Dizer que alguém é cego por não te cumprimentar na rua ou que deu mancada por cometer um erro ou a famosa frase: ‘dar uma de João sem braço’, são exemplos clássicos de capacitismo (preconceito contra pessoas com deficiência).

Enraizado na cultura e no vocabulário brasileiro, o capacitismo pode fazer com que a vítima de descriminação possa desenvolver doenças mentais, conforme a psicóloga Juliana Hanuum.

“A pessoa com deficiência vive diariamente com o preconceito. Ela convive com a descriminação em todos os aspectos, de mobilidade social e do próprio sistema que não está adaptado a ela. Isso impacta a pessoa, deixando ela com sentimento de menos valia ou com o sentimento de que ela não é inserida dentro de um contexto social”, explicou. 

Evidências

A especialista conta que essas condições evidenciam a deficiência do indivíduo, trazendo uma sensação de ‘devastação’. Isso porque além de conviver com a dificuldade provocada pela deficiência, a pessoa também precisa lidar com a dificuldade emocional e social provocada pelo capacitismo.

“Essas pessoas podem vir a ter ansiedade, Síndrome de Pânico, evitação social. A gente não pode determinar que o capacitismo vai levar as pessoas a desenvolver isso, já que são um conjunto de fatores que levam o indivíduo a ter problemas psicológicos”, concluiu. 

Descriminação 

O empresário, músico e multiatleta, Daniel Londres, de 30 anos, é um exemplo do preconceito que as pessoas com deficiência sofrem diariamente. O também DJ e modelo sofreu uma descarga elétrica de 37,5 mil volts há cerca de 10 anos. Na época, ele atuava como eletricista em um prédio em construção na capital. 

Desde o acidente que lhe custou a mão direita e parte do calcanhar esquerdo, Daniel travou muitas batalhas, tanto pela adaptação de não ter os membros, quanto pelo preconceito enfrentado pela falta dos mesmos. O músico, no entanto, não se deixou abater e conseguiu superar todos os obstáculos.

“As pessoas olham diferente para mim. Às vezes é porque chamo atenção ou por curiosidade. Tem vez que sinto aquela sensação que a pessoa me subestima muito, sabe. Elas me tratam como se eu fosse um coitado. Essa é a sensação que mais percebo”, contou Daniel.

Acidente

Daniel levou a descarga elétrica enquanto estava no serviço, no ano de 2012, após jogar um rolo de fios para fora do prédio. O material foi puxado por uma rede de alta tensão que ficava próxima ao local, ocasionando o acidente. O choque, de acordo com Daniel, entrou em seu corpo pela mão direita e saiu em diferentes áreas do seu corpo como: cabeça, calcanhar direito e costas. 

O músico diz que após receber o choque, caiu com o corpo pegando fogo do sexto andar, local em que estava implantando a fiação. Depois do acidente, ele precisou passar por 112 cirurgias, além de ficar em coma por 44 dias.

Daniel perdeu a mão direita e parte do calcanhar. (Foto: Reprodução/Instagram)