“Acho muito difícil impedir que haja investigação”

Deputado do PT avalia que maioria dos pares votará a favor do processo de impeachment do governador afastado Mauro Carlesse

Zé Roberto Lula, deputado estadual pelo PT: “Está claro que a disputa vai entre Lula e Bolsonaro” | Foto: Fábio Coelho

O deputado estadual Zé Roberto Lula (PT), que integra a Comissão Especial Processante que analisa a admissibilidade do impeachment do governador afastado Mauro Carlesse (PSL) é cauteloso quanto ao desdobramento do processo. Prefere não fazer previsões sobre o resultado da votação do relatório final pelo plenário da Assembleia Legislativa, que deve acontecer esta semana. O deputado admite, porém, que a maioria dos parlamentares deseja aprofundar as investigações para entender os motivos do afastamento. “Não sei como pensa a maioria, mas acho muito difícil impedir que haja a investigação por parte da casa que por lei é o (órgão) fiscalizador”, defende o parlamentar.

Zé Roberto, que é presidente regional do PT, garante que o partido está pronto para as eleições. “É a primeira vez na história do Partido dos Trabalhadores que nós temos mais de 100 diretórios e comissões provisórias. Queremos chegar a 120 no período eleitoral. Nós temos a nossa chapa completa de candidatos a deputado estadual e a federal. Temos um pré-candidato ao governo do Estado (Paulo Mourão) e temos alguns companheiros inscritos tanto para vice-governador como para senador”, ressalta, pontuando que o partido trabalha com a meta de ampliar a bancada estadual, que tem dois deputados, e a representação na Câmara Federal, que conta apenas com um.

O deputado é crítico ao modelo adotado no Estado, que concentra renda em vez de distribui-la e, segundo ele, é o grande responsável pelos baixos índices de desenvolvimento – um terço da população vive com uma renda de menos de R$ 400. “Esse modelo não foi capaz de melhorar a vida da maioria das pessoas. Gerou bilhões e bilhões de riqueza para construir tudo que construímos nestes últimos anos; Palmas foi construída do nada; então, para construir Palmas, se gastou uma fortuna e esse dinheiro ficou concentrado nas mãos de poucos. E isso é um problema para o nosso Estado: nunca houve oportunidade para o povo daqui participar desse processo”, condena.

José Roberto Ribeiro Forzani, de nome político Zé Roberto Lula, é goiano de Pirenópolis, servidor público federal, pioneiro no Tocantins. Deputado no terceiro mandato, atual presidente regional do PT, nesta entrevista ao Jornal Opção, além de falar sobre o impeachment, projetos do PT para as eleições e necessidade de mudança do modelo de desenvolvimento do Estado, ele enumera alguns desafios que aguardam o próximo governador.

Nesta semana a Assembleia decide sobre a abertura ou não do processo do impeachment. O relatório é pela admissibilidade. A cassação começa a ser uma possibilidade?

Eu faço parte da comissão que discutiu a admissibilidade. Claro que não posso revelar o meu voto. Aqui estão os relatórios que eu recebo. Leio tudo com muita atenção, com o devido cuidado. Quero dizer que não é uma situação fácil para nós. Primeiro, que a situação do Estado é muito complicada. Segundo, o governador Carlesse, por mais que você possa ter uma posição diferente, foi deputado junto conosco, tudo mundo tem amizade, então a gente fica numa situação difícil. Sou deputado há três mandados, jamais pensei na minha vida que iria passar por tanta substituição, votar tantas vezes substituição de governador, como votamos. Mas é um debate e a tendência talvez seja de discutir o impeachment pela maioria dos deputados. É esperar para ver. Por tudo que já aconteceu eu penso que o mais difícil é a gente pelo menos não dar oportunidade do governador (Mauro Carlesse) se defender. Na realidade mesmo, o processo de afastamento do governador ninguém teve acesso. Pelo menos eu não tivesse acesso e a maioria dos deputados. A gente precisa pelo menos conhecer isso. Então é um momento difícil para nós, para todo o Estado, por tudo que se passa, muita insegurança, isso nunca é bom.

Para acatar o pedido do impeachment e no âmbito da comissão foram votações por unanimidade. Esse consenso pode se repetir na votação decisiva do relatório no plenário?

Como não investigamos, parece-me que a tendência das pessoas é ver o que aconteceu realmente. Aí ficamos naquela situação que se você proibir que haja investigação pode estar acobertando isso. Esse é o que eu penso que é mais ou menos o pensamento dos deputados. Olha, temos a denúncia, o governador foi afastado e pelo menos a investigação parece que tem que ter. Acho que é um pouco disso que é o sentimento dos deputados que vai ser levando ainda ao debate. São conversas que a gente vai fazendo, uma coisa muito individual, de cada deputado, não tem como ajustar. Cada um tem o seu nível de compreensão, de amizade com as pessoas envolvidas neste processo todo, então é um momento difícil. Não tem nada à priori, já decidido, porque a gente nem conversa sobre isso. A gente vai analisar. O que eu vejo é que a gente não permita que não haja investigação.

O relatório que será votado se baseou nas investigações que estão sendo analisadas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), a defesa do governador diz que não há como responsabilizá-lo, pois, as investigações ainda estão em curso e que, portanto, não é um fato concreto que justifique o impeachment. Como o senhor avalia essas considerações?

Esse é o debate. Esse é o ponto. Essa comissão não vai fazer investigação. Ela não é para esta finalidade. Se fosse, teríamos pedido documentos, oitivas, não é nada disso. Nós não temos o papel de fazer isso. Essa primeira comissão votando em tese a admissibilidade, há indícios? Afastou um governador por causa de nada? Não tinha nada e alguém resolveu afastá-lo? Então essa é a situação. Não sei como pensa a maioria, mas acho muito difícil impedir que haja a investigação por parte da Casa que por lei é o (órgão) fiscalizador.

Com o debate do impeachment se especula quais as alternativas que o governador afastado teria. Juristas defendem que a melhor alternativa seria negociar o impeachment preservando os seus direitos políticos. Haveria clima na Assembleia para esse tipo de negociação?

Que eu tenha conhecimento não. Acredito que até para preservar os deputados não há nada neste sentido. Eu, pessoalmente nunca tive contato e penso que os deputados também não tiveram contato, pois fica muito melindroso. Não há nenhum contato neste sentido e dificilmente uma proposta desta prosperaria no meio dos deputados.

Como o PT explica o apoio ao governador Carlesse, inclusive na votação de matérias que provocaram o seu afastamento?

Essa pergunta acho que muita gente tem vontade de fazer e muitas pessoas que me fazem essa indagação. Você já viu que tem o Dieese [Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos], que diz lá no Congresso quem é oposição e quem não é? Eles (do Dieese) estabelecem critérios. Esses critérios não são qualquer votação. São aquelas votações que são estruturantes. São votações econômicas… e a realidade é diferente do que você está colocando. Então, no critério que o Dieese tem para o Congresso Nacional só existe eu de deputado que fui oposição. Nenhum outro foi. Eu me opus a todo o processo de privatização do Jalapão, da entrega das riquezas, fomos sempre contra.

Nós do PT temos outra companheira que é a deputada Amália. Ela tem a sua posição, muitas vezes não segue a posição do partido. Tem alguma dificuldade dentro do partido por isso. No critério do Dieese só o deputado Zé Roberto foi oposição a todo o processo de desmantelamento do Estado do Tocantins com as políticas que Mauro Carlesse implantou neste Estado.

O PT retoma a agenda de encontros regionais com vistas às eleições. O que o partido está levando de mensagem para a sociedade e qual é a expectativa com a retomada da Caravana da Mudança?

Nós estamos absolutamente prontos e preparados para as eleições. É primeira vez na história do Partido dos Trabalhadores que nós temos mais de 100 diretórios e comissões provisórias, queremos chegar a 120 no período eleitoral. Nós temos a nossa chapa completa de candidatos a deputado estadual e a deputado federal. Temos, um pré-candidato ao governo do Estado (Paulo Mourão) e temos alguns companheiros inscritos tanto para vice-governador como para senador. Então o partido dos trabalhadores está organizado, e está pronto para disputar estas eleições. Acreditamos que vai ser um bom resultado para nós, e além do mais temos candidato a presidente da República, é o presidente Lula. Nós iniciaremos esses encontros que já era para ter iniciado há mais de mês, mas infelizmente com a pandemia tivemos que suspender. Então hoje nós estamos prontos. Vamos ajustar o nosso discurso, junto à nossa base, junto aos nossos diretórios, junto aos nossos simpatizantes para que a gente comece a percorrer o Estado, cada município, naquilo que nós estamos propondo.

O PT hoje tem dois deputados estaduais e um federal. Qual é a meta do partido nestas eleições?

Nós queremos ampliar a nossa bancada estadual, queremos eleger o governador do Estado, ampliar a bancada federal. Essa é nossa meta. Não é uma meta fácil, exatamente por conta das mudanças que tivemos na legislação. Uma coisa ainda muito difícil para se ter uma novação, ainda não dispomos de dados. Talvez se o Congresso não tivesse feito essa mudança na última hora que foi de diminuir o número de candidaturas, o universo dos Partido dos Trabalhadores era mais tranquilo. Porque nós sempre tivemos chapa e a nossa construção sempre foi coletiva e não individual. Nossas candidaturas são eleitas não porque somos os mais votados, mas porque temos uma chapa que somando é das mais votadas. Eu acredito que com a eleição do nosso presidente Lula aqui no Estado sairemos fortalecidos.

Qual vai ser a estratégia do partido para montar palanque forte para o presidente Lula que sabemos é a prioridade?

Evidentemente que é prioridade zero para nós eleger o presidente Lula, mas também eleger uma bancada de companheiros e companheiras do Partido dos Trabalhadores e de partido de posição semelhante com a nossa para diminuir os problemas que tem gerado em nosso Estado e no Brasil com um Congresso dissociado da vontade daquele projeto que foi eleito presidente, bem como dissociado também da população. Neste sentido, além da gente fazer o nosso trabalho, é o momento na história em que o PT está mais organizado para a eleição. Sou filiado aqui há 30 anos, esse é o momento que estamos mais fortalecidos para a disputa. Tem feito conversas com alguns partidos, com algumas personalidades para nos fortalecer. Com o acirramento no Brasil tudo isso ainda está na fase inicial. Está claro que a disputa vai entre Lula e Bolsonaro, é difícil mudar, mesmo assim, isso também deixa alguns partidos meio no compasso de espera. No nosso partido, no nosso campo nós só vamos ser fortalecidos neste período, mas dentro do critério do alinhamento político semelhante ao que pregamos.

Como fica o apoio a senadora Kátia Abreu (PP) que me parece ser uma recomendação do presidente Lula, em função da sua lealdade ao governo do PT. É possível esse apoio, mesmo a senadora estando em palanque diferente.

Tudo isso nós vamos conversar. A senadora Kátia evidentemente tem uma relação com o nosso partido. Desde a presidente Dilma. É uma pessoa que a gente gosta, que a gente estima muito. Dentro do nosso partido não há nenhuma resistência a senadora Kátia Abreu por tudo aquilo que ela já demonstrou durante a sua trajetória política. Já conversei algumas vezes com ela e não sabemos ainda como fazer. Diria que dentro do PT a senadora não teria nenhuma dificuldade de obter o apoio, se esse for o caminho que gente vá escolher. Está tudo ainda muito no início, ela participa de um partido que é principal base do Bolsonaro, mas a gente sabe como estes partidos funcionam. Na verdade, nos Estados cada um está livre para fazer a articulação que desejar fazer. Inclusive ficar contra o governo Bolsonaro. Isso é natural.  A senadora Kátia tem o nosso reconhecimento e não tem nenhum problema, caso a gente decida apoiá-la.

Deputado, o que o senhor considera como o grande desafio para o próximo governador. A moralização da coisa pública que impacta diretamente na credibilidade da gestão ou a recuperação da capacidade de investimento do Estado que impacta no seu desenvolvimento?

O modelo de desenvolvimento que se implantou nesse Estado se mantém independente do governante que esteja no poder. Esse modelo não foi capaz de diminuir o número de pobres desse Estado. Ele não foi capaz de melhorar a vida da maioria das pessoas. Gerou bilhões e bilhões de riqueza para construir tudo que construímos nestes últimos anos. Palmas foi construída do nada, então para construir Palmas se gastou trilhões e esse dinheiro ficou concentrado nas mãos de poucos. E isso é um problema para o nosso Estado. Porque nunca houve oportunidade para o povo daqui participar desse processo. Os dados revelam que no Tocantins nós temos 600 mil pessoas que vivem com renda de R$ 400 pra baixo. No Tocantins quem ganha mais de dois salários mínimos já é um privilegiado. Porque isso é só 12% da população.

O próximo governador precisa corrigir isso. Não tem cabimento. Você não pode criar um modelo de desenvolvimento que concentra a riqueza e não distribui, não possibilita as pessoas melhorarem de vida. Nós estamos num Estado que metade da população nem casa tem para morar. Nós precisamos repensar esse modelo. Vou propor um debate aqui na Assembleia em torno do projeto que o governo enviou propondo redução de alíquota para frigorífico. Sou contra isso, saber porquê? Nenhum centavo da carne vai diminuir para o nosso povo. Vai ter uma redução na arrecadação e não vai resolver em nada. Eu penso muito ao contrário disso.

Ontem eu tive em Novo Acordo e Aparecida do Rio Negro, as estradas tudo esburacadas, mas o que que tem aí, a soja, que não rende nada de imposto para o Estado. Destrói a estrada vicinal, destrói o meio ambiente, polui o Estado todo e paga zero de imposto. Esse modelo é que está errado. É muito cômodo para as pessoas, eu ganho a riqueza com apoio do Estado e jogo a despesa para outros pagarem. É esse modelo que na minha visão, que foi implantado no início do Estado e permanece. Quando éramos Goiás, existia 85% das famílias pobres e hoje ainda existem 85% de pessoas pobres. Éramos 300 mil habitantes, hoje somos 1,6 milhão, então aumentou o número de pobres. Esse modelo que precisamos mudar. Tenho batido muito nesta questão. Inclusive agora estou apresentando um projeto de transferência de renda para as mães em situação de vulnerabilidade. Não tem como fechar os olhos para o que está acontecendo. Eu acredito que a gente tem que mudar mesmo. E a mudança é botar para pagar imposto quem tem dinheiro, porque eles não pagam. E aliviar para quem não tem condições.

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