O avanço de ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT, tem provocado reflexões entre especialistas sobre seus impactos na saúde mental e no comportamento humano. Para profissionais da área, embora os sistemas consigam oferecer respostas rápidas e alinhadas ao que o usuário deseja ouvir, isso não substitui o acompanhamento clínico e pode até reforçar padrões emocionais prejudiciais.

Entre as principais preocupações está o uso da tecnologia como forma de validação imediata, o que pode impedir o enfrentamento real de problemas psicológicos, como baixa autoestima, ansiedade e depressão.

Risco de autodiagnóstico e reforço de distorções

O psiquiatra Fernando Loyola alerta que o uso da inteligência artificial como alternativa ao atendimento especializado pode trazer riscos significativos, especialmente em casos de sofrimento psíquico mais intenso. Segundo ele, a ferramenta não é capaz de substituir a avaliação clínica completa.

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Fernando Loyola | Foto: Acervo pessoal

“Na psiquiatria, o diagnóstico exige uma investigação profunda, que envolve não só o relato do paciente, mas também a observação do comportamento e, muitas vezes, a escuta de pessoas próximas”, explica.

Loyola destaca que transtornos mentais podem alterar a percepção da realidade, o que compromete ainda mais a confiabilidade de respostas automatizadas.

“Em casos de vivência delirante, por exemplo, a pessoa já tem uma distorção da realidade, e a IA pode acabar reforçando essas crenças equivocadas”, pontua.

O psiquiatra aponta que a inteligência artificial não consegue captar elementos fundamentais da avaliação clínica. “Muitas vezes, essas ferramentas oferecem respostas que o usuário quer ouvir, mas o processo terapêutico envolve enfrentar questões difíceis.”

Loyola chama atenção ainda para o risco de uso excessivo da tecnologia como substituto da terapia tradicional. “Na tentativa de entender sintomas ou buscar conforto, muitos pacientes recorrem a ferramentas digitais em vez de procurar ajuda especializada”, ressalta.

Segundo ele, isso pode levar a um fenômeno de validação constante de crenças pessoais. “Isso pode levar a um certo delírio a longo prazo, fazendo com que a pessoa tenha mais certeza de atos que podem ser prejudiciais a ela ou aos outros.”

Loyola também relaciona o uso indiscriminado da IA ao aumento de sintomas como ansiedade, depressão e isolamento social.

Ele reforça a importância da rede de apoio e de hábitos saudáveis. “O apoio familiar e hábitos como interação social e atividades ao ar livre são fundamentais no cuidado com a saúde mental”, destaca.

“Busca por validação pode comprometer o amadurecimento emocional”, diz psicólogo

O psicólogo William de Deus Nascimento também alerta para os impactos do uso crescente da inteligência artificial como substituto de relações terapêuticas e humanas. Para ele, o problema central está na forma como as pessoas têm buscado na tecnologia apenas confirmação emocional.

“Com toda a certeza isso é perigoso. O ChatGPT é programado para te dar aquilo que você quer ouvir, funcionando como uma fonte que sempre vai te confortar e dizer que você está certo”, explica.

Segundo ele, esse padrão é oposto ao processo terapêutico tradicional, que envolve confronto e reflexão. “Ele confirma tudo que você fala. Isso pode levar a um certo delírio a longo prazo, fazendo com que a pessoa tenha mais certeza de atos que podem ser prejudiciais a ela ou aos outros.”

O psicólogo alerta ainda para o risco de dependência emocional da tecnologia. “Hoje muitas pessoas pedem para o ChatGPT escrever mensagens, resolver problemas e até substituir interações. Isso vai tirando o tato humano e tornando tudo mecânico.”

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William de Deus Nascimento | Foto: Acervo pessoal

Outro ponto de preocupação é o uso da IA como forma de autodiagnóstico. “As pessoas estão tratando a inteligência artificial como verdade absoluta, como se fosse uma especialista, e não é”, esclarece.

William reforça que transtornos mentais exigem acompanhamento profissional. “Quadros como depressão e ansiedade exigem avaliação profissional e acompanhamento contínuo, não respostas automatizadas.”

Ele cita situações de isolamento social associadas ao uso intensivo da tecnologia. “Já houve relatos de pessoas que se isolaram e criaram vínculos com a IA perdendo o senso de realidade.”

Para o psicólogo, o papel da família e da sociedade é fundamental na prevenção. “Ainda existe a ideia de que psicólogo é coisa de doido, e não é. Todo mundo precisa de cuidado emocional.”

Willian reconhece que a tecnologia pode ter uso complementar, mas não substitutivo. “Uma IA pode ajudar a encontrar referências de psicólogos ou explicar como iniciar uma conversa terapêutica, mas nunca substituir o contato humano”, avalia.

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