Saiba por que empresários passam até 4 horas em um campo de golfe em Goiânia
10 setembro 2026 às 19h08

COMPARTILHAR
Uma reunião de negócios pode durar 30 minutos ou uma hora. Em um campo de golfe, a conversa pode se estender por quase quatro horas — e acontecer enquanto os participantes percorrem 18 buracos. Em Goiânia, essa característica do esporte ajuda a transformar as partidas em espaços de networking, aproximação entre empresários e até fechamento de parcerias.
O movimento ocorre em um universo ainda restrito na capital. A Associação Goiana de Golfe (AGG) contabiliza 105 jogadores cadastrados, dos quais cerca de 70 são considerados ativos. Apesar do número reduzido de praticantes, o perfil dos frequentadores já despertou o interesse de empresas que enxergam no campo uma oportunidade de chegar diretamente a potenciais clientes.
Montadoras como Porsche, Audi e BYD já expuseram veículos durante torneios realizados no Goiânia Clube de Golfe. A Highpar, empresa do segmento de investimentos e soluções financeiras, também patrocinou competições e, segundo o presidente da AGG, Michel Thó, conseguiu clientes a partir da presença no esporte.
Para Michel, o potencial comercial está diretamente relacionado à dinâmica de uma partida.
“É um esporte espetacular, onde as pessoas fazem muita amizade de longo prazo. E também é um lugar de muito networking. Você passa quatro horas caminhando com alguém e dá tempo de conversar sobre todos os assuntos”, afirma ao Jornal Opção.

Quatro horas de conversa
Uma rodada convencional de golfe com quatro jogadores leva, em média, de três horas e meia a quatro horas. Dependendo da competição e do ritmo dos participantes, o tempo pode chegar a cinco horas. Sozinho, Michel conta já ter completado os 18 buracos em uma hora e 16 minutos.
A diferença ajuda a entender por que o esporte ganhou fama internacional como ambiente favorável à construção de relações profissionais.
Ao contrário de modalidades que praticamente impedem conversas durante a disputa, o golfe intercala as tacadas com longos deslocamentos pelo campo. O jogador passa boa parte do percurso caminhando ao lado dos demais participantes.
É nesse intervalo que entram assuntos que não necessariamente têm relação com o placar.
Michel conta que algumas partidas são marcadas justamente com o objetivo de aproximar pessoas de determinados setores. Ele próprio afirma ter fechado recentemente uma parceria empresarial enquanto jogava.
O resultado é uma espécie de reunião informal em movimento: sem mesa de escritório, apresentação ou horário apertado, mas com horas disponíveis para conversar.
Marcas querem chegar aos jogadores
Esse ambiente começou a chamar a atenção das empresas.
Segundo Michel, marcas passaram a aproveitar torneios realizados na capital para apresentar produtos e serviços diretamente aos participantes.
“A Porsche, a Audi e a BYD também já levaram seus produtos para expor, porque sabem que é um público seleto, capaz de consumir esses produtos”, afirma.
A estratégia é diferente de uma campanha destinada a milhares de consumidores. No golfe, a quantidade de pessoas alcançadas é pequena, mas existe interesse justamente no perfil de quem frequenta o ambiente.
O presidente da AGG cita ainda o caso da Highpar. Patrocinadora de torneios, a empresa de investimentos e soluções financeiras teria conquistado clientes por meio do contato com jogadores.
Assim, o campo passa a funcionar simultaneamente como espaço esportivo, social e comercial.
Pouco mais de 100 jogadores
Apesar do interesse empresarial, o golfe permanece um esporte de nicho em Goiânia.
A AGG possui 105 jogadores cadastrados. Desses, aproximadamente 70 mantêm frequência considerada ativa, seja diariamente, semanalmente ou algumas vezes ao mês.
Michel acredita que o cadastro esteja próximo do número real de praticantes na cidade.
“Se houver mais praticantes, é apenas um pouco acima disso, porque conhecemos praticamente todos que frequentam o clube”, afirma.
A estrutura disponível também ajuda a explicar a concentração.
Segundo Michel, em Rio Verde existem três campos, mas nenhum oficial de 18 buracos. Há uma estrutura de nove buracos em uma propriedade particular, outra de seis utilizada para aulas e uma terceira, também de nove, localizada em condomínio fechado.
Campo tem padrão internacional
É em Goiânia que está a principal estrutura da modalidade no Estado.
O Goiânia Clube de Golfe possui 18 buracos, 7.126 jardas, quatro tees de saída para diferentes níveis de jogadores, além de fairways, grandes greens e bunkers. O buraco 12 tem um green em formato de ilha e é considerado um dos pontos emblemáticos do percurso.
O professor José Marcos explica que o campo ocupa uma área de 76 hectares e tem dimensões compatíveis com competições internacionais.
“Quando o campo tem essa medida, ele é classificado como um Championship Course. O arquiteto Dan Blankenship projetou o campo com padrão internacional. Hoje somos o 16º layout do Brasil, entre aproximadamente 130 campos oficiais”, afirma.

A diretora de marketing Gabriela Rizzo destaca a posição da estrutura no Centro-Oeste.
“Os mais próximos ficam em Rio Verde, mas não são oficiais, têm apenas nove buracos. Depois já é Brasília. Mas aqui em Goiás e nos vizinhos, nós somos o único campo”, diz.
Quanto custa jogar
O golfe carrega historicamente uma imagem associada a consumidores de alta renda, mas representantes da modalidade argumentam que não é necessário adquirir equipamentos caros para experimentar o esporte.
As aulas custam entre R$ 180 e R$ 250, e o professor pode disponibilizar os equipamentos para iniciantes. Uma bolsa básica com tacos custa entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil.
A partir daí, os valores podem aumentar consideravelmente conforme o nível dos equipamentos.
“Tem taco que custa 700 dólares, mais caro que a bolsa inteira, mas você não precisa disso para iniciar”, afirma Michel.
No Goiânia Clube de Golfe, a aula individual custa em média R$ 250 por hora. Também são oferecidos pacotes, clínicas e há cobrança de green fee, taxa para utilização do campo.
Para Michel, no entanto, o principal investimento exigido pela modalidade não está necessariamente no bolso.
Está no relógio.
O esporte também movimenta viagens
As relações construídas no campo ultrapassam Goiânia.
Integrantes da associação participam de aproximadamente 20 torneios por ano em diferentes regiões do País, com competições que passam por cidades do Rio Grande do Sul, Ceará, São Paulo e Rio de Janeiro.
As viagens também podem assumir caráter social.
Michel relata que grupos de jogadores costumam combinar turismo e golfe. Em uma das viagens citadas por ele, 15 casais de Goiânia programaram uma semana no Uruguai para visitar um amigo e praticar o esporte.
“Campo de golfe não tem lugar feio. Você viaja, conhece cidades, hotéis, vinícolas”, afirma.
Essa convivência prolongada reforça uma das características que, na avaliação dele, diferenciam o golfe de outras modalidades: os relacionamentos não terminam quando a partida acaba.

Negócios entre uma tacada e outra
Em Goiânia, o golfe ainda está longe de ser um esporte de massa. São pouco mais de 100 jogadores cadastrados e praticamente todos se conhecem ou circulam pelo mesmo ambiente.
Mas o tamanho reduzido não significa necessariamente pouca relevância econômica.
Para empresas interessadas em consumidores de maior poder aquisitivo, a concentração pode ser justamente o diferencial. Para os jogadores, quatro horas dividindo o mesmo percurso oferecem algo igualmente valioso no ambiente profissional: tempo para construir relações.
Por isso, uma partida pode começar como esporte, avançar como conversa e terminar como oportunidade comercial.
Como resume Michel Thó, no campo, “é esporte, é amizade, é networking e é negócio”.
Leia também: Até R$ 635 por pessoa: alta gastronomia testa novos limites de consumo em Goiânia


