O implante coclear tem permitido que crianças que nasceram surdas e adultos que perderam a audição tenham acesso aos sons e recuperem parte importante da comunicação e do convívio social. Apesar dos avanços da tecnologia, o acesso ao procedimento ainda enfrenta obstáculos no Brasil, que vão do diagnóstico tardio ao alto custo do equipamento e aos critérios adotados para realização da cirurgia pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Dados do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que 2,6 milhões de brasileiros tinham dificuldade para ouvir mesmo utilizando aparelhos auditivos. Em escala mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 1,5 bilhão de pessoas vivam com algum grau de perda auditiva e cerca de 430 milhões necessitem de serviços de reabilitação auditiva.

Ao Jornal Opção, o otorrinolaringologista Gustavo Jorge, pioneiro da técnica em Goiás, explicou como funciona o implante coclear, quem pode se beneficiar da cirurgia e quais são os principais desafios para ampliar o acesso à tecnologia.

Diferentemente do aparelho auditivo convencional, o implante não se limita a aumentar o volume dos sons. O equipamento transforma o som em sinais elétricos que estimulam diretamente o nervo auditivo.

“O implante coclear nada mais é do que um dispositivo eletrônico que substitui o funcionamento do ouvido. Naqueles pacientes que perderam totalmente a audição e em que o aparelho auditivo já não consegue mais suprir a necessidade, está indicado o implante coclear”, explica.

Segundo o especialista, entre os principais candidatos ao procedimento estão crianças que nasceram surdas e adultos que perderam a audição ao longo da vida.

Diagnóstico precoce pode mudar resultado

No caso das crianças que nascem surdas, o tempo até o diagnóstico e o início do tratamento é decisivo para o desenvolvimento da linguagem.

De acordo com Gustavo Jorge, o cenário ideal é que a implantação ocorra nos primeiros anos de vida.

“O ideal é uma criança que nasceu surda ser implantada ainda nos primeiros dois anos de vida. Ela pode ainda ser implantada até os cinco. A partir dos cinco anos, ela vai escutar, mas não vai adquirir fala mais”, afirma.

Por isso, o médico considera o diagnóstico precoce um dos principais desafios para melhorar os resultados do tratamento no país.

“Vemos muita criança sendo diagnosticada com perda de audição após os dois anos de idade. Se fossem diagnosticadas mais cedo e tivessem acesso ao implante mais cedo, o resultado seria muito melhor.”

Qual a diferença para o aparelho auditivo?

Embora tenham a mesma finalidade de auxiliar pessoas com perda auditiva, aparelho convencional e implante coclear funcionam de maneiras diferentes.

“O aparelho auditivo só amplifica o som. Ele recebe o som, aumenta o volume e entrega o volume aumentado para o ouvido. Mas o ouvido é quem vai fazer a captação e o processamento”, explica.

No implante coclear, parte desse processo é substituída pelo equipamento.

“Ele vai captar o som, transformar esse som em impulso elétrico e esse impulso elétrico vai ser jogado direto no nervo auditivo. Então, substitui o funcionamento do ouvido que, por alguma razão, não funcionou ou parou de funcionar.”

A cirurgia, portanto, não significa que o paciente começará imediatamente a compreender normalmente todos os sons.

Reabilitação pode durar até um ano

Após o procedimento cirúrgico, é necessário aguardar a recuperação antes da ativação do equipamento.

“Normalmente o paciente faz a cirurgia e, após 30 dias, liga-se o implante. Então, o implante é ativado e ele começa a escutar”, explica Gustavo.

A partir daí começa outra etapa: ensinar o cérebro a interpretar os novos estímulos auditivos.

“Precisa passar pelo processo de adaptação, que demora em torno de seis meses a um ano. Nesse intervalo, o paciente tem que fazer terapias para voltar a escutar com o implante, porque o implante vai dar a sensação auditiva, mas o cérebro vai ter que passar a entender esse novo estímulo.”

O acompanhamento com fonoaudiólogos, portanto, integra o tratamento e tem papel importante no resultado alcançado pelo paciente.

Segundo Gustavo, alterações de equilíbrio podem ocorrer, mas não são comuns. Nos casos em que aparecem, o paciente pode precisar de terapia específica.

Voltar a conversar com a família

Entre as transformações observadas depois da adaptação, Gustavo destaca uma que ultrapassa a capacidade de perceber sons: a retomada da convivência social.

A perda auditiva severa pode dificultar conversas, o acompanhamento de programas de televisão, a apreciação de músicas e outras atividades cotidianas. Com o avanço da deficiência, alguns pacientes acabam reduzindo o contato com outras pessoas.

“O que mais muda é o convívio social. Geralmente o paciente, quando não está escutando, fica isolado, porque não consegue estabelecer comunicação”, afirma.

Segundo o médico, a recuperação da capacidade de comunicação é frequentemente descrita pelos próprios pacientes como uma forma de recuperar a autonomia.

“Eles falam que foi libertador a partir do momento que voltaram a escutar, porque voltam a conversar com a família e a ter relacionamento com os amigos.”

Equipamento pode chegar a R$ 90 mil

Uma das barreiras está no preço.

Segundo Gustavo, somente o dispositivo utilizado no implante custa atualmente entre R$ 60 mil e R$ 90 mil. O valor não inclui despesas médicas, hospitalares, equipe responsável pela cirurgia e acompanhamento posterior.

“Infelizmente é uma cirurgia de alto custo, porque envolve tecnologia e o implante não tem fábrica brasileira, todos são importados. Os impostos e a burocracia oneram bastante o preço”, afirma.

Na rede privada, segundo o médico, os planos de saúde devem oferecer cobertura para pacientes que atendam aos critérios de indicação do procedimento.

Acesso pelo SUS ainda é desafio

O implante coclear também está disponível pelo SUS, mas Gustavo aponta que os critérios adotados na rede pública podem restringir o número de pessoas atendidas.

“O implante coclear está disponível no SUS. Só que o SUS tem algumas restrições. Os critérios de indicação são muito mais rígidos do que os normais feitos pelos convênios, porque o universo de pessoas que precisam do SUS é muito grande”, afirma.

Segundo ele, crianças acabam concentrando parte importante das indicações, enquanto adultos encontram maior dificuldade para chegar ao procedimento.

Em Goiás, Gustavo aponta o Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), em Goiânia, como referência para a realização das cirurgias pela rede pública.

Para o médico, ampliar o acesso exige não apenas aumentar a oferta do procedimento, mas também informar pacientes adultos de que o implante pode ser uma alternativa quando os aparelhos convencionais deixam de oferecer resultado satisfatório.

“Até então, os pacientes que perdem a audição e usam aparelho, a partir do momento que o aparelho já não dá mais resultado, ainda existe o implante. Por falta de informação, esse paciente não é informado que existe essa possibilidade.”

Cirurgia ainda é cercada por receio

Outro obstáculo apontado pelo especialista é a percepção de que o implante coclear envolve uma cirurgia extremamente complexa ou de alto risco.

Gustavo defende que os avanços na técnica tornaram o procedimento mais seguro e que o debate precisa considerar também os benefícios proporcionados aos pacientes.

“A questão é desmistificar, porque durante muito tempo a cirurgia do implante foi pregada como uma coisa muito complexa. Na verdade, é uma cirurgia segura, rápida e o benefício para o paciente é enorme: voltar a escutar”, conclui.

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