Catherine Moraes e Kamylla Rodrigues

Em todo o mundo, 47% das mortes infantis ocorrem nos primeiros 28 dias de vida, no chamado período neonatal e grande parte está associada a infecções que podem ser prevenidas por meio de vacinação materna. Atualmente, pelo menos cinco vacinas (a depender do histórico da mãe) são recomendadas para gestantes no Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde e protegem mães e bebês contra graves infecções e doenças que podem levar à morte. Na lista, constam dTpa (protege contra difteria, tétano e coqueluche), Hepatite B, Influenza, Covid 19 e VSR (implantada em 2025, contra o Vírus Sincicial Respiratório e protege contra infecções respiratórias graves, como a bronquiolite e a pneumonia). 

A imunização garante benefícios não apenas para a mãe, mas também para os bebês por meio de um processo chamado de imunização passiva. Infelizmente, nem todas as metas estabelecidas pelo Ministério da Saúde foram alcançadas nos últimos anos. Dados parciais de 2026 revelam que as taxas de imunização para gestantes contra Covid-19, dTpa e Influenza estão abaixo do preconizado nacionalmente. A única vacina que tem alcançado altos índices é a VSR, que previne contra infecções respiratórias graves como bronquiolite e pneumonia, mas apesar de Goiás ter chegado a 84,81% superando os 80% que é meta do país, Goiânia está um pouco atrás e conseguiu imunizar 70,54% deste público. 

No início de setembro, um webinar organizado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alertou sobre as coberturas de vacinação materna que continuam insuficientes em grande parte das Américas e das mortes envolvendo doenças como coqueluche, tétano neonatal e vírus sincicial respiratório (VSR). Na ocasião, o diretor da OPAS, Jarbas Barbosa afirmou que o acesso oportuno às vacinas recomendadas, acompanhado de informações confiáveis, claras e compreensíveis, é essencial para ampliar essa proteção e contribuir para um melhor início de vida. “A vacinação durante a gestação é uma das intervenções de saúde pública mais seguras e custo-efetivas. Não apenas protege a gestante, mas oferece ao recém-nascido uma proteção fundamental durante seus primeiros meses de vida”, acrescentou. 

Covid-19 e Influenza

Desenvolvida pelo Programa de Pós-graduação em Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste (PPGSD) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a Caracterização epidemiológica da mortalidade materna por Covid-19 no Brasil revelou 6.922 casos em gestantes no ano de 2020 e 12.576 em 2021. Deste total, 462 óbitos foram confirmados no primeiro ano da pandemia e outros 1.518 em 2021. Nos bebês menores de 6 meses, a alta mortalidade também foi uma das grandes preocupações: 761 óbitos entre 2020 e 2021, apenas no Brasil, conforme levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

Em Goiás, o cenário também foi preocupante, como no restante do país. Em 2020, foram registradas 14 mortes de gestantes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) associada à Covid-19, número que alcançou 69 óbitos em 2021. Com a chegada da vacinação, os anos seguintes registraram uma redução expressiva, com dois óbitos em 2022 e um em 2023. Não houve registro de mortes de gestantes por Covid-19 ou influenza em 2024, 2025 e 2026 (dados parciais). “Ao todo, entre 2020 e 2026, Goiás contabilizou 86 óbitos de gestantes por SRAG, todos associados à Covid-19, sem registro de mortes causadas por influenza nesse período”, explica a Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO).

No que diz respeito às crianças menores de 6 meses, entre os anos de 2020 e 2026, Goiás registrou 646 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) causados por Covid-19. No mesmo período, ocorreram 41 mortes de bebês na faixa etária, causados pela doença. As mortes foram mais frequentes entre 2020 e 2023, com 7 (2020), 9 (2021), 12 (2022) e 7 (2023) óbitos, respectivamente, reduzindo para 5 em 2024, 1 em 2025 e nenhum registro em 2026.

Dados da SES-GO também explicam que as internações de gestantes por SRAG associada à Covid-19 ou influenza apresentaram forte impacto durante a pandemia e redução significativa nos anos posteriores. Em 2020, foram registrados 182 casos graves que necessitaram de internação, número que chegou a 549 em 2021, o maior da série histórica. A partir de 2022 houve queda acentuada, com 80 internações, seguida de 32 em 2023 e 19 em 2024. Em 2025 houve novo aumento, com 39 internações, enquanto em 2026, até 25 de agosto, já haviam sido contabilizados 22 casos. No período de 2020 a 2026, foram registradas 923 internações de gestantes por SRAG, sendo 834 relacionadas à Covid-19 e 89 à influenza. 

A primeira imunização infantil contra a Covid-19 acontece aos 6 meses, mas antes disso o bebê é protegido pela vacina aplicada na mãe, ainda durante a gravidez. Ao invés de o próprio organismo do recém-nascido produzir as defesas, recebe anticorpos prontos que são criados pela mãe logo após ela receber a dose do imunizante. Os anticorpos atravessam a placenta e entram na circulação sanguínea do bebê. A transferência ocorre de maneira mais eficaz no terceiro trimestre da gestação e a proteção segue de forma mais intensa nos primeiros seis  meses de vida, prevenindo infecções graves e hospitalizações antes que ele mesmo receba a vacina. 

Os benefícios também podem ser repassados pelo leite materno. Se a mãe se vacinar durante a gestação ou ainda enquanto estiver amamentando, os anticorpos passam para o leite materno e enquanto mama o bebê recebe doses diárias. Eles atuam revestindo a boca, a garganta e ainda o trato intestinal do recém-nascido, criando uma barreira física de defesa local contra o vírus. 

A imunização contra a Covid-19 reduz o risco de formas graves da doença, hospitalizações, partos prematuros e óbitos fetais. A meta do Ministério da Saúde é imunizar 90% das gestantes anualmente, mas os números ainda mostram um longo caminho a ser percorrido. No ano passado, o país alcançou apenas 54,94% da cobertura para este público. Em Goiás, o percentual foi ainda mais baixo: 38,48%, mas superava em muito os 2,29% de 2024. Goiânia, entretanto, superou a média nacional, com 66,53% de cobertura. Os dados parciais de 2026 revelam 55,32% no Brasil, 46,85% em Goiás e 85,77% na capital goiana. 

Vice-presiente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri destaca estudos que garantem segurança das vacinas | Foto: SBIm

Para o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, uma das formas de ampliar a adesão é reforçar uma mensagem simples: a vacinação durante a gravidez pode representar proteção para os dois. “A ideia de você proteger seu filho, a comunicação de que você se vacina para proteger o bebê, isso é muito estimulante para qualquer mãe e, portanto, é uma ação que precisa ser melhor comunicada.”

No caso da Covid-19, o especialista destaca que já existem estudos avaliando a segurança da vacinação durante a gestação. Segundo ele, pesquisas realizadas com mais de 400 mil gestantes, especialmente em países nórdicos, não identificaram aumento de riscos como malformações, parto prematuro, baixo peso ao nascer ou doenças hipertensivas da gestação.

“As vacinas de RNA mensageiro, que são as utilizadas atualmente em gestantes, são extremamente seguras. Para as demais vacinas, tanto VSR quanto coqueluche, tétano e Influenza, nós já temos dados muito mais robustos em relação à segurança.”

Além da proteção contra doenças que podem afetar a própria gestante, alguns imunizantes têm como principal objetivo proteger o bebê. É o chamado conceito de proteção dupla: em determinados casos, a vacinação reduz o risco para a mãe e também transfere anticorpos para o filho; em outros, o foco principal é a proteção do bebê nos primeiros meses de vida.

A tendência, segundo o especialista, é que esse calendário seja ampliado nos próximos anos. Novas vacinas estão em desenvolvimento para doenças que também podem representar riscos durante a gestação ou para o bebê, como a infecção pelo estreptococo do grupo B, o citomegalovírus e o vírus Zika.

A incorporação desses novos imunizantes, porém, depende da comprovação de eficácia e segurança e do cumprimento das etapas de aprovação. A perspectiva é de que a vacinação durante a gravidez tenha papel cada vez maior na prevenção de doenças e na proteção dos primeiros meses de vida da criança.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (SMS) explicou que a vacina contra a Covid-19 pode ser realizada em qualquer fase da gestação, ampliando as oportunidades para a imunização. Já as vacinas dTpa e contra o VSR possuem período específico para aplicação durante a gestação, sendo a dTpa a partir da 20ª semana e a vacina contra o VSR a partir da 28ª semana, o que pode contribuir para diferenças nas coberturas. “A SMS reforça que a vacinação das gestantes integra as ações de rotina da rede municipal e deve ser verificada durante todo o acompanhamento pré-natal, com orientação, oferta dos imunizantes e atualização da situação vacinal”, acrescentou. 

Pacto coletivo 

Ana Paula Vieira teve Covid na gestação, mas estava imunizada e sintomas foram leves | Foto: arquivo pessoal

Quando engravidou, em 2022, a jornalista Ana Paula Vieira de Souza já tinha recebido doses da vacina contra a Covid-19. Por ser asmática, ela teve acesso à imunização antes de outras pessoas da mesma faixa etária. Durante a gestação, também recebeu uma das doses recomendadas para aquele período. Na época, ainda havia muitas dúvidas sobre a doença e seus efeitos durante a gravidez. Mesmo assim, Ana Paula não teve receio de se vacinar. Para ela, além da própria proteção, existia a possibilidade de a imunização também contribuir para proteger o bebê que estava esperando.

“Eu lembro que achei ótimo, porque, naquela época, ainda não se tinha muita explicação científica sobre todos os detalhes, mas a gente imaginava que, de certa forma, aquela dose pudesse também proteger o bebê. Eu não fiquei com medo. Assim que eu pude tomar, fui lá e tomei mais uma dose”, conta.

A preocupação com a vacinação não começou na gravidez. Ana Paula conta que sempre procurou manter a própria imunização em dia e, durante o pré-natal, seguiu as orientações da obstetra para receber todas as vacinas indicadas para cada período da gestação. Entre elas estavam a dTpa, contra difteria, tétano e coqueluche, a vacina contra a gripe e a da Covid-19. “Eu tomei todas as vacinas recomendadas no período recomendado com orientação da minha obstetra”, afirma.

A mesma preocupação continuou depois do nascimento de Nikola, hoje com quatro anos. Ana Paula buscou informações sobre as vacinas indicadas para a criança e chegou a recorrer à rede particular quando havia possibilidade de ampliar a proteção ou antecipar alguma dose. O que estava disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS), no entanto, continuou sendo utilizado pela família. 

A experiência com a Covid-19 durante a própria gestação reforçou essa percepção. Aos oito meses de gravidez, mesmo tendo seguido medidas de proteção e evitado sair de casa durante a pandemia, Ana Paula foi infectada. Teve sintomas semelhantes aos de uma gripe e precisou aplicar cerca de dez doses de Clexane, um anticoagulante, por orientação médica.

Apesar do medo de que a doença pudesse afetar a gestação, ela conta que não teve complicações graves. “Eu já tinha tomado duas ou três doses. Não lembro se, na gestação, foi a segunda ou a terceira, mas as vacinas têm esse efeito. Você pode ter sintomas, mas a vacina reduz muito a possibilidade de ter sintomas graves e complicações.”

Hoje, quatro anos depois do nascimento do filho, ela acompanha com preocupação o crescimento do movimento antivacina e a circulação de informações falsas sobre imunizantes. Como jornalista, diz sentir ainda mais incômodo diante da disseminação de conteúdos que, segundo ela, não têm respaldo científico.

Hoje, Nikola tem 4 anos e já teve bronquiolite mais de uma vez. Mãe defende vacina como pacto coletivo | Foto: arquivo pessoal

“Eu lamento muito que essas ideias estejam tomando tanta proporção, porque elas não são baseadas em evidências científicas. Na verdade, são resultado de desinformação, de má compreensão da importância que as vacinas têm historicamente”, afirma. A preocupação ficou ainda mais próxima da realidade da família porque Nikola já está em idade escolar e teve bronquiolite mais de uma vez. “A vacina é um pacto coletivo. Não adianta só algumas pessoas estarem protegidas. Por exemplo, numa escola, meu filho já está em idade escolar. Todos estarem vacinados protegem uns aos outros”, afirma.

Ela também comemora a ampliação da proteção contra doenças respiratórias e cita a chegada da vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR), relacionada à prevenção de casos graves de bronquiolite em bebês. Durante a gravidez de Nikola, esse recurso ainda não estava disponível para ela. “Eu fiquei muito feliz com a vacina da bronquiolite, porque, na minha época, eu ainda não tinha, ou a vacina ainda não era liberada para grávidas. Meu filho teve bronquiolite mais de uma vez. Então, com certeza, teria ajudado também em certa medida.”

Adesão expressiva à vacina contra VSR

Vacinação contra VSR foi incorporada no SUS no final de 2025 | Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

A vacinação contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), incorporada mais recentemente ao calendário para gestantes – no final de 2025, tem como meta imunizar 80% das grávidas no país. A adesão, por sua vez, avançou de forma expressiva. Dados parciais revelam cobertura de 85,07% no país. Em 17º lugar no ranking por estados, Goiás alcançou 84,81%. Na capital do Estado, 70,54% já receberam a imunização. Os dados são parciais do Painel de Gestantes de consulta realizada em 4 de setembro de 2026 e considera os registros da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) referentes às doses aplicadas até 1º de agosto de 2026. 

Os reflexos da vacina são perceptíveis nas internações e casos graves. Dados apresentados pelo Ministério da Saúde (MS) na 7ª Reunião Ordinária da Comissão Intergestores Tripartite (CIT), no início de julho, mostraram queda de 52,5% nos casos de VSR em bebês menores de seis meses comparando os primeiros seis meses de 2025 com o primeiro semestre de 2026. Na ocasião, o MS também apresentou um estudo que estimou que aproximadamente 6,8 mil casos graves foram evitados entre crianças na faixa etária. 

No ano passado, o VSR provocou a morte de 162 crianças com menos de 6 meses no Brasil. Destes, 8 foram em Goiás que além dos óbitos registrou 789 casos no ano passado. Em 2026 já são 391 casos e 4 óbitos entre os bebês menores de 6 meses segundo dados da SES-GO. 

“Em 2025, foram registrados 249 casos de bronquiolite em crianças menores de 1 ano em Goiânia e, em 2026, 178 casos. Entre crianças menores de 2 anos, foram registrados dois óbitos por bronquiolite associada ao VSR em 2025 e nenhum em 2026 até o momento”, afirmou, em nota a SMS de Goiânia. 

A SES GO explica que duas estratégias estão sendo disponibilizadas pelo PNI para a prevenção da bronquiolite causada pelo Vírus Sincicial Respiratório, a vacina VSR incorporada ao calendário de vacinação da Gestante em 2025 e o anticorpo monoclonal nirsevimabe em 2026, indicado para prematuros nascidos com idade gestacional menor ou igual a 36 semanas e 6 dias e crianças com comorbidades até 2 anos de idade. Diferente da vacina, que estimula a produção de anticorpos, a aplicação nos bebês é de um anticorpo pronto. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 119 mil doses já foram aplicadas no país. 

Em Goiânia, segundo informações da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) em 2026, foram administradas 1.722 doses de nirsevimabe até o início de setembro, conforme os registros disponíveis. A oferta contempla grupos elegíveis, incluindo crianças prematuras e menores de 24 meses com determinadas condições clínicas de risco. 

A chegada da vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR), associado a casos de bronquiolite em bebês, também tem ajudado a aumentar a procura de gestantes por outros imunizantes. A avaliação é do vice-presidente da SBIm, Renato Kfouri, que aponta a percepção de risco como um dos principais fatores que levam as pessoas a buscar a prevenção.

Segundo ele, a bronquiolite é uma doença mais presente no cotidiano das famílias, o que faz com que muitas mães já tenham vivenciado ou conhecido alguém que enfrentou um caso da doença. Essa percepção é diferente da que existe em relação à coqueluche, atualmente mais rara e controlada. “A frequência com que ela ocorre, o fato de muitas mães conhecerem ou terem familiares que já tiveram a doença, traz essa percepção de risco maior. Um dos pilares que movem os indivíduos em busca de prevenção é justamente a percepção de risco”, explica. 

A opinião é compartilhada pelo ginecologista e obstetra especialista em reprodução humana assistida, Leonardo Alves Ferreira. “A adesão é maior do que a vacina de dTpa, por exemplo, uma das causas é a mortalidade pela bronquiolite. E assusta porque geralmente é uma morte muito rápida. No caso do recém-nascido, começa com uma insuficiência respiratória, saturação baixa, pode acabar sendo internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e pode levar ao óbito. Nesse cenário, as mães não hesitam em se imunizar”, acrescenta. 

O efeito acaba se estendendo para outras vacinas indicadas durante a gestação. Ao procurar o serviço de saúde para receber a imunização contra o VSR, a gestante também pode aproveitar a oportunidade para atualizar doses contra coqueluche, tétano e gripe.

Além da vacinação durante a gravidez, existe uma segunda estratégia para proteger o bebê contra o VSR: a aplicação de um imunobiológico diretamente na criança após o nascimento.

O recurso pode ser utilizado quando a mãe não foi vacinada, quando o bebê apresenta algum fator de risco aumentado ou quando não houve tempo suficiente entre a vacinação materna e o parto para que a proteção fosse estabelecida.

As duas estratégias não são concorrentes. Enquanto a vacinação da gestante promove uma proteção indireta, por meio da transferência de anticorpos, o imunobiológico oferece uma proteção direta ao bebê. A combinação das estratégias amplia as possibilidades de prevenção e pode contribuir para reduzir doenças graves nos primeiros meses de vida.

Para o médico infectologista Marcelo Daher, a experiência brasileira acompanha resultados observados em outros países. “A Argentina está utilizando já há algum tempo, com sucesso enorme demonstrada na redução no número de casos de vírus respiratório e bronquiolite em crianças. Nós já estamos vendo esse resultado no Brasil com uma redução de mais de 50% de internação hospitalar por bronquiolite em crianças filhas de mães vacinadas”. 

Antes da vacina, o susto

Lívia Caixeta é mãe de Helena, de 9 anos e Letícia, de 3 anos. A caçula foi internada com bronquiolite com apenas dois meses | Foto: Arquivo pessoal

Letícia tinha apenas dois meses quando uma infecção pelo VSR mudou a forma como a jornalista Lívia Souza Caixeta passou a enxergar as doenças respiratórias em bebês. Tudo começou como um resfriado. Vieram congestão, tosse e febre. Aos poucos, porém, a menina passou a ter dificuldade para mamar. O choro ficou fraco e a respiração, cada vez mais difícil.

No atendimento médico, a saturação estava abaixo de 90%. Letícia precisou de oxigênio, acompanhamento, fisioterapia respiratória, antibiótico e corticoide. O Tamiflu chegou a ser iniciado enquanto a equipe aguardava o resultado do painel viral, porque a influenza também era uma possibilidade.

O exame confirmou o VSR. A criança também desenvolveu pneumonia. Foram três dias usando oxigênio por cateter e mais um período de observação. Ao todo, quase cinco dias de internação. “Internar uma criança com dois meses de vida é assustador”, lembra Lívia.

A experiência trouxe medo, culpa e insegurança. Como Letícia era exclusivamente amamentada, a mãe precisou permanecer no hospital durante todo o período de internação. “Depois da alta, vieram cerca de 20 sessões de fisioterapia pulmonar e o acompanhamento com especialistas. Na época, eu tinha ouvido falar pouco sobre o VSR”. 

Quando a irmã de Lívia engravidou, em 2025, a vacina contra o VSR já estava disponível na rede privada, embora ainda não estivesse disponível no SUS. A família, ainda marcada pelo que havia acontecido com Letícia, decidiu pagar pela imunização. “Eu dou um jeito, eu pago o que for”, lembra Lívia sobre a decisão da irmã Marina Caixeta. 

A história também se cruza com a própria experiência de Lívia durante a gravidez. Quando estava grávida de Letícia, teve Covid-19 no quarto mês de gestação. Já havia completado o ciclo de vacinação contra a doença e apresentou apenas sintomas muito leves, semelhantes a uma alergia ou resfriado, sem febre ou dificuldade respiratória. Para ela, a experiência das duas doenças reforçou a confiança na ciência e nas vacinas.

Antes da doença

Grávida do primeiro filho, Marília Almeida foi imunizada contra o VSR com 32 semanas de gestação | Foto: arquivo pessoal

Grávida do primeiro filho, a jornalista Marília Almeida está com 33 semanas de gestação. Quando recebeu a vacina contra o VSR, estava com 32 semanas. A orientação veio da obstetra. Durante o pré-natal, Marília também recebeu as vacinas contra hepatite B e dTpa. A imunização contra a Covid-19 havia sido feita anteriormente.

“Desde o início da gestação, eu sigo rigorosamente as orientações médicas. A cada consulta, eu saía sabendo quais cuidados deveria tomar e quando deveria procurar uma unidade de saúde para receber uma nova vacina”. 

A vacina contra o VSR já era conhecida por Marília desde o início da gestação. Ela sabia que, mais adiante, chegaria o momento de receber a dose e que a imunização poderia contribuir para proteger o bebê. A possibilidade de uma vacina aplicada no corpo da mãe ajudar a proteger uma criança que ainda nem nasceu chamou a atenção da gestante.

“A vacinação passou a fazer parte dos cuidados naturais da gestação, assim como os exames, a alimentação e o acompanhamento médico. É maravilhoso. É até inacreditável que a ciência consiga fazer isso”. Para Marília, a vacinação ultrapassa a proteção individual e também representa uma responsabilidade com a comunidade. “Eu acho um absurdo enquanto jornalista e mãe ouvir tanta desinformação sobre vacinas. É um crime contra a saúde pública”, afirma ao falar sobre o movimento antivacina.

Estratégias 

Subsecretária de Vigilância em Saúde de Goiás, Flúvia Amorim afirma que coberturas caíram depois da pandemia e agora começam a subir | Foto: Iron Braz / SES GO

Segundo a subsecretária de Vigilância em Saúde de Goiás, Flúvia Amorim, o Estado já chegou a superar a meta de vacinação em outros períodos, alcançando índices de 100%. Depois da pandemia, porém, houve uma redução significativa na cobertura. A partir de 2025, o cenário começou a mudar e, em 2026, a curva voltou a apresentar crescimento.

“Aquela curva que estava descendente, em queda, agora está mostrando uma ascendência. Está subindo devagar, lentamente, mas já apresenta uma melhora. Ainda não é o suficiente para chegar à meta de 90%.”

Para recuperar os índices, a Secretaria de Estado da Saúde tem apostado em diferentes estratégias. Uma delas é aproximar a vacinação das gestantes e ampliar o diálogo com profissionais que acompanham esse público. O trabalho envolve entidades como o Conselho Regional de Medicina, a Associação de Ginecologia e Obstetrícia e a Sociedade de Pediatria de Goiás. A iniciativa também busca enfrentar um dos obstáculos apontados pela subsecretária: a circulação de informações falsas ou orientações equivocadas sobre a vacinação durante a gravidez.

“Quando a gente avalia a cobertura dessas gestantes, a gente vê que, infelizmente, algumas fake news e orientações equivocadas colocam a mulher em dúvida se faz ou não a vacina. E a gente tem feito um trabalho muito importante com as sociedades para conseguir melhorar essa vacinação, principalmente nesse grupo que é tão vulnerável.”

O desafio agora é reconstruir a confiança nos imunizantes. Para Flúvia, a recuperação da vacinação contra a Covid-19, por exemplo, passa pela desmitificação de informações falsas e pelo reforço das evidências científicas sobre a segurança e a eficácia das vacinas.

“A gente vem tentando trabalhar nessa desmistificação da vacina da Covid. Acabou interferindo em outras vacinas e a gente está resgatando isso aos poucos. Para a Covid, eu espero também que a gente consiga resgatar essa confiabilidade e essa segurança para a vacina, que já tem comprovação científica de que é segura e eficaz.”

Influenza aumenta risco de parto prematuro

De acordo com o Ministério da Saúde, em 2026, até o momento, mais de 1 milhão de doses da vacina contra a Influenza foram aplicadas em gestantes. A vacinação contribui para a prevenção de complicações da doença, incluindo hospitalizações e óbitos. Nacionalmente, a meta é imunizar 90% das gestantes, mas o país só alcançou 75,08% até o momento. Em Goiás, o percentual foi de 71,01% e em Goiânia, apenas 54,40%. 

“Embora a vacina possa ser aplicada em qualquer idade gestacional, a cobertura permanece menor em Goiânia. Apesar disso, houve evolução nos últimos anos, passando de 31,58% em 2024 para 39,53% em 2025 e 54,40% em 2026”, explicou, em nota a SMS de Goiânia. 

Segundo o médico infectologista Marcelo Daher, a Influenza na gestação aumenta o risco de parto prematuro e aumenta o risco de mortalidade para a mãe. Então é uma vacina que vai proteger não só a criança, mas também a mãe. Ele reforça que a vacina contra a gripe pode ser aplicada em qualquer período da gestação.

Hepatite B 

Frequentemente chamada de doença silenciosa, a hepatite B é uma doença infecciosa crônica causada pelo vírus da hepatite B (HBV). Quando não tratada, pode evoluir para complicações graves, como cirrose, insuficiência hepática e até câncer de fígado. A principal forma de prevenção é a vacinação, disponível em três doses para todas as pessoas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 

A vacina contra a hepatite B pode ser indicada durante a gestação. Segundo o infectologista Marcelo Daher, a doença muitas vezes não apresenta sintomas e pode ser transmitida da mãe para o filho. “A hepatite B é silenciosa, pode ser muito grave e é transmitida da mãe que tem a doença e não sabe para o filho. A estratégia de vacinação da mãe é para protegê-la do vírus B e também proteger a criança.”

Entre 2020 e 2026, Goiás registrou 175 casos confirmados de hepatite B em gestantes, com variação anual de 25 casos em 2020, 35 em 2021, 26 em 2022, 30 em 2023, 25 em 2024, 25 em 2025 e 9 casos em 2026 (até 26 de agosto). Entre os bebês menores de um ano, foram confirmados quatro casos de hepatite B no período analisado, sendo um em 2024, dois em 2025 e um em 2026. 

Já em relação à transmissão vertical, que ocorre da mãe para o bebê durante a gestação, parto ou pós-parto, foram registradas 24 crianças expostas ao risco de transmissão vertical da hepatite B, com 11 notificações em 2025 e 13 em 2026. Sem a imunização, o bebê contaminado pode desenvolver a hepatite B crônica.

“Os dados reforçam a importância do diagnóstico precoce da hepatite B durante o pré-natal e da adoção das medidas de prevenção e acompanhamento dos recém-nascidos expostos ao vírus”, explica a SES-GO, em nota. 

dTpa: o alerta para coqueluche

Conhecida como dTpa, essa vacina protege contra três doenças bacterianas graves: difteria, tétano e coqueluche e faz parte das vacinas obrigatórias durante a gestação desde 2014. O tétano (que já foi conhecido como mal dos sete dias) está sob controle no Brasil, assim como a difteria (que possui casos em países próximos como Peru e Haiti). A coqueluche, entretanto, apresentou um aumento de casos a partir de 2024, quando o Brasil atingiu o maior número de notificações da última década com 7.440 casos confirmados, segundo o Ministério da Saúde. A doença afeta justamente bebês de mães que não se vacinaram durante a gestação. 

Na gestação a vacina é administrada a partir da 20ª semana de gestação e repassa os anticorpos nos primeiros meses de vida do bebê.  No esquema infantil de imunização, a vacina pentavalente, que também previne contra a doença, é aplicada em três doses aos 2, 4 e 6 meses de idade, com com reforços previstos aos 15 meses e aos 4 anos.

A meta nacional para a vacina é de 95% das grávidas do país, mas os números ainda não chegaram lá. Em 2025, o Brasil alcançou 85,48% e em 2026, conforme dados parciais, 82,63%. Em Goiás, a vacina dTpa Adulto manteve cobertura estável nos três últimos anos, com 78,93% em 2024, 81,70% em 2025 e 80,19% em 2026. Em Goiânia, os números foram menores, mas crescentes com 60,78% em 2024; 70,70% em 2025 e alcançaram 71,34% em 2026.

Em Goiás, 25 casos de coqueluche foram registrados em 2025 em crianças menores de 6 meses. Em 2026 já são 4 casos confirmados segundo a Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO). Na capital, 11 casos suspeitos foram notificados no ano passado, dos quais dois se confirmaram. Em 2026, até o momento, foram cinco casos suspeitos, mas nenhum se confirmou, segundo a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (SMS). 

Leia também: Pisa expõe desafios da educação, mas Goiás abre caminho para um avanço sustentável