“Enfrentei fogo amigo dentro do PT. Houve um grupo que trabalhou contra minha candidatura”

Primeiro deputado petista do Tocantins afirma que fake news atrapalharam candidaturas de correligionários e diz que um dos motivos da derrota de Carlos Amastha foi o seu abandono à esquerda

Deputado federal eleito Célio Moura | Foto: Reprodução

Esquerdista por natureza, Célio Moura é filiado ao PT desde sua criação, em 1980, quando um grupo bem heterogêneo — formado por militantes de oposição à ditadura militar, sindicalistas, intelectuais, artistas e católicos ligados à Teologia da Libertação — criaram a sigla partidária.

Após disputar várias eleições, como a de governador do Estado do Tocantins, em 1990 e 1998, prefeito de Araguaína, em 2004 e 2008, e senador da República, em 2006, elegeu-se, finalmente, deputado federal, em 2018, pelo quociente eleitoral, após obter 18.167 votos.

Célio Moura é mineiro de Arapuá, cidade localizada na região do triângulo mineiro, mas migrou para o Estado de Goiás ainda na década de 1960. Cursou Direito na Faculdade de Direito de Anápolis (Fada) de Anápolis e, no início da década de 1980, fixou-se em Araguaína, à época no norte de Goiás.

Foi idealizador da primeira subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) na região e participou da árdua luta pela redemocratização do país, como também pela divisão territorial que culminou com a criação do Estado do Tocantins em 1988. Advogado militante na área trabalhista, atua ativamente na defesa dos sindicatos e federações que representam as classes trabalhadoras.

Sua luta pelos direitos dos trabalhadores é antiga e se confunde com a batalha contra a ditadura militar. Em que circunstâncias esses posicionamentos nada convencionais começaram nortear sua vida?
Desde a década de 1970 participei de movimentos políticos engajado no PCdoB que, à época, em razão do regime militar, era apenas uma legião de simpatizantes e não um partido. Seus membros e outros insatisfeitos com a ditadura estavam infiltrados no MDB, no denominado bloco popular, lutando pela democracia. Lembro que estavam engajados no mesmo propósito nomes conhecidos em Goiás, como Aldo Arantes e Euler Ivo, por exemplo. Com o fim da ditadura e a abertura política, a grande maioria dos esquerdistas, entre os quais me incluo, filiaram-se ao PT, logo após sua criação no início da década de 1980.

E como é sua relação com essa sigla partidária?
É histórica, pois estou filiado desde o seu surgimento, quando o Brasil estava começando a ser redemocratizado. Sempre me identifiquei com as ideias e ideologias desta agremiação política, que sempre abriu espaço para o debate. Tal luta resultou na eleição do primeiro deputado federal do PT pelo Tocantins em 2018. Essa ascensão nos obriga a nos organizarmos ainda mais e fortalecer o partido para que possamos ter candidatura própria nas maiores cidades do Estado do Tocantins, em 2020, como também para o governo, em 2022. A mudança da legislação eleitoral, que acabou com as coligações, nos força, também, a lançar líderes para a disputa das próximas eleições proporcionais.

O sr. faz parte, atualmente, da direção do partido no Tocantins?
Não. Sou apenas membro do diretório. Já exerci cargos de vice-presidente, entre outros, mas, neste momento, não faço parte do quadro diretivo da sigla.

Em que pese o sr. ter sido eleito, seu companheiro de chapa, o deputado estadual Paulo Mourão, apesar de ter sido bem-cotado para se eleger ao Senado, não obteve êxito. Como o sr. avalia esta derrota?
Paulo Mourão fez uma campanha limpa e propositiva e era a minha aposta para se eleger senador. Nas grandes cidades, mais politizadas, como Palmas e Araguaína, as pesquisas indicavam que ele figurava entre os mais cotados para ser eleito. Entretanto, faltando dez dias para as eleições, infelizmente, a força do poder econômico entrou em cena, impedindo sua vitória. Além do dinheiro injetado pelos adversários nas campanhas, a série histórica de fake news contra o Partido dos Trabalhadores, atacando-o como uma facção criminosa, supostamente composta por bandidos, que deveria ser extirpada do processo político, também foi um fator preponderante e contribuiu para aquela derrota.

O sr. também sofreu com essas mesmas acusações nas eleições de 2018?
Sem sombra de dúvidas. Os adversários me mapeavam, descobriam onde estavam os meus votos e espalhavam essas notícias mentirosas no intuito de desconstruir minha candidatura. Além disso, enfrentei uma espécie de fogo amigo dentro do próprio PT. Houve um grupo de pessoas que trabalhou contra minha candidatura, como a nossa única vereadora em Araguaína, que apoiava outros candidatos. Por tais circunstâncias, considero que meu êxito está muito ligado à militância de vários anos na luta pelo direito dos trabalhadores, dos sem-terra, das etnias indígenas, dos negros, dos quilombolas, como também daqueles residentes nas zonas periféricas das cidades. Esse pessoal, os adversários, não conseguiram mapear e nem tampouco dissuadi-los de votar em mim.

Qual a sua reflexão acerca da atuação do PT no Tocantins?
Anteriormente, o partido era administrado por outro grupo, mas as condutas por eles adotadas nunca levaram a sigla a lugar algum. Uma espécie de fogueira de vaidades por parte daqueles dirigentes impedia que vivêssemos a essência das nossas ideologias.  Após a eleição do deputado estadual Zé Roberto à presidência estadual da sigla, o partido experimentou um crescimento grandioso. Nos aproximamos, novamente, dos movimentos sociais e sindicais e resgatamos uma parte da igreja, especialmente a pastoral da terra. Houve um crescimento substancial no número de candidaturas a deputado federal e estadual. Exemplificativamente, entre os 139 municípios, obtive votos em 137 deles e isso prova que nosso partido está mais do que vivo e coeso. Tenho convicção que o presidente Zé Roberto fortalecerá, ainda mais, o partido no Estado do Tocantins, aumentando o número de filiados e prestigiando a militância. Vamos voltar a ter prefeitos governando cidades com expressividade no cenário estadual, como Colinas e Araguaína, pois a sigla já governou vários municípios importantes, entre os quais a capital, onde deixou um legado. Faz parte dos nossos planos, inclusive, convencer o deputado estadual Paulo Mourão a transferir seu domicílio eleitoral de Porto Nacional para Palmas, permitindo que ele seja o nosso candidato a prefeito de Palmas em 2020.

Na condição de candidato a vice-governador, o sr. compôs a chapa encabeçada por Carlos Amastha (PSB) nas eleições suplementares. Se antes ele era considerado favorito, após a abertura das urnas não foi nem ao segundo turno daquele pleito. Quais fatores, na sua visão, contribuíram para o insucesso?
Amastha era muito conhecido na região central do Estado do Tocantins, mas a grande maioria da população do extremo sul e extremo norte não sabia quem era ele. A propaganda oficial de televisão, por exemplo, não é integrada e não chega ao Bico do Papagaio. Não há repetidoras do sinal de Palmas e as cidades localizadas nos extremos contam apenas com a programação televisiva oriunda do Pará, Maranhão ou Goiás.

Além disso, a renúncia à Prefeitura de Palmas lhe trouxe um certo desprestigio político. A população da capital reagiu negativamente porque, há muito pouco tempo, ela havia renovado os votos de confiança nele para administrar a cidade. Dessa forma, abandonando o compromisso firmado, a população deu a resposta. Se em 2016 a cidade lhe alçou à prefeitura com cerca de 68 mil votos, na eleição suplementar de 2018 para governador ele obteve pouco mais de 38 mil votos.

Já nas eleições ordinárias de outubro, além da inesperada renúncia que durou menos de 24 horas, creio que sua derrota está relacionada à mudança política no que concerne às alianças. Ele abandonou a esquerda que o havia apoiado por tantos anos para se juntar à centro-direita por meio de políticos antigos e desgastados, cujas condutas ele havia criticado por várias vezes.

E quanto ao cenário nacional, não há que se fazer uma reflexão acerca dos equívocos cometidos por membros do PT, que acabou por culminar com a derrota na disputa presidencial em 2018?
O imperialismo americano, há muito tempo, tem interesse que grupos de direta assumam os países que ocupam posições estratégicas, como é o caso Brasil. Desde a eleição do ex-presidente Lula da Silva, este fato tem ocorrido. Há uma espécie de massificação contra a esquerda. Verdadeiras frentes nas redes sociais especializadas em lançar denúncias infundadas, que visam impedir que a esquerda chegue ao poder. Vários são os exemplos, como ocorreu em 2010 com Lula da Silva, em 2014 com Dilma Rousseff, no golpe travestido de impeachment em 2016, na prisão do ex-presidente Lula e, por fim, na saraivada de ataques contra o Fernando Haddad em 2018.

Especificamente neste último pleito, a direita tinha como candidato principal o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin e não Jair Bolsonaro. Ocorre que a campanha de Alckmin não decolou e Bolsonaro, que até então corria por fora, assumiu a postura e os votos da direita. É necessário lembrar que, enquanto Lula da Silva figurava como candidato, até 23 d setembro, ele liderava as pesquisas e Bolsonaro estava empacado em 17%. Só após o TSE [Tribunal Superior Eleitoral] declará-lo inelegível foi que o Bolsonaro disparou nas pesquisas e ganhou a eleição.

Mesmo assim, é necessário frisar que o PT ainda obteve 47 milhões de votos, o que significa que o partido está vivo, fortalecido e que representamos uma grande parcela da população. Elegemos 57 deputados federais, seis senadores e 4 governadores, além de inúmeros deputados estaduais. Vamos, sim, fazer autocríticas sobre os equívocos cometidos, mas posso garantir que, na oposição, somos ainda mais fortes.

O sr. fará uma oposição sistêmica ao governo Bolsonaro?
Não exatamente. Por certo, em quatro anos, haverá projetos propostos por ele ou pela base aliada dele que serão bons para o Brasil e, neste caso, caso beneficiem a população, votarei a favor. Contudo, não farei o jogo da direita, que tem o firme propósito de tirar direitos dos trabalhadores. Temas como a reforma da Previdência, reforma trabalhista, extinção dos ministérios do Meio Ambiente e dos Direitos Humanos terão sempre o meu voto contrário. Já a extinção do Ministério do Trabalho, na minha visão, é um retrocesso, uma aberração. É o ministério mais antigo, em atividade desde a época de Getúlio Vargas. Isso é um massacre à classe trabalhadora. Temos, hoje, 14 milhões de desempregados e vamos acabar com o Ministério do Trabalho? Não é um contrassenso? Atrapalhará ainda mais a geração de empregos e causará uma crise social sem precedentes, evidentemente.

Qual a sua percepção acerca do período de transição que antecede o governo Bolsonaro?
Alguns ministros que ele indicou tem problemas com a Justiça, a começar pelo Onyx Lorenzoni. A motivação que norteou a campanha dele, o combate à corrupção, não pode ser apenas um pano de fundo, como ocorreu com Collor de Melo, o caçador de marajás. A preservação dos princípios democráticos de direito também é um tema preocupante em relação a esse governo. O povo brasileiro é alegre, pujante e trabalhador, mas não aceita a falta de liberdade de expressão ou implementação da ditadura novamente.

A cidade de Araguaína continua bem representada na Câmara dos Deputados, mesmo perdendo os parlamentares César Halum e Lazaro Botelho, uma vez que Tiago Dimas e o sr. se elegeram. Em termos de representatividade da região, como será a condução do seu mandato como deputado federal?
Lutarei pelos menos favorecidos, como sempre fiz. Meu eleitorado é composto por minorias que clamam por representatividade. É lógico que vou prestigiar, e muito, a minha cidade, Araguaína. Apresentarei emendas que a beneficiem, como também outros municípios do norte do Estado. Contudo, essas emendas serão discutidas com as comunidades, observando as suas verdadeiras necessidades. Nada de emendas que não beneficiam a população em conchavo com prefeitos. Alguns distritos, vilas ou assentamentos, muitas vezes com mais de mil pessoas, não recebem sequer um posto de saúde ou escola básica, que são benefícios primários. Por que não asfaltar a via de acesso a esses locais, auxiliando no escoamento dos produtos que eles produzem? Não são apenas os centros urbanos que precisam de obras de infraestrutura. Por isso, minha legislatura terá primazia por esse povo sofrido e carente do nosso Tocantins.

E no que concerne às emendas de bancada e outros temas institucionais que fazem parte da rotina dos gabinetes do Congresso Nacional?
Logicamente, debateremos com os demais colegas e lutaremos por mais benefícios para o Tocantins. Entretanto, uma das minhas bandeiras é a implantação e funcionamento da UFNT [Universidade Federal do Norte do Tocantins], com sede em Araguaína. Ela foi criada ainda no governo da ex-presidente Dilma Rousseff, mas, até hoje, não saiu do papel. Outros desmembramentos de universidades federais, como é o caso de Catalão e Rio Verde, em Goiás, Rondonópolis, no Mato Grosso, e Parnaíba, no Piauí, já estarão funcionando a partir de 2019. Por sua vez, a UFNT ainda não se consolidou e se arrasta nas comissões das casas legislativas em Brasília. Portanto, esta é uma das minhas metas enquanto deputado federal, além de incentivar e fomentar o crescimento do Instituto Federal de Educação do Tocantins, haja vista que o tema educação deve ser prioritário.

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Adelmário Alves dos Santos

Excelente entrevista meu Deputado…Boa sorte nesse mandato…a classe trabalhadora do Tocantins e do Brasil confiam em você…#Lula Livre…