Nas últimas décadas, a medicina transformou a forma de tratar doenças e de encarar condições que, por muito tempo, foram vistas com tabu e desinformação. Procedimentos que antes pareciam distantes, viraram rotina nos consultórios, enquanto novos tratamentos devolveram a qualidade de vida a milhões de pessoas. Ainda assim, temas como a reposição hormonal continuam gerando muitas dúvidas, especialmente entre as mulheres na menopausa. No Brasil, cerca de 30 milhões de mulheres já passaram ou estão nessa fase, o que representa 7,9% da população feminina, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE).

A menopausa marca o fim do período reprodutivo e costuma aparecer em mulheres entre os 45 e 55 anos. Quando os ovários reduzem a produção de hormônios, o corpo sente o impacto: ondas de calor, insônia, oscilações de humor, queda na libido, ressecamento vaginal e perda de cabelo estão no topo da lista de queixas nos consultórios.

De acordo com o ginecologista e obstetra Eduardo Santos Lopes Pontes, tesoureiro da Sociedade Goiana de Ginecologia e Obstetrícia (SGGO) e subdiretor cirúrgico do Hospital Geral de Goiânia, a terapia de reposição hormonal serve justamente para equilibrar essa balança. “Quando a mulher entra na menopausa, o ovário deixa de produzir hormônios importantes, como o estrogênio e a progesterona. Com isso, ela passa a sentir diversos sintomas relacionados a essa deficiência hormonal. A reposição busca devolver esses hormônios ao organismo, melhorando significativamente a qualidade de vida”, explica em entrevista ao Jornal Opção.

A terapia não é obrigatória, mas o especialista lembra que ela faz uma diferença enorme para quem sofre com os sintomas do climatério. “A paciente passa a dormir melhor, tem menos irritabilidade, reduz os episódios de calorão, melhora a lubrificação vaginal, fortalece unhas e cabelos e recupera parte do bem-estar perdido com a queda hormonal”, afirma.

“O maior mito é acreditar que a reposição hormonal causa câncer. O tratamento precisa ser avaliado caso a caso e acompanhado por um especialista”, destaca Eduardo Pontes | Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Pontes

Os ganhos vão além do alívio dos sintomas

Embora seja famosa por combater os incômodos mais imediatos da menopausa, a reposição mexe com toda a rotina e a saúde da paciente. O foco, segundo Eduardo Pontes, é restabelecer os níveis que o corpo parou de fabricar.

Na prática, as mulheres relatam mais disposição para o dia a dia, melhora no sono e na libido, além do fim dos calorões. “O importante é que a reposição hormonal vai trazer para a mulher qualidade de vida. Ela vai ter a pele mais viçosa, diminui a queda de cabelo, fortalece as unhas, a vagina volta a ficar úmida, ela dorme melhor, tem menos irritabilidade e sente menos aqueles calorões que aparecem de uma hora para outra. Então melhora muito a qualidade de vida”, reforça o médico.

Mesmo com tantas vantagens, Eduardo lembra que o tratamento não é uma receita de bolo. A decisão precisa ser individualizada, avaliando o histórico de saúde, os sintomas e as expectativas de cada mulher.

Mitos que ainda afastam as mulheres do consultório

Mesmo com tanta informação disponível atualmente, a reposição hormonal ainda carrega medos antigos que não batem com as evidências científicas atuais. Na maioria das vezes, a grande preocupação das pacientes que chegam ao  consultório é o câncer. “O maior mito é dizer que a reposição hormonal causa câncer de mama, de ovário ou de útero. Isso não é verdade. O que acontece é que a paciente precisa passar por uma avaliação completa antes de iniciar o tratamento. Se já existir um tumor, os hormônios podem acelerar sua evolução. Por isso, o acompanhamento médico é fundamental”, esclarece o ginecologista.

Antes de começar o tratamento, uma bateria de exames clínicos e de imagem é essencial para checar se há contraindicações ou pontos de atenção.

Outro erro perigoso, de acordo com o especialista, é tentar fazer a reposição por conta própria. O médico alerta que o processo precisa de ajuste fino e monitoramento constante para ser seguro. “A paciente não pode usar hormônios sem controle. É necessário definir a dose adequada, realizar exames e fazer acompanhamento regular para garantir segurança e eficácia”, destaca.

O médico também faz um alerta sobre a moda do uso de testosterona por mulheres, reforçando que essa prática não faz parte da terapia tradicional para a menopausa. “Não existe recomendação para reposição de testosterona na mulher como parte da terapia hormonal da menopausa. Esse é um hormônio masculino e seu uso não é indicado pelas sociedades de ginecologia e endocrinologia”, conclui.

Muito além do conforto, a reposição hormonal tem sido o caminho para que muitas mulheres atravessem a menopausa com autoestima, energia e bem-estar. O grande desafio agora é fazer com que a informação correta chegue até elas, quebrando tabus que ainda impedem o acesso a um tratamento seguro e baseado na ciência.

O que a ciência diz hoje?

Embora a terapia de reposição hormonal seja considerada o tratamento mais eficaz para aliviar sintomas da menopausa, como ondas de calor, suor noturno e ressecamento vaginal, o consenso científico atual é que seus benefícios e riscos devem ser avaliados individualmente. Estudos internacionais mostram que os resultados variam conforme a idade da paciente, o tempo decorrido desde a menopausa, a duração do tratamento e o tipo de hormônio utilizado.

A principal controvérsia surgiu após a divulgação dos resultados do estudo norte-americano Women’s Health Initiative (WHI), em 2002. As pesquisas identificaram que determinadas terapias combinando estrogênio e progesterona estavam associadas a um aumento do risco de câncer de mama, trombose e eventos cardiovasculares em algumas mulheres. Desde então, novas análises demonstraram que esses riscos não são iguais para todas as pacientes e que o tratamento pode ser seguro quando indicado de forma adequada e acompanhado por profissionais especializados.

Uma reportagem da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) publicada na Revista Pesquisa FAPESP destacou que mulheres que utilizaram estrogênio associado à progesterona por mais de cinco anos apresentaram aumento do risco de desenvolver câncer de mama. O estudo, que acompanhou cerca de 55 mil mulheres nos Estados Unidos, observou ainda que esse risco tende a diminuir após a interrupção do tratamento.

Especialistas ressaltam, porém, que os hormônios continuam sendo uma importante ferramenta terapêutica para mulheres que sofrem com sintomas intensos da menopausa. Além de melhorar a qualidade de vida, a terapia hormonal ajuda a preservar a massa óssea e reduzir o risco de fraturas relacionadas à osteoporose. Por isso, as principais sociedades médicas defendem que a decisão sobre iniciar ou não o tratamento deve considerar o histórico clínico, os fatores de risco e as necessidades de cada paciente.



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