Pagar R$ 245, R$ 465 ou até R$ 635 por pessoa em uma única experiência gastronômica pode parecer distante do padrão de consumo de uma capital do Centro-Oeste. Em Goiânia, porém, restaurantes de alto padrão encontraram espaço para elevar o tíquete enquanto uma parcela dos visitantes já desembolsa mais de R$ 1 mil por dia na cidade.

A primeira Pesquisa de Demanda Turística de Goiânia, realizada pelo Observatório de Turismo da capital em julho de 2026, ajuda a dimensionar esse mercado. Entre os 240 participantes classificados como turistas, 16,25% declararam gasto médio individual superior a R$ 1 mil por dia. Outros 19,58% ficaram entre R$ 301 e R$ 1 mil. As despesas consideradas incluem alimentação, transporte, hospedagem, compras e lazer. 

A maior parcela ainda está longe desse padrão: 28,75% gastaram entre R$ 101 e R$ 300 por dia e 24,58%, até R$ 100. Somadas, as duas faixas representam 53,33% dos turistas pesquisados. O levantamento, portanto, não mostra uma cidade dominada pelo consumo de luxo, mas revela a existência de um grupo com capacidade de gasto significativamente superior à média dos visitantes. 

É justamente essa parcela que passou a ser disputada por restaurantes que oferecem menus degustação, carnes premium, ingredientes selecionados, cartas de vinho de quatro dígitos e serviços que podem prolongar um jantar por três, quatro ou cinco horas.

Gastronomia ganha espaço entre turistas

Os números também mostram que comer fora já ocupa posição relevante na experiência de quem visita Goiânia.

Dos turistas que disseram ter conhecido algum atrativo ou local na capital, 34,87% mencionaram restaurantes e bares. A gastronomia apareceu atrás apenas do Zoológico, citado por 46,67%, e das compras em shopping centers e na Região da 44, com 44,62%. A própria pesquisa conclui que a experiência turística da cidade está fortemente relacionada a lazer, compras e gastronomia. 

Mais expressiva é a avaliação de quem consumiu esse serviço.

A alimentação recebeu média 4,7 em uma escala de 1 a 5, a maior entre todos os itens analisados na pesquisa. Das 192 avaliações válidas de restaurantes e bares, 75% deram nota máxima e outros 21,88% atribuíram nota 4. Isso significa que quase 97% das avaliações ficaram nas duas maiores notas. 

O desempenho ficou acima de hospitalidade do povo goianiense, com média 4,6; atrativos turísticos, com 4,5; sensação de segurança, 4,4; e hospedagem, 4,3. 

O levantamento foi realizado em julho, considerado período de alta temporada, e ouviu 354 visitantes no Aeroporto de Goiânia, Terminal Rodoviário e Zoológico. Desse total, 240 foram classificados como turistas. Por se tratar de uma amostra de visitantes, os números não representam o padrão de consumo dos moradores da capital, mas ajudam a medir a capacidade de gasto e a percepção de quem chega à cidade. 

De R$ 245 a R$ 635 por pessoa

Dentro desse cenário, restaurantes locais passaram a explorar uma faixa de consumo que há alguns anos encontrava menos opções na capital.

No Íz Restaurante, do chef Ian Baiocchi, os valores podem variar de R$ 245 a aproximadamente R$ 635 por pessoa, dependendo da experiência escolhida.

O menu de entrada, oferecido principalmente no almoço, custa R$ 245 e reúne seis etapas. Três são escolhidas pelo cliente — entrada, principal e sobremesa — e outras três são apresentadas pela cozinha.

Ian Baiocchi | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Antes mesmo dos pratos escolhidos, o cliente recebe pequenas entradas, pães de fermentação natural e manteigas artesanais. Água, café, chá, infusões e doces da casa também integram a experiência.

Entre os produtos utilizados aparecem camarões, vieiras, polvo, cupim, picanha Black Angus e pescados trazidos de outros estados.

“É R$ 245, mas o nível de produto que você está comendo é um espetáculo”, afirma Baiocchi ao Jornal Opção.

Em outra modalidade acompanhada pela reportagem, o menu degustação custava R$ 465 por pessoa e reunia oito etapas, além das boas-vindas da cozinha.

Na sequência estavam uma releitura do pastel da Avenida 74, cherne trazido da costa do Rio de Janeiro, cupim preparado por até 18 horas e sobremesas desenvolvidas para completar o percurso.

O preço, argumenta Baiocchi, não remunera apenas aquilo que está no prato.

“Em qualquer boteco você senta e paga R$ 90 numa porção de croquete. Aqui você pode ficar três, quatro, cinco horas, num baita ambiente, com distanciamento entre mesas, serviço exclusivo. É o seu momento.”

Conta pode ultrapassar R$ 1 mil

O valor sobe quando a bebida entra na mesa.

No El Argentino, especializado em parrilla, os vinhos mais consumidos ficam entre R$ 200 e R$ 400, segundo a sócia-proprietária Ruth Capistano. A carta, entretanto, oferece garrafas que chegam a R$ 1,8 mil.

No jantar, um casal gasta em média entre R$ 300 e R$ 400 apenas com a comida. Com vinho, entradas e sobremesas, a conta pode avançar rapidamente.

“A gente tenta dar uma experiência completa, do começo ao fim, e ser o mais fiel possível às raízes da Argentina. Claro que com um toque brasileiro, mas sempre respeitando muito a culinária argentina”, afirma Ruth.

El Argentino | Foto: Reprodução

A combinação entre os valores praticados pelos estabelecimentos e os dados da pesquisa ajuda a revelar duas Goiânias gastronômicas que convivem lado a lado.

Mais da metade dos turistas pesquisados gasta até R$ 300 durante um dia inteiro na cidade. Ao mesmo tempo, cerca de um em cada seis informa despesas superiores a R$ 1 mil diários. 

É neste segundo grupo que os restaurantes de maior tíquete encontram terreno para avançar.

Mais dinheiro, mais cobrança

A disposição para pagar, entretanto, vem acompanhada de uma cobrança maior.

Ruth percebe que o consumidor passou a chegar ao restaurante mais informado.

“Hoje as pessoas pesquisam mais, buscam experiências diferentes. A tecnologia ajudou muito nisso”, avalia.

No El Argentino, a exigência levou a casa a trabalhar com apenas três fornecedores fixos de carne. Quando determinado corte não apresenta o padrão esperado, ele deixa temporariamente o cardápio.

“A gente prefere não ter o produto do que ter algo que não seja bom e não condiz com o que a gente vende.”

Ruth Capistano | Foto: Arquivo pessoal

O parrilleiro Santiago também percebe clientes interessados em compreender o que estão consumindo. As perguntas passam pela procedência das carnes, diferenças entre cortes, ponto ideal, técnicas de preparo e harmonização.

A mesma curiosidade aparece na escolha dos vinhos.

“Existe uma curiosidade maior por reservas especiais e vinhos com mais tempo de guarda. O cliente quer entender a origem, o método de produção e a história da garrafa”, afirma.

Público goianiense seria mais exigente

Ian Baiocchi considera que o crescimento do mercado de alto padrão não tornou Goiânia uma praça fácil para os empresários.

“O público de Goiânia é muito mais exigente do que o público de Brasília. A gente tem que ser sincero nesse ponto”, afirma.

Para ele, existe uma diferença entre consumir durante uma viagem e frequentar um restaurante na cidade onde se vive.

Em destinos como São Paulo, argumenta, um visitante pode aceitar duas horas de espera ou relevar falhas porque aquela experiência faz parte da viagem. Na própria cidade, a expectativa é outra.

“Aqui você não aceita. Aqui você é o fulano de tal.”

A Pesquisa de Demanda Turística oferece um indicador que dialoga com essa percepção. Entre os turistas que avaliaram restaurantes e bares em Goiânia, 96,88% atribuíram notas 4 ou 5 à alimentação. Apenas 3,12% concentraram-se entre as notas 1 e 3. 

Ou seja, além de frequentada, a gastronomia aparece como um dos pontos mais bem avaliados da experiência turística local.

Luxo muda de significado

Para Baiocchi, o crescimento do mercado não pode ser explicado somente pelo aumento da renda ou pela disposição de pagar caro por determinados produtos.

Há também uma transformação naquilo que consumidores de maior poder aquisitivo entendem como luxo.

“O luxo tem sido um hábito de consumo não material”, afirma.

Comer bem, frequentar academias menos lotadas, participar de eventos intimistas ou reservar algumas horas para uma experiência passaram, segundo ele, a disputar espaço com bens tradicionalmente associados à ostentação.

“Esses pequenos luxos ao longo do dia transformam muito mais do que simplesmente comprar um item que você vai usar de vez em quando.”

No restaurante, essa lógica se traduz na tentativa de vender algo que ultrapassa o prato.

“Aproveitar bem o tempo, que é o nosso bem mais precioso, acaba sendo o ápice do luxo.”

O outro lado da cozinha

O crescimento desse mercado, porém, não é visto sem ressalvas por quem trabalha há décadas no setor.

Com 35 anos de atuação em Goiânia, o cozinheiro Humberto Marra contesta a associação automática entre restaurantes caros e amadurecimento gastronômico.

“É propaganda para vender. Goiânia é muito nova. Como falar de algo ancestral num mercado com 80 anos? É um bebê. Não sabe comer, não sabe vender, não sabe ter experiência. Isso é dourar a pílula.”

Marra também chama atenção para uma parte que raramente aparece na experiência apresentada ao cliente: as condições de trabalho dentro das cozinhas.

“Da porta da cozinha para dentro, é a mesma coisa que uma lanchonete de esquina. Às vezes, a lanchonete trata melhor o funcionário, tem mais higiene e processos mais bem resolvidos do que restaurante de alta gastronomia.”

Humberto Marra | Foto: Arquivo pessoal

Segundo ele, baixos salários, jornadas extensas e escala 6×1 continuam fazendo parte da realidade de trabalhadores do segmento.

“Socialmente e no trabalho, não existe diferença. Todo mundo está no mesmo calor, com salários horrorosos, trabalhando em escala 6×1.”

O cozinheiro ainda questiona a ideia de que a identidade gastronômica da capital esteja concentrada nos estabelecimentos de maior valor.

“Você tem meia dúzia de restaurantes fazendo gastronomia e centenas de milhares de pessoas fazendo comida perfeita dentro de casa.”

Até onde o goianiense está disposto a pagar?

A pesquisa turística não responde diretamente quanto o morador de Goiânia aceita desembolsar por uma refeição — e seria incorreto usar seus números para afirmar isso. O levantamento trata de visitantes de fora de Goiânia e da Região Metropolitana e, na análise de gastos, considera apenas os classificados como turistas. 

Mas os resultados revelam algo importante para o mercado gastronômico: há uma parcela de visitantes com elevado potencial de consumo, restaurantes e bares já fazem parte do roteiro de mais de um terço dos turistas que visitaram algum local e a alimentação é o serviço mais bem avaliado entre os itens pesquisados. 

Ao mesmo tempo, os preços dos restaurantes mostram até onde algumas casas já estão dispostas a avançar.

Um menu pode chegar a R$ 635 por pessoa. Uma garrafa de vinho, a R$ 1,8 mil. E uma experiência para duas pessoas pode romper com facilidade a barreira dos R$ 1 mil.

A alta gastronomia goianiense entra, assim, em uma nova fase. O teste já não é apenas saber se existe público capaz de pagar.

É descobrir quanto esse público aceita desembolsar — e quanto passa a exigir quando a conta chega.

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