vida mais digna.

Como recuperar o nível de desenvolvimento do Estado, que vem perdendo força, enquanto os problemas se acumulam. A malha viária em péssimas condições de conservação, problemas na saúde e na educação. Esse é o grande desafio para as novas gerações que estão assumindo o poder?

Eu entendo que cada pessoa que passou como nosso representante deixou sua contribuição. É inegável que qualquer um que passou pelo comando do Estado deixou alguma coisa de positivo. Nós temos a história desde Siqueira Campos e todos que passaram deram sua parcela de contribuição no desenvolvimento da estrutura do Estado do Tocantins. Agora, cabe às gerações que estão tendo a oportunidade de assumir o poder lutar para cuidar bem da manutenção, mas também para ampliar as obras estruturantes que possibilitam acelerar o nosso desenvolvimento. Eu acredito que o Tocantins seja capaz de receber investimentos se ele tiver infraestrutura suficiente. Precisamos fazer com que nossa condição seja atrativa aos investimentos que o Estado tanto precisa.

O senhor é filiado ao PSB, partido que o governador Wanderlei Barbosa tem cortejado. Já podemos considerá-lo um partido da base do governo?

Não posso falar em nome do PSB, pois quem pode falar sobre o partido é o presidente Carlos Amastha. Ele tem suas ponderações, tem os seus posicionamentos e a gente respeita muito. É uma pessoa com quem tenho ótimo relacionamento. Respeito muito o seu trabalho. Estamos aqui na Assembleia em compromisso com o Tocantins, aquilo que for de interesse do Estado nós somos a favor. Eu entendo a boa conduta que o governo tem tido em várias situações. Tem tomado medidas acertadas que têm sido importantes. E eu estou aqui para apoiar aquilo que eu entender que é importante, aquilo que de alguma forma eu considerar que não é bom vou discordar, tenho a liberdade de defender aquilo que acredito.

Como fica o projeto do ex-prefeito de Palmas, Carlos Amastha, que é pretenso candidato a governador?

Eu vejo o Amastha sempre defendendo um projeto dele a deputado federal. Eu respeito, é um cidadão que acredito muito na sua capacidade. Não tem participado diretamente da construção do partido, mas até onde acompanho ele tem uma candidatura forte a deputado federal.

Como o senhor viu a definição do PSB de fechar apoio ao presidente Lula? Em que essa aliança ajuda ou atrapalha as definições do partido no Tocantins?

Essa federação partidária é uma discussão muito ampla. Eu vou ser muito sincero, minha tendência não é a de permanecer no PSB. Não por questões de federalização, isso eu respeito, é uma decisão dos dirigentes em nível nacional, cada Estado tem a sua propositura conforme sua especificidade, mas não me vejo neste projeto do PSB em nível de Estado. Nós estamos definindo, ainda não tomamos a definição qual o partido que nós caminhamentos, mas a tendência é um partido que seja muito ligado ao prefeito Laurez Moreira, que, todos sabem, é minha referência política, a quem eu admiro e que, inclusive, tem um nome muito bem postado hoje para o governo do Estado, pelo trabalho de credibilidade como gestor de Gurupi. Em comum acordo com ele, nós caminharemos juntos e definiremos quais serão os nossos rumos partidários.

“Em Gurupi enfrentamos um governador que foi afastado que ajudou uma prefeita cassada”

Qual é o seu projeto nesta parceria com o Laurez, declaradamente seu padrinho político que por pouco não o fez prefeito de Gurupi?

Eu sou muito de viver o momento. Eu vivi o momento da minha eleição em 2018, sendo o 17º candidato a deputado mais bem votado. Depois eu construí um projeto muito consistente a Prefeitura de Gurupi. Estivemos muito próximo de assumir aquela prefeitura e nós vimos o que aconteceu em Gurupi. É um negócio inimaginável. Até nos maiores filmes de ficção científica você não encontraria uma história como a de Gurupi, em que um governo totalmente estruturado financeiramente demonstrou o seu poder de fogo numa campanha que inclusive nós temos uma prefeitura cassada (Josi Nunes), numa primeira instância, comprovação de que houve uma série de abusos políticos e econômicos e é um governo afastado que ajudou uma prefeita cassada. Mas eu não sou de ficar murmurando, reclamando, acho que quem gosta de política precisa ter a sabedoria de entender que o seu papel de representar independe de estar ocupando um mandato ou não. Estou tendo a oportunidade de estar hoje como deputado estadual com uma responsabilidade muito grande, no momento em que o sul não tem essa representatividade, me refiro a quem é da região, de quem convive com a realidade de perto. Então tenho que aproveitar bem esta oportunidade, o futuro político nosso vai depender muito do trabalho que realizarmos aqui, do envolvimento, da dedicação, e dos resultados que pudermos alcançar.

Em pouco mais de uma década, o Tocantins teve três governadores afastados por denúncia de crime de responsabilidade. Como superar esse descrédito da política que afinal prejudica mais quem mais precisa no Estado, as classes menos favorecidas?

Primeiramente, é muito triste ver uma história tão bonita construída no Estado do Tocantins ter vivido uma realidade igual a nossa, com governos que não concluíram seus mandatos e isso fica um prejuízo muito grande para a sociedade. Prejuízo porque você ver a forma como foram construídas suas eleições. Eu acredito que o governo atual e o próximo têm a responsabilidade de recuperar a credibilidade da gestão púbica, de recuperar a infraestrutura, de recuperar toda a organização da gestão, modernizar a máquina pública, perceber que seus secretários tem um comprometimento efetivo com as transformações do Estado.

Nós temos um Estado muito grande. Temos uma área territorial grande, que tem uma infraestrutura que precisa de manutenção e de evoluções. Tem estradas vicinais de que os produtores dependem para escoamento de suas produções, então é uma situação que o gestor precisa ter muita coragem e determinação para enfrentar os desafios.

Tenho certeza que com a responsabilidade que o Wanderlei tem tido, com olhar de quem conhece o Estado, de quem nasceu aqui, e sua história política foi traçada aqui, que vem desde vereador e chegou a condição de governador do Estado, ele sabe literalmente qual é a sensação das pessoas. As dificuldades que as pessoas enfrentam, tenho certeza que ele tem capacidade administrativa para vencer os desafios.

Peço a Deus que o próximo governador possa ter amor verdadeiramente por ser governador do Tocantins. O Tocantins não se permite mais tantos governos que não concluem seus mandatos e deixam o prejuízo para a sociedade e a gente vem pagando e sofrendo muito do decorrer dos anos. O que peço a Deus é que quem assumir tenha a competência e a responsabilidade de transformar o Tocantins cada vez mais.

Como o senhor define o choque de gestão que se diz que o governo Laurez realizou em Gurupi?

Em Gurupi teve moralidade, decência, respeito ao dinheiro público, boas práticas e principalmente capacidade de gestão. Gestão pública é completamente diferente de qualquer outra área. Nós sabemos da parte burocrática, sabemos dos entraves que tem de recursos. Se você não tiver pessoas altamente capacitadas e comprometidas e principalmente com a honestidade e responsabilidade o resultado lá na ponta chega muito ruim. O que as pessoas esperam hoje de um sistema único de saúde, uma infraestrutura adequada, de uma educação básica de qualidade, com sistema de produção de alimentos funcionando, o que você imagina de uma administração pública cultural, da comunicação levando a informação de interesse coletivo é isso que você faz na transformação da vida das pessoas, com investimento, dedicação, aí as coisas acontecem.

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