“Não estaremos livres de todas as consequências do coronavírus antes do final do mês de junho”

Secretária da Saúde, Edgar Tollini diz que o governo, gradativamente, vai liberar as pessoas do isolamento de forma vertical, com recomendações de segurança

Edgar Tolini, secretária de Saúde do Tocantins | Foto: Nielcem Fernandes

O médico Edgar Tollini desembarcou no Tocantins em abril de 2018, convidado pelo governador Mauro Carlesse para contribuir com a reestruturação da pasta da saúde. Nomeado subsecretário e, posteriormente, diretor-geral do Hospital Geral de Palmas (HGP), assumiu o cargo de secretário Estadual de Saúde em maio de 2019. Ele representa o típico “soldado elétrico”, pronto para qualquer frente de batalha, dorme no máximo cinco horas por noite e tem um incrível senso humanitário. Seu lema é: “Nunca deixar um paciente desassistido”.

Luiz Edgar Leão Tollini é graduado em Medicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG) desde 1989, exerceu cargos de gestão em tecnologia, administração e saúde entre 2004 e 2010 no governo do Estado de Goiás. Entre 2012 e 2013 serviu ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) no Rio de Janeiro. A partir de 2016, assumiu a direção do Departamento de Atenção Hospitalar e de Urgência (DAHU) do Ministério da Saúde em Brasília (DF). Já em 2017, voltou a Goiás para exercer as funções de secretário da Saúde de Aparecida de Goiânia.

Os números de Covid-19, até agora, estão dentro do planejamento estratégico do Governo do Tocantins?
A população do Tocantins representa apenas 0,75% da densidade populacional do país, atualmente 212 milhões de pessoas. Se considerássemos o percentual médio do Brasil e aplicássemos ao nosso Estado, seria absolutamente natural se já tivéssemos 100 casos ou mais. Logicamente, conseguimos retardar a contaminação a partir do reforço na higienização, isolamento e consciência social, que são os fatores responsáveis por esses baixos índices.

A partir dos testes rápidos – não tão profundo e confiável quanto o exame microbiológico RT PCR realizado no Lacen – é provável que esses números cresçam um pouco, mas há riscos de resultados falsos positivos, visto que o teste rápido é eficiente apenas entre o sétimo e o décimo quarto dia.

Contudo, ante ao pânico da população, era necessário a implantação dos testes rápidos, mas o certo é que o ideal seria que todos os casos suspeitos fossem submetidos ao RT PCR, que utiliza a biologia molecular. Nele, uma amostra de secreção nasal e da garganta do paciente é levada ao laboratório para uma busca minuciosa pelo material genético do Covid-19. Esse exame é capaz de detectar o contágio em qualquer estágio, do primeiro dia até o 14º.

Uma dúvida que as pessoas têm é se procede a assertiva que, uma vez curado da Covid-19, o paciente cria anticorpos de defesa, sendo impossível se contagiar novamente…
Sim, é verdadeira essa afirmação. Decorridos os 14 dias isolado e, uma vez curado do vírus, a possibilidade do paciente ter novo contágio é 0%.

O isolamento social é, sem quaisquer dúvidas, a melhor alternativa?
O ranking que mostra nossa classificação como um dos piores Estados, em termos de isolamento, não é verdadeiro. Como é que somos um dos últimos no critério de isolamento e não temos nenhum óbito? Não faz sentido. Claro que houve alguns casos de flexibilização sem critérios, como em Tocantinópolis, Araguaína e Gurupi, entretanto, na capital – o maior contingente populacional – o isolamento tem sido rigoroso. Em Palmas, os resultados obtidos são extraordinários, na medida em que os testes positivos para o coronavírus foram mínimos.

Entendo que as pessoas precisam retomar suas atividades, mas esses estudos já estão sendo realizados pela equipe do governador. Gradativamente, vamos liberar as pessoas do isolamento de forma vertical, com todas as recomendações de segurança. Infelizmente, pouquíssimos países do mundo estavam preparados para enfrentar essa pandemia. Não temos a mínima condição de fazer testagem em massa, como ocorreu em Cingapura e na Coréia do Sul. Estamos agindo, portanto, dentro das nossas possibilidades, de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde.

“Não há comprovação científica da eficácia da cloroquina” | Foto: Divulgação

Em relação a outras potências mundiais, não apenas econômicas, mas também populacionais, a situação brasileira está em patamares razoáveis?
Não tenho quaisquer dúvidas. Os EUA, por exemplo, têm 300 milhões de habitantes e cerca de 300 mil casos positivados, o que representa 0,1%. Hoje no Brasil, para uma população de 210 milhões de pessoas, não temos nem 90 mil casos, ou seja, aproximadamente 0,045%. E mais: os pessimistas previram que até 6 de abril teríamos mais de 5.400 mortes decorrentes da infecção pelo coronavírus. Na data retromencionada, não havia nem 1.500 óbitos.

E no que concerne à utilização da hidroxicloroquina associada com azitromicina? Na condição de médico, poderia esclarecer qual é a eficácia desse tratamento contra o Covid-19?
As pesquisas ainda são muito incipientes, é muito difícil avaliar. Não há comprovação científica da eficácia. Em razão do histórico de cura em alguns casos, vamos avaliar a condição do paciente, entre os quais a gravidade do caso, idade avançada, etc. Se for o caso, poderemos, sim, ministrar este medicamento.

Cumpre ressaltar que, profissionalmente, temos que seguir os protocolos desses fármacos que, tem baixo custo, mas, na sua essência, são fabricados visando o tratamento da malária, artrite reumatoide e, também, para o lúpus.

E quanto à utilização de máscaras, tem eficácia?
É uma prerrogativa, utilizada para pacientes que tenham sinais ou sintomas, que precisam frequentar alguns locais. Porém, se o cidadão não está gripado, não está espirrando, não está tossindo, não tem coriza nasal e, nem tampouco, não viajou para outros locais e nem teve contato com pacientes em observação, não há sentido algum em usar máscaras. Lógico que não vai piorar, mas não resolve a questão.

Repito: a maior eficácia está no isolamento.

No que concerne ao aumento indiscriminado dos preços dos EPIs, quais foram as providências adotadas pela Secretaria de Saúde?
Algumas empresas exageraram nessa majoração e, infelizmente, estamos sujeitos a esse tipo de conduta por parte de alguns fornecedores. Reuni vários, acertamos as cotações, reduzimos a valores condizentes com a realidade e adquirimos os produtos.

Vários órgãos como o Tribunal Regional do Trabalho, o Tribunal de Justiça do Tocantins, Tribunal de Contas, entre outros, quiseram fazer doações monetárias, que se aproximavam de R$ 3 milhões ou 4 milhões, para ajudar no combate ao Covid-19. Não quis, por enquanto, receber tais valores, mesmo porque eu ficaria solitariamente responsável pela prestação de contas. Neste caso, sugeri a todos os doadores que adquirissem os equipamentos diretamente dos fornecedores e fizessem as doações à secretaria. Ainda não obtive resposta de nenhum deles.

Já recebi equipamentos da Companhia Siderúrgica Nacional pela essa mesma dinâmica. Eles queriam doar R$ 1 milhão de reais. Eu preferi que eles adquirissem e me mandassem os equipamentos e assim a Companhia o fez. Foram máscaras, óculos, aventais e capotes. Não me pergunte o preço, eu não quis saber o quanto eles pagaram. Eu apenas aceitei a doação.

Também quero parabenizar aqui o empresário Fabiano Parafusos, que arrecadou valores junto a um grupo de empresários, adquiriu 500 macacões e doou ao Hospital Geral de Palmas.

O Governo Federal enviou recursos para todos os Estados, inclusive o Tocantins, para o combate à pandemia. Como a sua pasta redirecionou os recursos recebidos e onde foram aplicados?
Recebemos na primeira etapa, cerca de R$ 3,2 milhões, à proporção de R$ 2,00 por cada habitante. Esse montante foi reservado para o Estado, na aquisição de materiais e outras urgências e emergências decorrentes da pandemia.

Posteriormente, chegaram mais R$ 4,5 milhões, à proporção de R$ 2,90 per capta. A autonomia para gerir esses recursos seria do Estado do Tocantins, todavia, compreendemos a necessidade dos prefeitos. Esta segunda parcela foi totalmente repassada aos municípios, o que não ocorreu, por exemplo, no Estado da Bahia.

“Fiquei chateado com a prefeita Cinthia Ribeiro” | Foto: Divulgação

Para Palmas, por exemplo, repassamos R$ 850 mil. Fiquei chateado com a prefeita Cinthia Ribeiro, no dia que ela disse, pelas redes sociais, que não tinha responsabilidades em montar hospitais de campanha e que isso era apenas obrigação do Estado do Tocantins. Ora, então seria melhor ela não ter aceitado os R$ 850 mil, porque se não há responsabilidades do município, seria melhor deixar que assumíssemos todas as obrigações.

Aliás, nós já o fazemos, porque a Prefeitura de Palmas não tem sequer um berço público – o que é uma vergonha – e nem mesmo um hospital materno infantil. Todos os partos ocorridos em Palmas – cerca de 2 mil por ano – estão a cargo do Estado, uma vez que as pacientes procuram o Hospital e Maternidade Dona Regina. No caso de complicações pós-parto, também é o Estado que cuida dos bebês no Hospital Infantil de Palmas. É lamentável esse tipo de “jogo político” em plena crise pandêmica que vivemos atualmente.

Especialistas afirmam que o pico da doença será em abril. O sr. acredita que os brasileiros estarão envolvidos com as consequências da pandemia até quando?
Iniciamos todas as tratativas ainda em fevereiro, preparando a rede, o isolamento, a diminuição das cirurgias eletivas, montamos o “comitê de crise” e diminuímos a ocupação dos nossos hospitais. Nosso primeiro caso foi em 18 de março e o pico será mesmo no mês de abril. Não estaremos livres de todas as consequências do coronavírus antes do final do mês de junho.

O Lacen tem capacidade para fazer 140 testes por dia e não temos nenhum exame pendente. Estamos nos organizando e, como já disse, faremos, de forma gradativa, a flexibilização vertical. As escolas, ainda não recomendo [a reabertura], por ser uma situação que promove aglomeração. Por isso, talvez ainda demore um tempo para que o governador libere a volta às aulas nos estabelecimentos educacionais.

Enfim, após as aquisições de ventiladores mecânicos entre outros equipamentos, qual será o legado e, porque não, o aprendizado que a crise mundial deixará ao Tocantins?
Em termos de equipamentos adquiridos, não resta dúvidas, vai ser um enorme ganho. Aumentaremos o nosso potencial de atendimento. Mas o aprendizado é que os brasileiros e, principalmente, os tocantinenses, passem a utilizar corretamente o SUS.

Muitas pessoas tem por costume lotar hospitais por causa de problemas que poderiam ser resolvidos em UPAs. Muitas vezes, entram na justiça e forçam o seu atendimento por liminar, também sem necessidade. Digo isso porque vivo, cotidianamente, essa realidade.

A prática de utilização das UTIs como salvação para doenças cotidianas não pode prevalecer, pois as UTIs existem para atender aqueles que realmente precisam, que só tem aquela chance de sobreviver.

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